quarta-feira, 6 de maio de 2020

Bom dia

Quem sabe as noites não viram manhãs?
E as madrugadas durem o dia inteiro?
Até que o sol nasça
pela manhã de novo.

Quem sabe choque não se empoeire?
E a poeira cubra o mundo inteiro?
Até que o choque
em mim de novo.

Quem sabe o vento não leve as flores?
E o perfume fique nos homens todos?
Até que em nós floresça
um dia novo.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Eu tenho andado sem vontade de viver, meu bem
Mas que isso não seja motivo de alarde!

Eu tenho amado somente coisas abjetas

O repulsivo é a única coisa que me encanta durante a insônia
Só me dá alegria o que há de mais degradado
Somente por essas coisas eu ainda nutro algum carinho

Eu tenho andado sem vontade de viver, meu bem
Mas ainda quero amar tanto, tanto!
O sujo, o quebrado, o inútil, o inválido
O feio

Talvez seja alguma síndrome narcísica, meu amor
Eu vejo o que há de mais podre e de mais indigesto
E consigo me amar a mim mesmo
Que me apodreço a olhos vistos
Que nenhum sistema digestório que se preze deseja deglutir

Mas quero amar isso tudo tanto, tanto!
Mesmo estando sem vontade nenhuma de viver
A vontade de amar essas coisas todas persiste
Então eu vivo.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Shorashim

O meu vô quando eu era mais novo e eu ainda nunca tinha dado um banho nele e nem em ninguém além de mim mesmo
o meu vô ele me contava que meu bisavô, o seu Guilherme Witrique, o vô Willy, ele tinha uma bandeira do partido nazista escondida em um baú no quarto, junto com o rádio.
Era o governo Vargas e era a guerra e nem alemão nem japonês nem italiano podia
ter bandeira de nada e muito menos rádio em casa;
inclusive meu vô conta que o seu Guilherme ia às vezes na aeronáutica visitar uns alemães presos
mas isso é outra história;
inclusive meu vô conta que uma família de japoneses que era muito chegada deles
teve a casa invadida e saqueada e apanharam bastante
mas isso é outra história.

Mas eu lembro do meu avô contando essa história e depois me dando uma risada triste
E ele me dizia "já viu isso, filhinho? um pai nazista de um filho franciscano"
"franciscano da porta pra fora!" dizia a vovó,
mas isso é outra história;

Ele me dizia "já viu isso, filhinho? um pai nazista de um filho franciscano"
triste
Mas ele também dizia
"é que as coisas estavam difíceis na Alemanha depois da primeira guerra"
e dizia
"e o hitler era um homem que discursava muito bem, então ele convencia o povo"
e dizia
"ele tinha uma voz muito boa, inflamava as pessoas"
e dizia
"meu pai ouvia ele discursando no rádio e ficava todo emocionado"
 triste
"mas o melhor amigo dele era o Schmuziger, um judeu suíço que morava por aqui também"
 triste triste
"um pai nazista de um filho franciscano"
triste triste triste

Eu cada vez mais eu acho que meu vô mentia sobre o hitler
porque ele amava o pai dele
então ele tinha que acreditar que o vô Willy estava sob um feitiço poderoso
seduzido pela retórica de um mestre da manipulação
porque ele conhecia o vô Willy e ele sabia que não era possível
um homem doce e bom e generoso ter escondida no fundo do baú
a bandeira do partido nazista

Mas agora é o século XXI e eu consigo
meia dúzia de teclados e cliques eu vejo
um vídeo do hitler na internet e ele
falando é uma criança choramingando, que se acha mais importante do que é
e fica levantando e baixando a mão de um jeito idiota e a roupa dele
é a de quem não tinha dinheiro pra pagar um alfaiate pra fazer a medida
e ele anda como um pato

Pode ser que houvesse feitiço, mas estava em outro lugar,
não no hitler

Me desespera profundamente encontrar a fórmula dessa feitiçaria
eu preciso dela porque
pode ser, com a Graça de Deus, que sobrevivamos a mais isso tudo
e que a Fome, a Peste, a Guerra e a Morte deixem seus cavalos encostados
por mais ainda um par de séculos

E então eu vou ter meus netos e vou contar histórias pra eles
pra que eles conheçam suas raízes, mesmo o que há de triste nelas
mas ainda será o século XXI, talvez
e eles ainda conseguirão com meia dúzia de teclados e cliques ver os vídeos

Não sei de onde vou explicar tantos homens doces e bons e generosos
com bandeiras pestilentas no fundo de seus baús e na sacada de suas janelas


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Boromir às margens do Anduin

Como se chamará a próxima loucura que tomará de assalto o coração dos filhos dos homens?

Atrás de quais armas invisíveis nos espatifaremos, sujando-nos de sangue em ilhas desertas?

Ficamos tão mais fracos quanto mais nos aproximamos de casa e talvez não possamos, em nossos dias, sequer atribuir a culpa a forças escondidas na Terra das Sombras

Tudo está às claras.

Mas a linhagem dos homens segue definhando.

Quantos pecadores e proscritos se erguerão de sua própria lama para fazer frente aos devoradores de pequeninos?

De qual clarim encantado soará a nota cristalina que nos colocará em marcha novamente diante de tanto crepúsculo?






quarta-feira, 8 de maio de 2019

Dantès na Fortaleza de If


eu estendo minhas mãos, Edmond,
mas não te encontro
e o mundo segue nos atropelando
muito à nossa revelia

não há ilhas miraculosas no nosso século
nada do que eu possa dizer para te consolar
será tão certo quando é preciso
mesmo que eu acredite muito fielmente nessas coisas

mas o sol ainda vai brilhar de novo
nos seus cabelos molhados de mar e
não haverá gendarme ou leão ou alienista no mundo
que alcance seu iate de velas brancas
sumindo no horizonte em direção à aurora

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Volta Seca

não eu não sei o que que é sentir medo
sangrei homens maiores mais malvados
por homens mais maiores fui sangrado
e disso não fiz nem faço segredo

o sangue que derramo é meu brinquedo
e o pátio onde brinco é o gramado
de sangue todo rubro e salpicado
de cheiro ocre e de um tom azedo

recuso o que me há de fabiano
de ciço de baleia e conselheiro
amar os homens não é meu destino

o meu poema voa deste cano
é verso retamente cangaceiro
de amor para teus olhos, virgolino


terça-feira, 4 de setembro de 2018

[...]

Onde está teu nome, filho do Sol?
Soterrado em Amarna
Raspado de todos os pilares
e de todas as colunas
(as sagradas e as profanas)

Teus filhos não o dizem em voz alta
Recusam mesmo o que há de ti no nome deles

Quem te conhecerá? Que força se pode opor ao fogo
e ao tempo impiedoso? Que salvação pode esperar
do Sol um nome que não projeta sombras?

 
 

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

As cinzas cinzas de julho

por Glaucia L.W. Cortez

Você não é a seca, nem Agosto;
Você é o fim de julho que amarela
Pra ser depois a Phoenix que revela
Que as cinzas não saíram de seu posto

O voo interminável, não esqueço;
Podia ser papel, graveto, ou folha,
Mas nunca revelavam sua escolha
A que se oferecesse qualquer preço.

Quisera eu tirar as cicatrizes,
Aquelas que te ferem mais profundo,
Por conta das escolhas infelizes

E quando dou por mim, me vejo em ti:
O tempo que te ajusta nesse mundo
Eu sinto que é o tempo que vivi.