quinta-feira, 19 de março de 2026

alexitimia (lutando com palavras)

 

Esse episódio / texto / coisa está sendo escrito já há algum tempo, e ainda assim eu não tenho certeza de como começar a conversa. Mas eu vou arriscar começar falando de um livro, e no fim das contas espero que dê pra entender o porquê.


Um dos meus livros favoritos se chama “O Fabuloso Maurício e seus Roedores Letrados”. É uma versão esquisita do flautista de Hamelin, em que um gato chamado Maurício articula uma aliança entre um rapaz flautista e ratos inteligentes que vão de cidade em cidade simulando pragas de ratos pra que o flautista seja contratado pra se livrar delas. Quase tudo o que o Terry Pratchett escreve, e praticamente tudo do que eu gosto, é esquisito, mas isso não vem ao caso agora. O que é importante pra nossa conversa é uma das personagens, a Malícia Grima. 

Malícia Grima é uma garota que aprendeu a entender o mundo através dos livros, especialmente os “contos de fada” escritos por suas tias (as famosas Irmãs Grima). As pessoas ao seu redor — pelo menos as bem intencionadas — lidam com isso em graus variados de tolerância e exasperação; mas invariavelmente, ao longo da história, há um descompasso entre sua percepção de mundo e a das demais personagens.

Em um dado momento do capítulo 4, Malícia descobre o golpe que Maurício, o flautista e os ratos aplicavam conforme viajavam de cidade em cidade, e é assim que Pratchett descreve a cena: 

“Enquanto observava Malícia se decidir, Maurício teve a impressão de que a cabeça dela funcionava de um modo diferente da cabeça das outras pessoas. Ela entendia as coisas difíceis sem nem sequer pensar. Ratos mágicos? Claro, claro. Gatos que falam? Estive lá, fiz aquilo, comprei a camiseta. As coisas simples é que eram difíceis.

Os lábios dela estavam se movendo. Ela estava, Maurício percebeu, inventando uma história a partir daquilo.


Eu sou a Malícia Grima. Por muito tempo eu fui bem pior, na verdade; por uma época boa da minha vida eu não tinha essa consciência de que minha forma de ver e interpretar o mundo (e principalmente ver e interpretar as pessoas) era a mesma da Malícia: eu não conseguia compreender o mundo senão como uma história, com seu senso específico de justiça narrativa, de bem, e de mal, com suas relações literariamente organizadas de causa e consequência. Isso acabou me causando umas boas dificuldades: as formas de expressão de carinho, amor, frustração e tristeza que funcionavam nas Aventuras de Xisto, ou no Corsário Negro, ou nos Doze Trabalhos de Hércules, não funcionavam no dia-a-dia de uma criança adolescendo; o que nas histórias era a atitude correta diante de um problema, no mundo era às vezes inconveniente, às vezes muito esquisito, e às vezes até errado ou incompreensível. Mais tarde no livro, quando Maurício está discutindo com o menino flautista o comportamento de Malícia, ele diz o seguinte:


“(...) — Ela é pirada da cabeça, se quer saber. É uma dessas pessoas como… como os atores. Você sabe. Representa o tempo todo. Vive completamente fora deste mundo. Como se fosse tudo uma grande história. Perigoso Feijão é um pouco assim. (...)
— Bem, isso é inofensivo, não é?

— Sim, mas, nos contos de fadas, quando alguém morre… é só uma palavra.”


Uma parte das relações que eu tinha provavelmente funcionava porque as pessoas achavam que eu estava brincando (ou, perigosamente, tirando com a cara delas) — afinal, eu era 'inteligente', tirava nota boa, não era possível que eu não entendesse o que estava fazendo. Uma outra parte destas relações — algumas das quais duram até hoje — funcionava porque eram pessoas também esquisitas, cada uma do seu jeito, pra quem meu modo literariamente organizado de me expressar não causava (tanto) estranhamento. 

As histórias em geral e a literatura em particular ficaram sendo, assim, as grandes responsáveis pela minha alfabetização emocional, de forma que eu não só aprendi a interpretar o mundo através do código e das expectativas de uma história, como também desenvolvi uma capacidade muito maior de expressar o que estava acontecendo dentro de mim através de histórias (que serviam pra eu contar apenas pra mim, no começo), e depois músicas e poemas. 

Corta pra semana passada (na verdade, quando eu comecei a escrever este texto em 26 de setembro de 2023, isso era semana passada, mas agora já não é mais) quando meu amigo Zuni me contou sobre a alexitimia, e de que forma ele acha que ela pode, em alguns casos, provocar literaturas:

A princípio, ‘alexitimia’ se refere a uma condição pela qual uma pessoa não consegue expressar adequadamente suas emoções. A ideia é justamente uma incapacidade do ‘léxico’, das palavras, de expressar uma emoção, '-timia'. Parece que ela pode se referir a outros comportamentos e sintomas pra além da falta da verbalização dos sentimentos — daí como os pesquisadores que cunharam o termo se viram com essa salada etimológica e epistemológica é um problema deles.

(Pesquisando um pouco — contra meus princípios — pra escrever isso daqui, parece que a salada etimológica é ainda mais complicada; no grego, “alex-” já tem outro significado, algo como “defender” ou “proteger” — o nome “Alexandre”, por exemplo, significaria algo como “defensor dos homens” — mas os cientistas que inventaram o termo (um deles, inclusive, grego) cometeram o neologismo apesar disso e pronto.)

Zuni me apresentou a esta palavra quando conversávamos sobre neurodivergências e suas formas de manifestação; a hipótese que ele apresentou — pelo menos da forma como eu a entendi — é a de que um dos lugares onde se gesta o impulso pela poesia é este da alexitimia: pessoas incapazes de formularmos o que sentimos pelas vias “normais” eventualmente recorremos à metáfora, à metonímia, e a outras figuras mais pra tentar por alguma coisa pra fora.

Certamente o raciocínio dele é mais sutil e sofisticado que isso, mas isto não é problema meu. O meu problema é pegar a versão mais simples do raciocínio que eu entendi pra lutar com a palavra que se apresenta. De todo modo, quer na versão sofisticada quer na versão simplificada, essa hipótese do meu amigo me pegou —- a ponto de eu vir aqui, escrever, incomodar pessoas pra ler o rascunho, gravar(?) e editar isso tudo.

Eu não sei se ‘alexitimia’ é clinicamente o conceito que melhor descreve minha relação com as palavras e com as emoções, mas este não é um texto sobre medicina. Pode ser que haja outras síndromes ou sintomas ou o que quer que seja que impeçam que uma pessoa aprenda a interpretar e entender o que sente, de botar isso em palavras, de reconhecer isso em seus semelhantes. Na verdade, nas condições brutais a que muitas pessoas são submetidas no mundo de hoje, não acho que sequer precisem necessariamente de algum gatilho biológico ou predisposição à neurodivergência pra terem bloqueadas algumas de suas capacidades de perceber e compartilhar sentimentos. Mas reconheço que há algumas pessoas pra quem esses fatores externos não precisam ser tantos, e eu sou uma delas. Sendo assim, acho bom que haja ‘alexitimia’ enquanto conceito, no fim das contas, pra que possamos ter essa referência a partir da qual descrever nossa experiência (mesmo que seja pra dizer, “o que eu tenho parece com alexitimia, mas é diferente assim dessa maneira:”) 

Uma coisa que me impede também de dizer, cientificamente, que alexitimia é o conceito clínico que descreve minha relação com as emoções (ou, pelo menos, de onde essa relação parte) é que ao que parece não há um consenso científico a respeito do conceito propriamente; na versão psicanalítica da alexitimia (segundo, veja bem, a wikipedia) um dos aspectos que a caracteriza é a incapacidade, ou pelo menos uma grande dificuldade, com ‘processos imaginais’ — e isso é bem o oposto da minha experiência. Mas pra versão cognitivo comportamental do conceito (segundo também a wikipedia), a questão do processo imaginal já não teria esse peso — então de um ponto de vista cognitivo comportamental minha experiência combinaria com o que se chama de “alexitimia”, mas do ponto de vista psicanalítico, não.

Outra coisa que me impede de dizer, por minha conta, que eu seja uma pessoa alexitímica é que, né, não tenho nem roupa nem diploma pra isso. Passei entre 2024 e 2025 por um processo de diagnóstico pra ver qual é que é, e parece que é alguma coisa mesmo, mas mesmo um diagnóstico feito por profissionais competentes não conta a história inteira. De todo modo, não sendo a alexitimia clínica, que seja a alexitimia existencial; a ideia do Zuni me pegou, no fim das contas, na ida e na volta.

Na ida, pessoa que me ouve / lê / capta telecosmicamente, porque eu sou a Malícia Grima. Gosto de histórias, entendo como elas funcionam, e me divirto vendo os mecanismos da palavra e da narrativa se encaixando uns nos outros. Mais que isso, mesmo hoje, incomparavelmente mais capaz de interpretar o mundo do que quando eu era criança e adolescente, e mesmo aí nos primeiros anos da vida adulta, ainda tenho limitações importantes: não consigo perceber quando as pessoas estão flertando ou bravas comigo, não consigo perceber alguns tipos de ironia, sou notoriamente ruim de detectar panelinhas (já mais de uma vez comentei a respeito de pessoa A pra pessoa B, ou pedi notícias de C pra D, pra descobrir que elas se detestam, ou que nunca conversaram na vida fora de uma troca profissional de informações), etcétera. Também, mesmo que mais competente do que já fui, ainda não consigo dizer com certeza, quando pessoas queridas se afastam, se elas ficaram chateadas com alguma besteira que fiz com minhas limitações de compreensão, ou se elas só ficaram sem tempo por conta dos ossos do capitalismo mesmo. E o que ainda me salva para entender o que consigo entender é a literatura; com a Graça de Deus, da biblioteca da minha avó e das aulas do João, eu consegui chegar nos Machados de Assis, Virgínias Wolfes e variantes, e aí minha compreensão do perfil psicológico das “personagens” que me cercam ficou mais, por assim dizer, redonda. Mas mesmo em uma versão mais sofisticada, a literatura ainda segue sendo uma bússola que orienta boa parte do que me faz entender e agir no mundo das relações entre as pessoas.

A ideia do Zuni também me pegou na volta porque, desde muito antes dessa conversa com ele, eu concebo a literatura (e por extensão as artes como um todo) como ponto de conexão entre experiências de vida (há alguns anos atrás eu teria completado “experiências de vida humana”, mas “Humanidade” é outra palavra com a qual eu tenho lutado). Minha experiência de vida tem, provavelmente, muito pouco a ver com o que quer que os helenos estivessem fazendo há três mil anos, mas qualquer que tenha sido o pedaço de Homero que inventou os versos em que Odisseu, de volta em Ítaca, vê a casa de Laertes parece que sabia exatamente o que eu estava sentindo quando, depois de um ano sem pisar em Guará, vi no horizonte o contorno da serra da Mantiqueira. Eu não sei se consigo conceber a vida que se leva no coração do império americano, mas quando Octavia Butler escreveu, através de Olamina, que “Deus é Mudança”, lembrei e reencontrei em palavras muito mais precisas uma fé que eu já tinha inventado pra mim mesme, e voltei a ter alguma paz na minha relação com este mundo em que tudo o que é sólido se desmancha no ar. Nunca estive prese, nem, ainda mais grave, na França, mas, no auge do período de isolamento na pandemia, a madrugada que eu atravessei lendo o suplício de Edmond Dantès na Fortaleza de If, e seu encontro com o Abade Faria, e depois com o mar, me ajudou a atravessar muita outra madrugada e muito outro isolamento desde então.

Do outro lado, alguns dos maiores combustíveis da minha escrita são as vezes em que alguma pessoa querida me leu e contou que um texto mexeu com ela, ou que se sente daquela forma exatamente, ou que se lembrou de alguma música minha por uma ocasião qualquer; às vezes até textos meus já antigos, de que não gosto mais, de repente voltam a funcionar pra mim, depois de terem sido lidos desse jeito. (Eu posso já não me conectar tão bem com tudo o que yuri de 20 anos sentia, mas ainda há gente bacana no mundo que se conecta, pelo visto, então fica o texto justificado). Escrever e compor é a forma que encontrei de expressar aquilo que não sei articular pela via da sociabilidade do dia a dia; quando me falha o gesto, a expressão, o tom apropriado da voz e do corpo, a literatura vem ao meu resgate. Leio, e leio, e escrevo, e escrevo, pra combater essa minha alexitimia (quer existencial, quer clínica). Se alguém me pergunta: ‘mas o que você quis dizer com esse texto?’ ou ‘com essa música?’, eu só posso, sinceramente, dizer que quis dizer o que o texto disse; se eu soubesse dizer de outro jeito, sem o espelho da metáfora, mas na precisão da palavra certa, do olhar certo, do tom de voz apropriado, teria dito.

(Ou quem sabe não, querida pessoa que me lê, ouve ou capta de outra forma. A verdade é que a forma como aprendi a estar no mundo é esta. Se algum dia inventarem uma “cura”, pra que eu saiba descrever exatamente como me sinto e entender como as pessoas ao meu redor se sentem sem precisar recorrer a subterfúgios literários, eu não tenho certeza se faria o tratamento.)

No fim das contas, eu acredito que mesmo as pessoas mais bem ajustadas ao mundo compartilhem um pouco dessa experiência de nem sempre saber organizar o que se passa dentro delas (ou de não saber com certeza o que as outras pessoas estão tentando expressar sobre o que se passa dentro de si). Não posso, é claro, ter certeza disso, mas intuo. Não porque a arte e a literatura existam; obviamente, elas cumprem muitos outros papéis pra além dessa experiência de conexão emocional. Minha intuição se origina mais, provavelmente, de uma desconfiança geral que eu tenho em relação à normalidade e às afirmações totalizantes. Reconheço que deva haver uma “média” de auto- e heteropercepção emocional, e que haja uma curva mais ou menos normal de distribuição que lastreie nossa capacidade de nos constituir enquanto seres sociais e culturais. Mas isso está longe de significar que a maioria das pessoas esteja o tempo todo ciente de todos os processos emocionais em si e ao seu redor. 

Além dessa intuição desconfiada, talvez parte da minha crença na existência dessa incerteza compartilhada sobre o que sentimos seja oriunda de um tipo meio torto de esperança. Por um lado, uma esperança de artista que quer sentir que seu ofício é relevante, que mesmo a pessoa mais normal e ajustada do mundo esteja sob risco de algum dia ouvir uma música minha ou ler um texto meu e pensar “caramba, é exatamente assim que eu me sinto.” Por outro lado, é a esperança de uma Malícia Grima, que se sente menos só ao encontrar outras pessoas que ouvem e contam histórias para tentar entender o mundo.

 

 primeiro (e talvez último) texto de uma série em que quero discutir palavras específicas, e de que forma elas me movem. 
 a versão de O Fabuloso Maurício e Seus Roedores Letrados, de Terry Pratchett, que cito neste texto é a de 2004 da Editora Conrad, na tradução de Ricardo Gouveia. 
(isso NÃO É conteúdo de valor médico ou científico! se você está atrás de explicações científicas ou médicas a respeito de como alexitimia funciona, não é aqui que você vai achar ((isso dado, as poucas informações de caráter acadêmico que constam neste texto foram tiradas dos seguintes linques (que compartilho menos a título de citação e mais a título de você fuçar por conta própria, se quiser): https://www.scielo.br/j/ptp/a/WxJrZhZ9Nn78jyQqJD5ZyKp/; https://sites.usp.br/revistaneurocienciasecomportamento/wp-content/uploads/sites/995/2023/07/Volume-1.pdf; https://en.wikipedia.org/wiki/Alexithymia)))  

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