sábado, 1 de outubro de 2011

As primeiras palavras do Universo

Seguindo a Emannuelesca tradição de algum autocomentário antes do texto propriamente dito, emendo aí umas palavras ou duas:

Me perdoem o sem número de pretenções poéticas que venho lhes jogando estes tempos. Confesso que prefiro (e confio mais no meu taco quando se trata de) escrever estórias, mas minha cabeça não tem funcionado suficientemente cartesiana para que a forma adequada de um conto ou coisa do tipo se manifeste.

Vai lá o poema, em estado quase que bruto (que minha alma, completamente bruta, não fica tão bem no papel).

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Posto que era pira, havia chama
Não havendo mais amor, ardeu raiva
Por ser pouco o combustível, ardeu morna
A calma raiva dos assassinos.

Entre estantes velhas e livros de poeira
E ideias ambíguas e sentidos de loucos
E palavras que só faziam sentido em seu idioma
A moça atordoada procurava entre...

Posto que havia mentira, havia dúvida,
Não havendo mais certeza, ardeu fé
Por ser muita a desconfiança, creu suave
A suave crença dos que não pensam muito

... estantes velhas e livros de poeira
E ideias ambíguas e sentidos loucos
Palavras que fariam sentido para
Seus sentidos, que lhes desmentiam as crenças adquiridas...

Posto que havia fúria, havia calma,
Posto que havia o alvo, havia escárnio
Sendo incertas as certezas, deixou-se, leve
Morrer de novo na irmã correnteza

Entre estantes velhas e livros de poeira
E ideias ambíguas e loucos sentidos
E as primeiras palavras do Universo.

sábado, 24 de setembro de 2011

As pessoas e o Sexo.

Oi, Emannuel aqui. Algumas observações são necessárias sobre esse texto, acho. Ele ficou grande, e provavelmente é o mais explícito que já escrevi sobre o tema aqui no Talvez Blog. Os personagens são os mesmos das últimas estórias que escrevi aqui, mas não é uma continuação, na verdade é difícil dizer se acontece antes ou depois ou durante. Eu sempre considerei a personagem feminina como sendo a protagonista, mas, por conta da minha falta de habilidade (e mais alguns detalhes óbvios), não pude escrever a visão dela da forma como gostaria. Também espero que a forma que o assunto é abordado aqui não seja ofensiva para você que vai lê-lo. Acho que está bastante suave e não-explícito, mas acho melhor avisar que é, realmente, um texto sobre sexo. Era um texto completamente diferente e inconcluso, mas achei que ficava bem com esses personagens.
***
Os dois estavam na cama. Já era noite, mas ainda cedo, nenhum dos dois tinha sono, estavam simplesmente lendo, vez ou outra fazendo algum comentário engraçado ou sarcástico. Havia sido um daqueles dias quentes, quentes demais para dar vontade de fazer qualquer coisa além de ficar na cama, apesar de quente demais para conseguir dormir. A noite deixara o clima mais agradável, é verdade, mas já era tarde demais para começar a fazer alguma coisa fora da cama, preferiram continuar ali fazendo a mesma coisa.
Ele foi o primeiro a se cansar da leitura, como sempre. Ele amava os livros, é verdade, se perdia para o mundo externo e se afundava completamente na estória, tanto quanto é possível que alguém faça, algumas vezes se ligava tanto a uma estória que tinha que escrever, criar estórias que fossem suas para tentar redescobrir a própria identidade, para criar alguma ligação entre si mesmo e o mundo real, ou ao menos um mundo que não fosse aquele das estórias que estava lendo. Mas o fato é que ele se cansava (mental e oticamente) muito mais rápido que ela, apesar de reconhecer que ela precisava de mudanças vez ou outra tanto quanto ele (ela nunca estava lendo apenas um livro, então mudava de um para outro), talvez até mesmo mais. O fato é que ele parou de ler e ela não. Ele ficou ali, na cama, quieto, sem querer atrapalhar a leitura dela, simplesmente pensando. E olhando para ela de tempos em tempos, simplesmente para apreciar a beleza da expressão séria, dos cabelos soltos e dos centímetros –infinitos- de pele à mostra. Parecia um adolescente tímido que se vicia em olhar para a pessoa que gosta e pensa fazer isso furtivamente.
Ela, obviamente, percebeu, e não pode evitar um daqueles sorrisos que eram tão característicos dela, com o rosto ficando levemente rosado, não muito, com um pouco de malícia e um pouco de inocência. Quando os olhos dele se encontraram com os dela, quando viu no rosto dela aquela expressão, não pode –e não quis- controlar uma ereção. E deixou de lado o adolescente tímido.
Ela ainda tinha o livro nas mãos e o sorriso no rosto quando ele começou a beijar, lenta e suavemente, várias partes de seu corpo: as pernas, ao longo dos braços, os ombros (muitas vezes), os seios (com também suaves e lentas mordidas), a barriga, a parte interior das coxas. Até aí cada pelo do corpo dela já estava eriçado, e começou a colocar de lado o livro que lia. Enquanto ele finalmente chegava ao clitóris o sorriso também foi colocado de lado e deu lugar a outra coisa.
Apenas depois disso foram se olhar nos olhos novamente, ele aproximando seu rosto do dela aos poucos, até se beijarem. Muitos casais teriam nojo de fazer isso, mas ela não tinha esse tipo específico de aversão, assim como ele não tinha quando acontecia o contrário. Aquele, provavelmente, foi o momento mais perfeito para ele, mais até do que os que viriam a seguir, porque naquele momento – enquanto passava a senti-la por dentro – ela mordia suavemente o lábio inferior durante o beijo molhado, os joelhos dela se arqueavam e dobravam, embora não demais, e ele sentia as pontas dos dedos dela pressionando suas costas, as unhas, apesar de não muito longas, certamente deixariam marcas na pele por alguns minutos. Tudo era suave.
Ela pressionou um dos lados e ele prontamente entendeu. Os dois rolaram juntos na cama, ele ficando por baixo, ela por cima. Era a posição ideal para os dois, a que mais fazia com que se sentissem bem. Nessa posição podiam se beijar, se olhar nos olhos, sorrir um para o outro, conversar. Conversavam naquele mesmo momento, mas falavam coisas que não cabe aqui dizer.
As mãos dele se encaixaram nos seios dela, os mamilos se enrijecendo enquanto acariciados entre os polegares e os indicadores. Depois de alguns momentos e mais outros movimentos, uma das mãos dele desceu e foi se apoiar no quadril dela, enquanto a outra subiu e trouxe o rosto para mais perto. Ela sentiu algo de diferente naquelas mãos, viu algo de diferente naqueles olhos; e ouviu algo de diferente quando ele sussurrou com uma voz pausada a pergunta – ou seria um pedido? – “você me ama?”. As partes do seu corpo que não dependiam do seu uso da razão continuaram a fazer o que estavam fazendo, o resto, a parte de dentro, parou.
Ela precisava pensar para responder uma coisa dessas! E naquela situação ela não iria conseguir pensar direito, não teria o tempo necessário e não sabia por quanto tempo ele aceitaria ficar sem uma resposta, se é que ele realmente queria uma resposta. Ela nunca se importara com essa palavra a ponto de pensar se ela podia ser usada entre os dois, ou em qualquer situação, se fosse ser completamente sincera. Nunca havia falado para ninguém o que ele –aparentemente- queria que ela dissesse agora. Eram tantas as coisas que precisavam ser pesadas e medidas, consideradas, para chegar a uma conclusão dessas, e ela nem mesmo sabia a qual conclusão poderia chegar. Ela tinha certo medo de que ele pudesse sentir, que ele conseguisse sentir o que ela sentia por dentro. E ela sabia que gostava dele, gostava do que estavam fazendo antes dele fazer essa pergunta estúpida e maliciosa. Não, ela não amava, não sabia o que era isso, o que ele queria, não sabia o que ela própria queria. Ela fez a mesma cara séria que fazia enquanto lia e, para que ele não percebesse, o beijou. Ele deve ter interpretado isso como uma resposta positiva, ela pensou; ela conseguia sentir que era isso que ele pensava. Era culpa dele se estava interpretando isso dessa forma, ela não tinha culpa, não tinha o que fazer sobre isso, não antes de ter tempo para pensar. E demoraria até que fosse ter tempo para pensar.
Tentou esvaziar a cabeça dessas coisas, esquecer isso, voltar a se concentrar nas mesmas coisas que a ocuparam a alguns segundos atrás – isso não deveria ser tão difícil –. E conseguiu, embora apenas em parte. Enquanto continuaram ali juntos não conseguiu mais conversar leviandades como em geral. Conversaram através do corpo, e talvez tenham se entendido assim melhor que de qualquer outra forma que tentassem. Mas ainda assim, quando ele finalmente adormeceu, muito depois, continuou dentro dela. Ela não conseguiu tirar ele de sua cabeça, e pareciam ser duas pessoas diferentes a que estava ali com ela na cama e a que estava nos pensamentos durante a noite em claro. Ficou quieta na cama, quase que paralisada. Se levantasse iria acordá-lo e não queria pensar no que aconteceria se começassem a conversar naquele momento.
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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Lobo

Rosne, uive, ladre, lobo!
Que a noite, enfim, é muito curta.
Deixe a lua ser tua consorte,
Espera o sol bater na tua cara,
Quando o vir, lobo, memento mori.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Pessoas e o fim

Realmente acho que todos os textos da série “pessoas e …” podem ser lidos separadamente, mas em conjunto eles devem fazer muito mais sentido: primeira parte, segunda parte e terceira parte. Essa série foi uma tentativa de fazer uma coisa um pouco diferente do que eu geralmente faço, mas acabou não ficando tão diferente quanto eu esperava. Vou fazer mais estórias para esses personagens, eles são genéricos o suficiente para render muitas coisas para o blog, mas os outros vão ser completamente independentes, então esse é provavelmente o fim de uma pequena estória.
***
Ela não demorou muito para acordar, afinal, já tinha dormido bastante, não a muito tempo. Ele ainda estava escrevendo. Ela levantou e lhe beijou os cabelos, ele quase não percebeu. Ela foi andando calmamente para a sala. Colocou outro disco para tocar e sentou no grande sofá que ela mesma tinha escolhido, olhando pela janela. Já tinha parado de nevar, lá embaixo, na rua, provavelmente seria bem difícil saber que tinha sequer nevado mais cedo, o Sol, apesar de tímido já devia ter derretido tudo, não fora nenhuma nevasca afinal de contas.
Ela se sentia muito idiota naquele momento. Não entendia como ficara tão apavorada mais cedo. Não era pessoa de perder o controle, não importando como ou quando. E especialmente não era pessoa de ficar aflita sem nenhum motivo real, só com medos que não tinham fundamento, medos infantis. Não conseguia entender como aquilo podia ter a amedrontado. Se sentia como se por alguns momentos tivesse perdido o controle sobre o que era e o que queria. E não soube realmente dizer se aquilo era uma coisa boa ou ruim.
Ela ficou ali, pensando nisso até finalmente conseguir espantar as ideias de sua mente. Já estava anoitecendo quando ela foi para a varanda, simplesmente olhar as cores do céu e pensar no mundo. Gostava das cores do começo da noite ainda mais do que das cores do fim da tarde. Pensava em todas as coisas que aquelas cores significavam para ela; o carmim que se arroxeava e o azul, cada vez mais escuro conforme se aproximava das estrelas. Ela ouviu quando ele se aproximou, por mais que estivesse perdida em pensamentos. Ela o ouviu enquanto ele trocava o disco, mas não olhou para trás, não tirou a atenção das estrelas, não queria voltar aos pensamentos que tinha afugentado mais cedo. Ele ficou ao lado dela, sem realmente falar coisa alguma. Ela sabia que ele não estava olhando para as estrelas como ela, mas sim simplesmente ouvindo a música, mas também pensando, sem dúvida, talvez até mesmo em coisas parecidas, mas isso ela nunca ia saber, e gostava das coisas assim. Uma coisa que ela sabia é que ele nunca começaria uma conversa naquela situação, ele nunca atrapalharia quando soubesse que ela estava pensando, então a tarefa ficou para ela.
“Então você decidiu escrever alguma coisa diferente… fantasia?” Ela conhecia ele o suficiente para estar quase certa da resposta mesmo enquanto fazia a pergunta.
Ele sorriu, estava esperando que ela falasse. “Não, acho que vai acabar sendo um policial, mas ainda não tenho certeza”.
Foi a vez dela sorrir. Estava surpresa; os dois sabiam que ele não era bom em deixar os leitores em suspense. Ele escrevia coisas que revelavam, não que ocultavam. Mas saber isso a deixou um tanto feliz, por mais que não soubesse dizer o porquê. Mas agora era a vez dele falar, e ela conseguia sentir que ele tinha algo para falar.
“Sabe, com o livro novo eu vou ter que passar alguns dias fora”. Ela não entendeu imediatamente onde ele queria chegar, então esperou que continuasse. “Eu não vou te pedir em casamento ou algo assim, mas você podia aproveitar esses dias e trazer suas coisas para cá, mudar um pouco a casa, talvez”.
Aquilo a deixou realmente surpresa, e percebeu que estava se surpreendendo muito nos últimos dias. “Mas o que você quer dizer com isso? O que você acha que isso vai significar para nós? O que vamos fazer sobre ver outras pessoas? E…”
Nesse momento ele a interrompeu, e ela não sabia exatamente se ele estava respondendo ou simplesmente cantando com a música de fundo quando disse “I Don’t mind, if you don’t mind” e se afastou sorrindo, mas ela sabia que aquela seria toda a resposta que teria, pelo menos por enquanto.
E ela continuou lá, olhando para o céu que agora estava completamente escuro, com pontinhos brilhantes e sem lua. E ela não conseguiu se impedir de pensar em como seria as coisas daquele momento em diante, não conseguiu se impedir de ficar curiosa. Parecia uma coisa nova, e ela percebeu que gostava de ser surpreendida.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O Suco Secreto

Você já deve ter tomado groselha. É um negócio gostoso, principalmente aos oito anos. Mas quando eu tinha oito anos, groselha não era groselha, pelo menos não na casa da minha avó.

Ela aparecia na sala, quando íamos jantar seu famoso arroz com franguinho, com copos cheios, dizia para os netos, de Suco Secreto. Era maravilhoso. Mais saboroso que suco de uva, sem a consistência incômoda do suco de laranja, com aquela cor bonita (principalmente contra a luz, olha, o que será que ela põe aí?). E era, sem que soubéssemos, groselha.

O neto, ao completar onze anos, dizia para nós, aprenderia com ela mesma a receita do Suco Secreto. Ah, tempo de espera cruel e dolorosa. Lá estávamos, em outro dia, sentados na sala, comendo arroz, franguinho, talvez umas batatas fritas, assistindo a algum filme que ela tivesse gravado pra gente. Ela vinha pelo corredor e chamava um de nós.

Não nos dávamos conta na hora, mas o aniversário dele tinha sido o que? Uma semana, talvez duas, atrás? Só quando eles voltavam, três cenas do filme depois, trazendo nas mãos copos de Suco Secreto para todos, é que percebíamos.

O olhar com a humildade orgulhosa dos sábios em seu rosto não nos deixava dúvida. Ao chamado de nossa avó, uma criança, ignorante dos Segredos do Suco, havia deixado a sala. Voltara para ela um Homem Completo.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Naquele dia, a Literatura pegou ela de surpresa. Não teve jeito. Tentou coca, chocolate, dois filmes. Nada lavava a coceira pra longe da ponta dos seus dedos.

Tentou dirigir por meia hora, para o segundo mercado vinte-e-quatro-horas mais próximo da sua casa, e comprar xampu e detergente, que já estava quase acabando. Não deu certo:

No mercado, se viu no espelho, com aquele casaco escuro. Estava bonita, droga. Maldita madrugada, em que até ela, até ela, se achava bonita com um carrinho de supermercado e uma blusa velha. Porcaria de blusa velha e lírica.

Achava muito desconfortáveis essas noites em que a Literatura vinha e lhe atacava de surpresa. Tinha uma reunião amanhã cedo. Tinha que encher o pneu do carro. Tinha que lavar a louça. Meu Deus!, aquela louça ia ganhar vida e começar a se cuidar sozinha, se ela não fizesse nada a respeito!

Chegou em casa e não guardou nem xampu nem detergente, nem o monte de biscoitos que tinha comprado de autopresente não sabia por quê. Deixou as sacolas em cima da mesa da sala. Também não lavou a louça. E não dormiu.

Sentou na cama e pegou o bloquinho de papel que sempre deixava ao lado. Desencavou uma caneta de baixo do colchão – as canetas estavam na casa inteira, menos no porta canetas! Por que!? – Escreveu de um fôlego, como não costumava fazer.

Era uma estória sobre Dragões, Princesas e um violão mágico. Não tinha nada a ver com as ideias que vinha juntando por dias. Não era profundo. Não era calculada. Não era o que ela queria estar escrevendo. Não servia nem de exercício.

A Literatura é uma filha da puta, ela pensou. Mas Rocinante, o Cavalo Falante, respondeu-lhe, de dentro das folhas, que ela que era uma mal-agradecida. Ora, Rociocinava, tem letras onde antes era branco, tem ideias onde tinha nada, não é profundo, mas é bonito, e, principalmente, agora tem eu! Quer pedacinho mais bem escrito de Cavalo Falante?

Mas ela já estava dormindo desde a parte das ideias onde não tinha nada. Não deu nem tempo de fazer a revisão.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Pessoas e o tempo.

Se não tiver lido os textos que antecedem esse, primeiro leia isso e então esse aqui. Os próximos não vão ter imagens tão melosas, prometo.
***
Quando os dois acordaram estava nevando.
Nunca nevava. Ela adorava a neve, e isso só fez com que a sensação de estranheza aumentasse ainda mais. Quando eles se conheceram estava nevando, mas aquilo fora muito, muito longe de onde eles estavam hoje, outro mundo, outra vida. Ultimamente, sempre que entrava naquela casa as coisas pareciam estar certas, e isso a deixava com medo. Tudo estava certo, mas estava menos humano. Ele parecia distante. Nem conseguia ter certeza do que achou de ir para a cama com ele naquela manhã, exceto que pareceu certo, pareceu perfeito.
Três anos antes, quando se conheceram, numa exposição, por intermédio de amigos em comum, nunca imaginaram que fossem estar compartilhando a mesma cama tanto tempo depois. Eles sabiam que iam compartilhar naquela noite, mas pouco mais do que isso.
Não era uma exposição dela, ficaram em um dos cantos conversando e fazendo piadas sarcásticas das tais obras de arte. Ela estava fazendo uma grande viagem, uma forma de buscar inspiração em vários lugares do mundo. Ele era daquele pedaço de lugar nenhum. Se deram bem, afinal é isso que importa. Dois dias depois ela continuou na viagem, ele ficou.
Só foram se ver novamente alguns meses depois. Ela tinha parado de viajar e ele foi atrás da única editora que demonstrou algum interesse no que escrevia. Ela ofereceu uma cama para ficar, a cama dela, contanto que não por muito tempo; ele logo achou um lugar para ficar, nada comparado com a casa que morava hoje, mas nem por isso ruim. Só quando seus livros pareceram interessar um grupo de pessoas esquisitas é que conseguiu uma casa melhor, e deixou de lado as preocupações em correr atrás de editoras, agora tinha que correr atrás dos prazos. Nunca ficou grande o suficiente pra precisar de assistentes, nem teve crises criativas que ela não o ajudasse a ultrapassar.
Quando finalmente conseguiu essa casa eles já tinham plena consciência que estavam em um tipo de relacionamento, mas até hoje não sabem exatamente que tipo é esse. Se veem quase todos os dias, exceto quando ela tem que viajar, ele raramente faz tours. Mas o tempo que passam separados nunca foi um problema, pelo contrário, sempre lidaram bem com isso, como sempre lidaram bem um com o outro.
A impressão que ela teve naquele momento foi exatamente que precisava de algum tempo longe dele.
Ele tinha acordado antes dela, mas ainda estava ali na cama, com cara de sono e olhando para a neve. Ele gostava da neve, e ela não sabia se era porque aquilo o lembrava de casa ou simplesmente porque era neve. Ele não gostava do lugar onde tinha nascido, pelo menos não gostava mais do que de onde morava agora, mas ela sabia que as pessoas podem ser bem irracionais sobre essas coisas.
“Bom dia” Ele falou sorrindo quando finalmente tirou os olhos da janela e percebeu que ela tinha acordado.
“Bom dia” Ela respondeu se sentando na cama. “Não nevava a muito tempo.”
Ela percebeu o quanto ele se distraía com aquilo pela forma que ele respondeu, muito mais desligado do que de costume. “É verdade, nem me lembro de quando foi a última vez que vi neve”.
“Eu nunca tinha visto até o dia que nos conhecemos”. Aquilo chamou a atenção dele, quase como se ele tivesse esquecido daquilo, quase como se ele não fosse o mais sentimental dos dois.
Depois de uma pausa ele disse, se levantando da cama: “Tenho que escrever”.
“Mas já? Você acabou a pouco tempo, já mandou para a editora? Ou vai revisar?”
“Você sabe que eu nunca reviso, mas a neve me inspira, você podia vir comigo”. Ele respondeu sorrindo.
Ele colocou música para tocar e ela se deitou no colchão enquanto ele se sentou frente à mesa e começou a datilografar.
“Você teve alguma ideia nova?” Apesar de não dar para ver a neve daquela janela, estava frio, ela se enrolou com centenas de cobertores e não esperou que ele respondesse, mas aparentemente ele estava mais conversador do que de costume.
“Não exatamente. Mas lembra quando você me falou que as minhas estórias estavam começando a parecer com a nossa vida? Não gosto disso, quero mudar, quero provar, para mim mesmo, que minha criatividade não se limita às coisas que eu conheço”.
“Entendo, para mim é muito diferente, eu simplesmente expresso o que sinto, você além de fazer isso tem que encaixar uma história”.
“Não sei se é tão diferente assim, a história geralmente vem das próprias emoções que tento expressar. O problema é que, por mais que seja infinita a quantidade de estórias para cada coisa que se quer expressar, não gosto da ideia de estar sempre escrevendo sobre as mesmas coisas”.
Ela sabia daquilo, era provavelmente a coisa na qual mais se assemelhavam, nenhum dos dois gostava de ficar preso para sempre às mesmas sensações. Aquilo a fez pensar em como as coisas entre eles estavam durando muito, ela nunca esperou que fossem demorar tanto. Ele, agora, dizia que sempre imaginou que o que havia entre os dois era algo muito grande. Ela não achava que ele realmente acreditasse nisso, mas quando ele dizia esse tipo de coisa não conseguia conter um sorriso.
Agora ele já havia cansado de como esse tipo de coisa se refletia na arte dele. E ela tinha medo que isso quisesse dizer que ele estava se cansando dela. Na realidade ela nunca pensou que ele pudesse se cansar antes dela. A música havia acabado e ela dormiu com o som dos tipos no papel, dormiu pedindo para que quando acordasse não estivesse mais apaixonada.

sábado, 2 de julho de 2011

Pessoas e coisas.

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Para entender melhor esse texto antes leia isso.
***
No outro dia ela voltou bem cedo. Tentou encontrar algum restaurante japonês aberto no caminho mas não encontrou. Ele teria que se contentar com Yakissoba. Ia ficar feliz de usar os hashis.
Ela sabia o que ia encontrar quando abriu a porta da casa. Ele nunca lhe dera a chave de verdade, mas algum tempo atrás ela tinha pegado uma cópia emprestada e nunca surgiram motivos para devolver. Ainda não tinha amanhecido de verdade, mas quando ela entrou no lugar e encontrou todas as luzes apagadas soube que ele não saíra do quarto onde escrevia desde que escurecera.
Pelas frestas da porta viu que a luz do quarto estava acesa. Abriu a porta sem bater. Era provavelmente o quarto menos mobiliado da casa. Um colchão no chão. Uma estante de livros, uma mesa pequena e uma cadeira. A janela pequena  estava tão hermeticamente fechada pelas persianas que não deixava perceber que estava amanhecendo. Sobre a mesa uma máquina de escrever, papel, caneta, corretivo e um caderno de anotações. Ele estava deitado lendo alguma coisa.
"Já? Mas que horas são?"
"Está amanhecendo, seu idiota. Eu te trouxe comida."
Ele se sentou e começou a comer imediatamente. Dava para ver que estava com fome. É bem provável que as coisas que ele tinha deixado separadas para comer nunca tenham sido tocadas. Ela deitou no colchão, se aninhando no lugar onde ele estava antes. Era pequeno, mas ela ainda sentiu ele se deitando ao lado dela antes de adormecer completamente.
Quando ela acordou ele não estava mais lá. Abriu as persianas. Se ele tinha saído do quarto é porque tinha terminado o texto, e não ia voltar a entrar ali para escrever naquele dia. Prendeu os cabelos com os hashis que ele não tinha chegado a usar e foi ler as páginas que ele tinha escrito. Não foram muitas, não era muito prolífico, mas ela também não era com nada que fazia. Já tinha feito algumas exposições, mas nunca produzira rápido. Dirigira dois filmes, um independente que no qual não tivera problemas por conta do atraso e outro no qual tivera muitos problemas com datas, desde então tinha decidido dar um tempo com o cinema. Pensava em gravar um disco em alguns anos, mas por enquanto isso era só uma vontade. Sabia que ele também queria fazer isso, talvez fizessem juntos, ele poderia escrever coisas para ela.
Terminou de ler e saiu do quarto. Encontrou com ele mexendo nos vinis.
"Suas estórias estão cada vez mais parecidas com a nossa vida ou é o contrário?"
"Você sabe que para mim a vida só existe para servir de fundamento para a arte, eu já te disse isso, não?"
"Não, mas você escreveu em algum lugar."
"Como foi na galeria?"
"Como sempre é, cansativo, essa não é a parte que eu gosto."
"Desculpe por não ter estado lá."
"Não se preocupe, você já viu tudo que estava lá mesmo."
Ele colocou um dos discos para tocar e foram para a varanda. As vezes as pessoas podem pensar que varandas em casas de cidade não são tão aconchegantes quanto a de outros lugares, mas na verdade o que acontece é que as pessoas da cidade normalmente não se dão a chance de aproveitar a varanda que têm, quando têm.
Era para lá que iam quando ela queria pintar. Ficavam ouvindo a música vindo de dentro de casa e o barulho vindo de fora. Ele simplesmente ficava lá, sem fazer nada, talvez pensando, talvez não. No começo ela não gostava de pintar ali, não se sentia em casa, e achava estranha a atitude dele, mas com o tempo deixou isso de lado. As vezes achava que gostava mais daquela casa do que da sua própria.
"Você não tem a impressão de que isso tudo é muito perfeito? Muito vazio?" Ela perguntou. "Algumas vezes não consigo entender o que é isso que nós fazemos."
"Tudo é perfeito, dependendo de como você olha. O que nós fazemos é o que somos de verdade. Não teríamos nos conhecido se não fosse por isso."
"Mas não nos conhecemos, tudo que eu sei sobre você é que não gosta de dar nomes aos seus personagens."
"Isso não é verdade, você sebe muito mais sobre mim do que isso. Mas a verdade é que essa é a única coisa importante para se saber sobre mim."
Ela deixou a pintura secando, infinitas espirais em tons de vermelho e laranja, quase amarelo em algumas vezes, e os detalhes pretos em forma de V, talvez pássaros. Entrou na casa, só precisava de um copo de água. A música ainda tocava. Não a mesma, mas já não lembrava mais o que estava tocando no começo. Ela ouviu ele se aproximar, mas não se moveu. Ele soltou os cabelos dela e beijou-a no pescoço. Ele queria ir para a cama com ela. E, naquele momento, aquilo era tudo que ela precisava saber sobre ele.