1.
não sei dizer ao certo, meu amigo se o mar é um espelho do céu
ou se o céu é um espelho do mar
é um problema que certamente diverte os filósofos, mas a mim só me ocorre
a visão do vermelho de seu barrete refletido na água,
agitando-se mais desesperadamente do que as ondas
como vem agora a visão da fina fumaça que escapa da torre de vigia de if
uma cicatriz que corta o céu, com seu duplo inconstante ferindo a água salgada
“um prisioneiro escapou de if”, anuncia o tiro de canhão
2.
quando vi seu corpo afundando no mar, meu amigo,
instintivamente olhei para cima, em busca do duplo que afundasse em direção ao céu da manhã
mas ele não surgiu - precisei então enrolar meus dedos em seus cabelos, selvagens como os de um salteador, precisei te parir do fundo do mar para dentro de meu bote
eu reconheço que havia uma espécie de doçura na sensação de seus cabelos, mesmo durante a luta contra o mar
havia um certo brilho em seu corpo, mesmo que quase abandonado pela vida
não é por generosidade pura que compartilho agora a calça e a camisa que me restam
não, eu reconheço, de alguma forma é apenas um impulso, quase egoísta, de manter a salvo
este brilho, esta doçura
3.
haverá um dia, meu amigo, em que o céu se cobrirá destas cicatrizes,
em que o ar se tornará pesado pelo ribombar incessante dos canhões das fortalezas dando o alarme:
“caiu if, escaparam todos”
“caiu a bastilha” e “caiu guantánamo”
“caíu fenestrelle” e “caiu a penitenciária de santana”
só peço a Deus que minhas mãos tenham força para puxar do mar
aqueles que se extraviarem no caminho de volta pra casa
só peço a Deus que a calça e a camisa que me restam sejam suficientes para agasalhar a eles todos
segunda-feira, 9 de março de 2026
Jacopo na Fortaleza de If
quarta-feira, 15 de outubro de 2025
09:57
Assim como muitos,
A minha cabeça só vai pra um lugar
E parece que vai e volta
Só existe o antes e o depois
O agora é sempre uma dúvida
O espaço não é um ponto
Mas um espaço
Em que se movimenta
Movimentos então
As vezes se encontram
Nunca parados nem no mesmo lugar
É uma dança
Não existe "o mesmo tempo"
Porque pra ir pra lá toma tempo
Era antes, e vira depois
E existir não é ser humano
Porque ser humano
É olhar o relógio, preciso,
Mas jamais saber
Que horas são
terça-feira, 15 de julho de 2025
poética 2
para Marian
1.
cometer no ar ou no papel a palavra,
matéria prima dura,
mas não sendo a palavra o que perdura
não sobra a palavra,
pelo menos, não pura,
mas palavra imaginada em meia cura
2.
Um poema escrito
Numa janela embaçada
O que dele dura?
3.
afiar a palavra para que fira
como o dente que rompe a casca de uma fruta
em busca do que escorre: a doçura
de quem se deixa ferir pela palavra
terça-feira, 1 de julho de 2025
junho de dois mil e vinte e cinco
1.
pela janela do carro cai um véu, e é como se outra noite cobrisse a noite;
uma noite mais líquida e dura;
ausente de atrito, mas densa demais para que se possa chamar suave
2.
o dever dos vivos é cuidar dos vivos,
deixar que os mortos se cuidem entre si;
mas no espelho desta noite feita duplamente, parece que só consigo enxergar o reflexo dos fantasmas que moram em mim;
o brilho de ave dos olhos da minha avó, a barba do meu padrinho,
o número de telefone da Dinha, que só tinha sete dígitos;
estão todos tão nítidos para mim, nessa noite em que quase nada se enxerga;
3.
mas os vivos nos aguardam, sozinhos e com frio;
soterrados na fuligem, presos numa maca, nus ou quase nus;
tateamos através da noite dupla, tripla, infinita
nós que também vamos nus
na esperança de nos vestir do calor uns dos outros.
segunda-feira, 30 de dezembro de 2024
Haikaitralhadora
(haikais cometidos sucessivamente entre novembro e dezembro de 2024, sem muita edição, em preparação para um projeto que há de sair no ano que vem, com a graça de Deus)
24 de novembro:
no norte as bombas
chovem como siriluias;
no sul, um verão
25 de novembro:
a brisa estremece
os pezinhos de hortelã
mesmo que eu não olhe
26 de novembro:
como a chuva encontra
o chão no fim do dia quente:
encontrar o poema
29 de novembro:
de volta a guará;
uma lagartixa morre
no chão da cozinha
1º de dezembro:
uma flecha preta
atravessa a rodoviária:
cachorro de rua
3 de dezembro:
manhã de dezembro,
uma chuvinha cai, fria,
meu joelho dói
4 de dezembro:
mal desço pra rua
o casaco já viaja
da cintura às costas
meu corpo se fecha
ao frio, até que o invade
a dama da noite
10 de dezembro:
a fumaça sobe
do café do condutor
rumo ao céu nublado
13 de dezembro:
a lua amarela
espia, por entre as nuvens,
o engarrafamento
14 de dezembro:
na tarde cinzenta
meu suor se mistura a chuva
descendo a ladeira
17 de dezembro:
do meu travesseiro
a mariposa reclama
que a noite não passa
18 de dezembro:
com a voz vestida
de noite, Lia derrama
o mar em meu rosto
22 de dezembro:
as patas rosadas
do cachorrinho de praia
procuram tesouros
porto de galinhas -
as cores do fim do dia
inventam tons novos
cachorros vadios
brigam de brincadeira:
um coco é o prêmio
24 de dezembro:
mãos verdes acenam
numa noite de Natal;
palmeiras ao vento
26 de dezembro:
carcará em voo
ao alto de seu coqueiro.
são dois carcarás!
a penugem chove
e pousa na água quente.
pena de que ave?
segunda-feira, 4 de novembro de 2024
segunda-feira, 1 de julho de 2024
Quanto do teu sal? (sonetralhadora #7)
Aos passos curtos, como quem marcha sem pressa,
mesmo que a marcha dure mais do que devia,
marcha-se mais, mais rocha dura se atravessa,
se vê mais longe a luz que frágil principia;
Sob bandeiras cujo colorir não cessa,
ao ritmado de um cantar de euforia,
vi germinar em meio aos estampidos dessa
Marcha uma promessa boa como o dia:
Um Porto cujas naus partem a toda vela,
em busca de temperos mais suaves, qual
quem prefere o brilho do sol ao do aço;
Um Portugal que sem querer a si revela
a derramar ao mar novo tipo de sal:
Trocar bandeiras como quem dá um abraço
segunda-feira, 29 de janeiro de 2024
A pergunta que fica da vida
Como de costume em qualquer outra vida ou ocasião, a vida do ser humano era uma coisa difícil.
Na verdade, verdade mesmo, não era que a vida era uma coisa difícil, mas é qua a palavra "difícil" foi inventada para falar de como se levava a vida.
A vida era um equilíbrio muito sensível, instável e frágil provavelmente por ser ao mesmo tempo específica mas complexa demais.
Precisava disso e daquilo e daquele outro, uma série de condições sem fim num universo que também era um infinito de caos.
Justamente por isso, a vida que se mantinha era a vida que não parava de trabalhar. Não é que era bom e não é que era o certo, nem tinha essas coisas, e também não é porque era preciso, era simplesmente por acaso, e aquele acaso laboroso diferenciava a vida do que não era vida.
A vida era muito egoísta, foi ela mesma que inventou isso de que ela era de alguma forma especial, foi ela que ao categorizar tudo, sem querer, por acaso de novo, por via do tempo que passou e de muitas outras vidas que não duraram, categorizou a si mesma: a vida. Isso foi inevitável, e inevitavelmente e ao mesmo tempo também, nomeou para si mesma seus deuses que eram seus algozes: o desequilíbrio, o trabalho, a morte.
(Inventou também, mas não antes disso, o livre arbítrio, e ainda mais, sem juízo de valor nenhum, se ajuntou nessa hora a inventar também o bom e mau.)
Vendo-se enlameada de desiquílibrio e afundando, emboscada pelos olhos frios da morte e sustentada pelos ombros sádicos do trabalho, a vida decidiu, pedaço a pedaço, que a única forma de alcançar um pouco de ar era devorando-os.
Como imortais, a lama subia, a brisa era dura e gelava, e o movimento feria.
Então a vida se deparou com o que não esparava: sua razão era a de devorar o universo sem parar.
Mas como tudo não lhe cabia na boca, afinal era de tudo que a vida fazia parte, tudo era dos deusas deuses e ela uma mortal, a vida, sem entender nada, foi dando ritmos às mastigadas, intensidade às mordidas, misturas, e harmonias às bocadas.
Criou a música, as palavras, a pintura e a matemática. Criou a biologia, a justiça, o esporte, a filosofia, aprendeu a cozinhar, a costurar, a correr, a andar de bicicleta e tudo mais o que há, pois afinal de contas só hão por a que a vida há de havê-los.
E assim a vida segue, e a pergunta que fica é a pergunta da boniteza, como um sussurro irônico dos tais deuses: será, onde, como, e por quê?
