domingo, 15 de julho de 2018

o farol

eu não sou obrigado a enxergar os suicidas:
sua luz rompe a escuridão da noite
não é implícita como a dos outros mortos
não, não sou obrigado a nada disso:

desloco meus espelhos na medida do possível:
resta apenas o pálido reflexo
do reflexo
a noite se deixa ferir pela sua luz inevitável
mas eu, que sou vivo, me protejo

camadas de vidro, prata, óculos e dióxido de carbono:
temos escudos bastante eficientes, dadas as circunstâncias

então é isso: não sou obrigado a enxergar nada dessas coisas:
pedintes, mulheres, abutres, líquidos fedidos nas calçadas, que certamente são urina, líquidos cristalinos na calçada, fontes no meio do deserto, que certamente são urina
mas especialmente
não sou obrigado a enxergar os suicidas
nem nenhum dos mortos
nem os moribundos
nem os velhos, ou os que se preparam para envelhecer

é questão de se deslocar no assento, abaixar um pouco a cabeça, modificar a posição dos espelhos, fechar os olhos

ainda não se inventou uma luz que perfure nossas pálpebras:
se algum dia for inventada, será proibida

sábado, 3 de fevereiro de 2018

: esse deserto

a água em que nadamos: um deserto
meridional, diamantina e pura
em nós retransbordando sua secura
nos convidando pra morrer mais perto

a água em que nadamos: um deserto
um mar de areia sílica que fura
e que ao final de si promete a cura
das chagas que ela mesma tem aberto

nadamos de braçada e é incerto
se rumo a um oásis ou à agrura
de uma água mais maior e mais escura
e mais onipresente e mais deserto

a água em que nadamos: um deserto
molhar-se ou não molhar-se é igual tortura






domingo, 7 de janeiro de 2018

uma faca enfiada no baixo ventre arrastada até a garganta tão alto quanto possível: essa é a mais pura entre as relações humanas. é conveniente, para uma amizade mais bonita, que a faca esteja um pouco cega 

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

galinha

(pro Daniel Minchoni, com um verso que roubei dele)


esse poema tem asas de galinha
e olhos de tamanduá bandeira
a boca é de um tatú, e a traseira
parece, mais ou menos, com a minha

quando eu era menor, lembro que eu tinha
um poema meio que dessa maneira
sem meio fixo e tampouco sem beira
o conteúdo só na entrelinha

fazer poesia em forma de quimera
por mais que use uma forma ultrapassada
é o jogo favorito que eu brinco

faria toda noite, se pudera:
brotar galinhas de uma só piscada,
parir, de sopetão, um ornintorrinco

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

oração para são francisco


francisco encontrou um homem
bem pobre numa sarjeta
nu velho e tiritando
despiu-se ele de seu manto
e deu para o homem pobre

francisco encontrou seu pai
e o bispo e a praça toda
e a fúria de todos eles
despiu-se ele de seu manto
da túnica e das sandálias
e deu-se então nu a Deus

francisco encontrou rufino
inseguro e temeroso
de pregar o Evangelho
dispa-se rufino! ordena
vá nu pregar a Palavra!

francisco encontrou o remorso
quem sou eu? pensa francisco
que condeno um irmão
a nu e só ir pregar
diante do povo todo?
despiu-se o irmão francisco
encontrou-se com rufino
e juntos e nus pregaram
a Palavra para o povo

francisco sentindo a morte
que em breve o encontraria
deu bençãos e pãos a todos
e palavras de conforto
e quando se aproximava
a sua hora derradeira
pediu aos irmãos me dispam!
me deixem morrer na terra
permitam meu corpo nu
pegar sua temperatura

rogai por nós pai francisco
pedi ao Eterno Pai
que a nós todos nos desnude 


terça-feira, 25 de julho de 2017

arqueiro

o meu desajustamento
é coisa há muito predita:
numa pátria de chuteiras
que só ri se a rede agita
prefiro antes o antigol,
e o gozo que ele suscita;
os meus três heróis de infância:
yashin, taffarel, higuita

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Tigre

os homens que com ferro nos matavam
seus dentes sabres balas e feitiço
se evaporaram diante da aurora:
são tigres de papel, e já nem isso

quarta-feira, 19 de julho de 2017

arquitetura forense



cada muro é um crime
não há um muro que não seja um crime
só paredes são santas
paredes nos protegem dos lobos
dos ventos e dos resfriados
mas os muros nos protegem dos homens

e por isso são um crime
nenhum homem é o vento ou a gripe
nenhum homem é os lobos

toda prisão é um genocídio
crimes empilhados sobre crimes
muros verticais e horizontais que
separam os homens da humanidade
e do sol

toda prisão é um genocídio
toda prisão não passa de
uma caixa de muros com homens dentro

o que é o lado de dentro de um muro?

se ainda há muros
é porque estamos todos presos