sábado, 1 de outubro de 2011
As primeiras palavras do Universo
Me perdoem o sem número de pretenções poéticas que venho lhes jogando estes tempos. Confesso que prefiro (e confio mais no meu taco quando se trata de) escrever estórias, mas minha cabeça não tem funcionado suficientemente cartesiana para que a forma adequada de um conto ou coisa do tipo se manifeste.
Vai lá o poema, em estado quase que bruto (que minha alma, completamente bruta, não fica tão bem no papel).
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Posto que era pira, havia chama
Não havendo mais amor, ardeu raiva
Por ser pouco o combustível, ardeu morna
A calma raiva dos assassinos.
Entre estantes velhas e livros de poeira
E ideias ambíguas e sentidos de loucos
E palavras que só faziam sentido em seu idioma
A moça atordoada procurava entre...
Posto que havia mentira, havia dúvida,
Não havendo mais certeza, ardeu fé
Por ser muita a desconfiança, creu suave
A suave crença dos que não pensam muito
... estantes velhas e livros de poeira
E ideias ambíguas e sentidos loucos
Palavras que fariam sentido para
Seus sentidos, que lhes desmentiam as crenças adquiridas...
Posto que havia fúria, havia calma,
Posto que havia o alvo, havia escárnio
Sendo incertas as certezas, deixou-se, leve
Morrer de novo na irmã correnteza
Entre estantes velhas e livros de poeira
E ideias ambíguas e loucos sentidos
E as primeiras palavras do Universo.
sábado, 24 de setembro de 2011
As pessoas e o Sexo.
***
Os dois estavam na cama. Já era noite, mas ainda cedo, nenhum dos dois tinha sono, estavam simplesmente lendo, vez ou outra fazendo algum comentário engraçado ou sarcástico. Havia sido um daqueles dias quentes, quentes demais para dar vontade de fazer qualquer coisa além de ficar na cama, apesar de quente demais para conseguir dormir. A noite deixara o clima mais agradável, é verdade, mas já era tarde demais para começar a fazer alguma coisa fora da cama, preferiram continuar ali fazendo a mesma coisa.
Ele foi o primeiro a se cansar da leitura, como sempre. Ele amava os livros, é verdade, se perdia para o mundo externo e se afundava completamente na estória, tanto quanto é possível que alguém faça, algumas vezes se ligava tanto a uma estória que tinha que escrever, criar estórias que fossem suas para tentar redescobrir a própria identidade, para criar alguma ligação entre si mesmo e o mundo real, ou ao menos um mundo que não fosse aquele das estórias que estava lendo. Mas o fato é que ele se cansava (mental e oticamente) muito mais rápido que ela, apesar de reconhecer que ela precisava de mudanças vez ou outra tanto quanto ele (ela nunca estava lendo apenas um livro, então mudava de um para outro), talvez até mesmo mais. O fato é que ele parou de ler e ela não. Ele ficou ali, na cama, quieto, sem querer atrapalhar a leitura dela, simplesmente pensando. E olhando para ela de tempos em tempos, simplesmente para apreciar a beleza da expressão séria, dos cabelos soltos e dos centímetros –infinitos- de pele à mostra. Parecia um adolescente tímido que se vicia em olhar para a pessoa que gosta e pensa fazer isso furtivamente.
Ela, obviamente, percebeu, e não pode evitar um daqueles sorrisos que eram tão característicos dela, com o rosto ficando levemente rosado, não muito, com um pouco de malícia e um pouco de inocência. Quando os olhos dele se encontraram com os dela, quando viu no rosto dela aquela expressão, não pode –e não quis- controlar uma ereção. E deixou de lado o adolescente tímido.
Ela ainda tinha o livro nas mãos e o sorriso no rosto quando ele começou a beijar, lenta e suavemente, várias partes de seu corpo: as pernas, ao longo dos braços, os ombros (muitas vezes), os seios (com também suaves e lentas mordidas), a barriga, a parte interior das coxas. Até aí cada pelo do corpo dela já estava eriçado, e começou a colocar de lado o livro que lia. Enquanto ele finalmente chegava ao clitóris o sorriso também foi colocado de lado e deu lugar a outra coisa.
Apenas depois disso foram se olhar nos olhos novamente, ele aproximando seu rosto do dela aos poucos, até se beijarem. Muitos casais teriam nojo de fazer isso, mas ela não tinha esse tipo específico de aversão, assim como ele não tinha quando acontecia o contrário. Aquele, provavelmente, foi o momento mais perfeito para ele, mais até do que os que viriam a seguir, porque naquele momento – enquanto passava a senti-la por dentro – ela mordia suavemente o lábio inferior durante o beijo molhado, os joelhos dela se arqueavam e dobravam, embora não demais, e ele sentia as pontas dos dedos dela pressionando suas costas, as unhas, apesar de não muito longas, certamente deixariam marcas na pele por alguns minutos. Tudo era suave.
Ela pressionou um dos lados e ele prontamente entendeu. Os dois rolaram juntos na cama, ele ficando por baixo, ela por cima. Era a posição ideal para os dois, a que mais fazia com que se sentissem bem. Nessa posição podiam se beijar, se olhar nos olhos, sorrir um para o outro, conversar. Conversavam naquele mesmo momento, mas falavam coisas que não cabe aqui dizer.
As mãos dele se encaixaram nos seios dela, os mamilos se enrijecendo enquanto acariciados entre os polegares e os indicadores. Depois de alguns momentos e mais outros movimentos, uma das mãos dele desceu e foi se apoiar no quadril dela, enquanto a outra subiu e trouxe o rosto para mais perto. Ela sentiu algo de diferente naquelas mãos, viu algo de diferente naqueles olhos; e ouviu algo de diferente quando ele sussurrou com uma voz pausada a pergunta – ou seria um pedido? – “você me ama?”. As partes do seu corpo que não dependiam do seu uso da razão continuaram a fazer o que estavam fazendo, o resto, a parte de dentro, parou.
Ela precisava pensar para responder uma coisa dessas! E naquela situação ela não iria conseguir pensar direito, não teria o tempo necessário e não sabia por quanto tempo ele aceitaria ficar sem uma resposta, se é que ele realmente queria uma resposta. Ela nunca se importara com essa palavra a ponto de pensar se ela podia ser usada entre os dois, ou em qualquer situação, se fosse ser completamente sincera. Nunca havia falado para ninguém o que ele –aparentemente- queria que ela dissesse agora. Eram tantas as coisas que precisavam ser pesadas e medidas, consideradas, para chegar a uma conclusão dessas, e ela nem mesmo sabia a qual conclusão poderia chegar. Ela tinha certo medo de que ele pudesse sentir, que ele conseguisse sentir o que ela sentia por dentro. E ela sabia que gostava dele, gostava do que estavam fazendo antes dele fazer essa pergunta estúpida e maliciosa. Não, ela não amava, não sabia o que era isso, o que ele queria, não sabia o que ela própria queria. Ela fez a mesma cara séria que fazia enquanto lia e, para que ele não percebesse, o beijou. Ele deve ter interpretado isso como uma resposta positiva, ela pensou; ela conseguia sentir que era isso que ele pensava. Era culpa dele se estava interpretando isso dessa forma, ela não tinha culpa, não tinha o que fazer sobre isso, não antes de ter tempo para pensar. E demoraria até que fosse ter tempo para pensar.
Tentou esvaziar a cabeça dessas coisas, esquecer isso, voltar a se concentrar nas mesmas coisas que a ocuparam a alguns segundos atrás – isso não deveria ser tão difícil –. E conseguiu, embora apenas em parte. Enquanto continuaram ali juntos não conseguiu mais conversar leviandades como em geral. Conversaram através do corpo, e talvez tenham se entendido assim melhor que de qualquer outra forma que tentassem. Mas ainda assim, quando ele finalmente adormeceu, muito depois, continuou dentro dela. Ela não conseguiu tirar ele de sua cabeça, e pareciam ser duas pessoas diferentes a que estava ali com ela na cama e a que estava nos pensamentos durante a noite em claro. Ficou quieta na cama, quase que paralisada. Se levantasse iria acordá-lo e não queria pensar no que aconteceria se começassem a conversar naquele momento.
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Lobo
Que a noite, enfim, é muito curta.
Deixe a lua ser tua consorte,
Espera o sol bater na tua cara,
Quando o vir, lobo, memento mori.
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Pessoas e o fim
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
O Suco Secreto
Você já deve ter tomado groselha. É um negócio gostoso, principalmente aos oito anos. Mas quando eu tinha oito anos, groselha não era groselha, pelo menos não na casa da minha avó.
Ela aparecia na sala, quando íamos jantar seu famoso arroz com franguinho, com copos cheios, dizia para os netos, de Suco Secreto. Era maravilhoso. Mais saboroso que suco de uva, sem a consistência incômoda do suco de laranja, com aquela cor bonita (principalmente contra a luz, olha, o que será que ela põe aí?). E era, sem que soubéssemos, groselha.
O neto, ao completar onze anos, dizia para nós, aprenderia com ela mesma a receita do Suco Secreto. Ah, tempo de espera cruel e dolorosa. Lá estávamos, em outro dia, sentados na sala, comendo arroz, franguinho, talvez umas batatas fritas, assistindo a algum filme que ela tivesse gravado pra gente. Ela vinha pelo corredor e chamava um de nós.
Não nos dávamos conta na hora, mas o aniversário dele tinha sido o que? Uma semana, talvez duas, atrás? Só quando eles voltavam, três cenas do filme depois, trazendo nas mãos copos de Suco Secreto para todos, é que percebíamos.
O olhar com a humildade orgulhosa dos sábios em seu rosto não nos deixava dúvida. Ao chamado de nossa avó, uma criança, ignorante dos Segredos do Suco, havia deixado a sala. Voltara para ela um Homem Completo.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Naquele dia, a Literatura pegou ela de surpresa. Não teve jeito. Tentou coca, chocolate, dois filmes. Nada lavava a coceira pra longe da ponta dos seus dedos.
Tentou dirigir por meia hora, para o segundo mercado vinte-e-quatro-horas mais próximo da sua casa, e comprar xampu e detergente, que já estava quase acabando. Não deu certo:
No mercado, se viu no espelho, com aquele casaco escuro. Estava bonita, droga. Maldita madrugada, em que até ela, até ela, se achava bonita com um carrinho de supermercado e uma blusa velha. Porcaria de blusa velha e lírica.
Achava muito desconfortáveis essas noites em que a Literatura vinha e lhe atacava de surpresa. Tinha uma reunião amanhã cedo. Tinha que encher o pneu do carro. Tinha que lavar a louça. Meu Deus!, aquela louça ia ganhar vida e começar a se cuidar sozinha, se ela não fizesse nada a respeito!
Chegou em casa e não guardou nem xampu nem detergente, nem o monte de biscoitos que tinha comprado de autopresente não sabia por quê. Deixou as sacolas em cima da mesa da sala. Também não lavou a louça. E não dormiu.
Sentou na cama e pegou o bloquinho de papel que sempre deixava ao lado. Desencavou uma caneta de baixo do colchão – as canetas estavam na casa inteira, menos no porta canetas! Por que!? – Escreveu de um fôlego, como não costumava fazer.
Era uma estória sobre Dragões, Princesas e um violão mágico. Não tinha nada a ver com as ideias que vinha juntando por dias. Não era profundo. Não era calculada. Não era o que ela queria estar escrevendo. Não servia nem de exercício.
A Literatura é uma filha da puta, ela pensou. Mas Rocinante, o Cavalo Falante, respondeu-lhe, de dentro das folhas, que ela que era uma mal-agradecida. Ora, Rociocinava, tem letras onde antes era branco, tem ideias onde tinha nada, não é profundo, mas é bonito, e, principalmente, agora tem eu! Quer pedacinho mais bem escrito de Cavalo Falante?
Mas ela já estava dormindo desde a parte das ideias onde não tinha nada. Não deu nem tempo de fazer a revisão.
