Diz-se, daquele que encara o presente
qual pedra ou flor ou o que quer que haja certo,
este estar sim desdistante e, pois, perto
da realidade, e agudo de mente.
Eu, porém, tendo a ler tudo em aberto:
vivo em um ponto entre a trás e a frente:
sido e a ser muito mais que corrente:
sonho que vivo e do qual mal desperto.
Entre, pois, iluminado e atônito,
luzes que apago e rebrilhos que escuro,
cada lumir me sabendo a enjoo,
Dou-me, enfim, um instante do insólito:
Dispo de mim meus passado e futuro:
Encho de sangue meus dedos, e voo
quinta-feira, 26 de março de 2015
terça-feira, 24 de março de 2015
Não serei nem terás sido
Fecha outra manhã clara
Sem minuto, sem dia, sem frio ou
calor
Sem saber se ela é ontem ou
amanhã escritor
Sem momento de fome ou voz de
professor
Na de sempre espessa luz
A chuva espreguiçou e o sol se
esqueceu
Que pintar desbotado não desfaz
todo o breu
E que tem que subir pra lembrar
quem sou eu
Quando o tempo decidir
Se ele era, se foi, se ele vai ou
se vem
Se ele fica engasgado entre
tantos poréns
Se tem hora pra mim ou hora pra
ninguém
Nesse dia pois quem sabe
Eu o conte nos dedos e o encare na
fronte
E entre os passos pesados de um mastodonte
Eu te olhe, te inspire, me expire
e te conte
sexta-feira, 13 de março de 2015
Drei Liebesgedichte
(Três Poemas de Amor; ou
Um Terço de Uma Crônica)
1.
Tem um ar engraçado o Centro, naquela hora indefinida em que a maioria das pessoas já deixou seus postos em lojas, cafés e escritórios diversos do Centro, mas em que uma parte boa dessas lojas, cafés e escritórios do Centro ainda está aberta.
2.
Eu estou sentado nas escadas do Theatro Municipal, e está escuro - daquele jeito que São Paulo, e talvez todas as cidades do mundo, tem de ficar escuro, sem ficar escuro de verdade, exceto em alguns pedaços.
3.
Tem meia hora eu estava andando pela Barão de Itapetininga que ainda estava cheia, mas cheia de gente que parece que já está cheia do dia e já vai logo pra casa, só quer antes dar um pulo na farmácia ou naquela livraria que só fecha às oito.
Um Terço de Uma Crônica)
1.
Tem um ar engraçado o Centro, naquela hora indefinida em que a maioria das pessoas já deixou seus postos em lojas, cafés e escritórios diversos do Centro, mas em que uma parte boa dessas lojas, cafés e escritórios do Centro ainda está aberta.
2.
Eu estou sentado nas escadas do Theatro Municipal, e está escuro - daquele jeito que São Paulo, e talvez todas as cidades do mundo, tem de ficar escuro, sem ficar escuro de verdade, exceto em alguns pedaços.
3.
Tem meia hora eu estava andando pela Barão de Itapetininga que ainda estava cheia, mas cheia de gente que parece que já está cheia do dia e já vai logo pra casa, só quer antes dar um pulo na farmácia ou naquela livraria que só fecha às oito.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
Enroscado
Preciso sair daqui
Não me leve a mal
O maior conforto à minha pele
é a tua
Mas algo me repele deste enlaçe
em fortes pulsos
nos quais eu miro
todo o meu poder divino
da razão
O foco escapa, no entanto
como luz que se faz
impossível prender
Irei me desvencilhar de ti
Do teu delicioso abraço,
agora
Vou procurar algo para comer
E onde me sentar
Carregando comigo o desejo,
eterno,
de voltar,
a esse momento
Querendo estar assim
o tempo todo
Esroscado em ti
Não me leve a mal
O maior conforto à minha pele
é a tua
Mas algo me repele deste enlaçe
em fortes pulsos
nos quais eu miro
todo o meu poder divino
da razão
O foco escapa, no entanto
como luz que se faz
impossível prender
Irei me desvencilhar de ti
Do teu delicioso abraço,
agora
Vou procurar algo para comer
E onde me sentar
Carregando comigo o desejo,
eterno,
de voltar,
a esse momento
Querendo estar assim
o tempo todo
Esroscado em ti
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
Os Bohres e a Verdade
Trechos selecionados dos Tratados e Crônicas de Linguística Estrangeira e Nacional, por G. Bennemurde, Cavaleiro do Y-Atol, traduzidos por Este que Assina.
1. (extraído do Capítulo XXXII, terceiro tomo - "Língua e Cultura do povo Böhr"
O povo dos Bohres tem uma mesma palavra para designar, ao mesmo tempo, os conceitos de justiça, legalidade, certidão e verdade. A palavra pode ser transliterada como "baor" em nosso alfabeto - ou "bahor", se aceitarmos as convenções linguísticas mais tradicionalistas do idioma Bohr - e, segundo uma querida amiga, estudiosa bastante respeitada da língua, se relaciona apenas muito tenuamente à etimologia da palavra "Bohr" - mais uma prova inequívoca, ela me diz, da humildade inata de seu povo.
O idioma Bohr é baseado antes na concatenação de adjetivos e advérbios que substantivos, e assim se significam as duas palavras:
"Böhr" significa: "filhos queridos [de]" ou "os filhos mais queridos [de]". A si mesmos chamam-se, na verdade, "Böhrdan'é", os "filhos mais queridos de Terra Mãe", mas os primeiros exploradores do Império que tomaram contato com esse antigo povo não tiveram a paciência para a análise linguística, nem a perspicácia auditiva e vocal para reproduzir o som do "'é", pelo que "Bohres" acabou se vulgarizando entre nós.
"Baor", por sua vez, significa "[que tem a] propriedade de ser saído da boca do Imperador". O Imperador dos Bohrs, como se sabe, não é nada parecido com o nosso. Ao invés de exercer qualquer função política ou militar - normalmente relegadas às Concubinas Imperiais e a servidoras públicas selecionadas por meio de testes - o Imperador Bohr é, enquanto consorte simbólico da Terra, uma espécie de liderança moral e espiritual de seu povo, do qual nenhuma falha ou desvio se espera, ou mesmo se admite.
De tal forma que aquilo que sai de sua boca não é nunca uma mentira, nem uma falsidade, nem uma ilegalidade, nem uma injustiça. Tudo o que sai da boca do Imperador, enfim, tem "baor". Nenhuma lei entra em vigor antes que ele assim proclame, nenhuma descoberta científica ou filosófica é universalmente aceita entre os Bohrs se ele não enunciá-la em voz alta.
Tecnicamente, é impossível dizer diretamente na língua Bohr que algo é justo, porém ilegal, ou verdadeiro, porém injusto, ou legal, porém incorreto. O falante teria que dizer "Isto tem baor, mas não tem baor", ou "Isto saiu da boca do Imperador, mas não saiu da boca do Imperador"
Mas Bohr é o idioma de um povo antigo, que desenvolveu mecanismos bastante interessantes para resolver a questão.
Assim como o Imperador, nenhum dos Ministros Imperiais exerce uma função prática. Estas são igualmente relegadas às suas esposas e a outras funcionárias. Cada Ministro, porém, funciona como porta-voz de seu Ministério, e nenhuma das ações do ministério se põe em ação sem que um Ministro a enuncie.
Como Ministros não são consortes de divindade nenhuma, o povo é bastante consciente de seus desvios, e com o tempo, passou a necessitá-los também por conta da linguagem. Expressar que algo é correto, mas não verdadeiro, por exemplo, seria impossível sem "batar" [aquilo que sai da boca do Ministro da Economia]. Nem se poderia dizer do que é justo, porém errado, sem "baegh" [aquilo que sai da boca do Ministro da Justiça].
Naturalmente, há diferenças entre as personalidades de cada ministro, e sempre que um novo ministério sobe ao poder, a Alta Escola Imperial de Gramática reúne suas acadêmicas mais notórias para estudar cada um deles, e verificar se há necessidade de alterar o significado de algum termo. "Bashoi", por exemplo - [aquilo que sai da boca do Ministro do Interior] - é um dos termos de significação mais fluida do idioma, e a maioria dos Bohres prefere não usá-lo em seu dia-a-dia. A "tradução" dos documentos do Ministério do Interior quando da troca de ministros é, certamente, uma das atividades que mais ocupa os escalões menores da burocracia Bohr.
Se reúne a Alta Escola de Gramática também sempre que um Imperador resolve suprimir um ministério, ou criar um novo. Para evitar que o povo continuasse a se rebelar diante da injustiça de uma lei - através da palavra "bähéh" - o Imperador Hung'é III extinguiu completamente o Ministério da Guerra, e com ele o conceito de "legal, porém injusto", até que a situação se apaziguasse. A Alta Escola sugeriu aos rebeldes que tentassem combinar "batar" com "bazhough" [aquilo que sai da boca do Ministro da Educação], para alcançar um conceito parecido, mas os ânimos se arrefeceram bastante rapidamente com a extinção de "bähéh".
Outro caso curioso é o da palavra "bazhe'ehg". Esta significa "aquilo que sai da boca do Ministro da Pesca", e surgiu no reinado do primeiro Dao Faih'é, quando este instaurou o ministério. Nenhum Bohr jamais havia pescado ou comido peixes, e nenhum o fez desde então.
Foi bastante confuso.
Como pode sair da boca do Imperador a existência de algo como o Ministério da Pesca? Que haveria de justo, correto, certo e verdadeiro na existência de um tal corpo burocrático? Inimigos de Dao Faih'é se movimentavam para depô-lo, e inimigos da monarquia para derrubá-la. Não havia, afinal, como haver um Imperador de cuja boca não saia "baor", de cuja boca não saía o que sai da boca de um imperador.
Para piorar a situação, o Ministro que ele nomeou, Hung'bo, um amigo seu da época em que estudou Línguas Antigas na universidade da capital, funcionava o Ministério como se nada de errado estivesse acontecendo: emitia especificações técnicas sobre redes de pesca, regulava as épocas adequadas para a pesca de cada espécime, ordenava estudos acerca da reprodução marinha ao redor do continente e escrevia longos discursos a respeito dos refinados sabores que o mar trazia à mesa dos Bohres.
As mais respeitadas professoras da Alta Escola Imperial de Gramática se puseram imediatamente a investigar, para tentar resolver a crise:
O Imperador Dao Faih'é era, como se sabe, um grande poeta, mas era principalmente um grande tradutor de poesias. Estava já há quase cinco anos empenhado na tradução de todos os poemas do ciclo do centauro Rhû, direto de seu original na Língua da Terra, quando se deparou com um trecho do Cântico de Airam - também conhecido como Terceiro Cântico da Montanha - que fazia referência a um conceito que não existia até então na língua Bohr.
Dao Faih'é não estava disposto a perder seu trabalho de anos, e privar os Bohres menos versados em línguas antigas de um dos mais belos poemas do ciclo de Rhû, por uma simples falha semântica de seu idioma. Explicou o problema a Hung'bo, que também era poeta, e com ele arquitetou a solução: a criação do Ministério da Pesca.
Tinha esperanças que as acadêmicas da Alta Escola Imperial de Gramática compreendessem a necessidade do Ministério, fossem lenientes com a pequena alteração que ele fizera ao genitivo de "pesca" - por conta da métrica do verso - e apelou às que conheciam o Ciclo de Rhû que o defendessem perante as demais. Como argumento de defesa, recitou a estrofe do poema que o justificava:
"E em seus olhos os príncipes do sol habitavam
e em meus olhos um inexistente rei da lua
e entre nossos olhos o paradoxo."
Após a leitura do último verso, concordaram com a pertinência do Ministério da Pesca e, por extensão, do paradoxal "bazhe'ehg". Impuseram ao Imperador, no entanto, que enunciasse - tornando assim "baor" - que apenas poetas poderiam assumir o cargo de Ministro da Pesca, e que o ministério só existiria enquanto se lesse o Ciclo de Rhû em idioma Bohr. Afinal, assim que a magistral série de poemas desaparecer de sua cultura, o Ministério perderá o sentido, e sua extensa burocracia será então apenas dinheiro dos cofres imperiais jogado fora.
domingo, 28 de dezembro de 2014
Fora de casa
Eu imaginava lá como uma masmorra
Acorrentado todas as horas de sol embaixo da terra
Escutava passos e o resmungar dos doidos
Logo após o tilintar apressado de alguma corrente
Era proibido gemer e chorar
Só era permitido sorrir
Pois a pena era se condescender à pena
E eu era tão triste, mas tão triste
Que quando de lá depois voltei
Esperava pelo menos um soco,
Ou uma lágrima
Mas eu ainda não tinha as forças
para chorar de tudo aquilo
Acorrentado todas as horas de sol embaixo da terra
Escutava passos e o resmungar dos doidos
Logo após o tilintar apressado de alguma corrente
Era proibido gemer e chorar
Só era permitido sorrir
Pois a pena era se condescender à pena
E eu era tão triste, mas tão triste
Que quando de lá depois voltei
Esperava pelo menos um soco,
Ou uma lágrima
Mas eu ainda não tinha as forças
para chorar de tudo aquilo
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
manhã de quinze de dezembro de 2014.
Nane deve ter gasto naquelas três horas de viagem mais de cinquenta reais de crédito. Seu tio tinha falecido no dia anterior, que coincidentemente era o dia anterior do aniversário de seu irmão, pai de Nane. Por esses dois motivos explícitos Nane então iria naquele dia fazer um lanche com o pai e a madrasta, Neuza, em São Paulo. Era uma surpresa.
Nane parecia uma ótima pessoa, daquelas que possuem ainda uma paciência sincera para escutar com eloquência e oferecer conselhos preocupados, e mesmo ainda que esses girassem em torno de misticismos, eu fazia força para escutá-la além dos jargões dos centros espíritas.
Por isso tudo a tal surpresa carregava um diálogo riquíssimo entre a morte e a reencontro.
Tentou discar primeiro ao pai, que por motivo de estar no trabalho não atendeu. A segunda opção foi a madrasta, que de tanta empolgação com sua chegada quase falava sozinha ao telefone, no sentido que suas palavras sobrevoavam Nane como se ela nem estivesse ali oferecendo levar uma sobremesa. Era o esquema do dia sendo apressado com carinho. Neuza pôs à mesa a questão de convidar também a tia que ficara viúva, Lúcia, a que Nane respondeu oferecendo-se com prazer para depois acompanhar a tia na volta em um táxi, deixando-a em casa a indo depois até o lugar onde posaria, que aparentemente não seria a casa do pai, mas sim em outro lugar.
Depois foi Leonora. E depois. E de novo, até que a ligação funcionou e elas puderam se escutar. Antes que Leonora pudesse expor seus planos e idéias, Nane já deixou claro o compromisso naquela tarde com o pai ao mesmo tempo que a total disponibilidade para os próximos quatro dias. A despedida selou as expectativas e ânsias energeticamente, e "tchaus" atropelaram-se até cessar.
Depois a mãe de Cristina, uma velhinha simpática da cidade de onde Nane acabara de sair, mas apenas para que pudesse perguntar o então telefone de Cristina, que também morava agora em São Paulo. E então foi para Cristina. E dessa vez não sei ou não me lembro o que se passou, mas de alguma forma, sem tentar abstrair, deve ter sido como no caso de Leonora.
Finalmente por último foi o pai, que agora era o que fazia a ligação. Tinha chego em casa e Neuza havia lhe informado, provavelmente com empolgação, sobre os rumos daquela tarde. Combinaram então de se encontrarem no metrô, onde o pai a buscaria de carro.
Pode-se dizer que Nane não me deixou dormir naquelas três horas. Mas eu também não a calei, e acabei dormindo um pouco sim nos curtos intervalos de um telefonema a outro. Quando chegamos em São Paulo, fiquei sem a imagem real, somente com a especulativa, de Nane, que provavelmente desceu do ônibus atrás de mim, cheio de expectativas.
quinta-feira, 25 de setembro de 2014
Por que?
Todos os dias eu acordava
a porta já estava
aberta
e eu saía para tomar
um ar.
Por que? - eles me perguntavam.
Um dia passou um homem
e olhou como se eu fosse
fantasma.
Eu olhei de volta,
parado.
Por que? - eu me perguntava.
Naquela manhã aquele homem
tinha espancado
alguém.
E de tanto bater,
matou.
Por que? - nos perguntávamos.
Entrei correndo em casa,
sentei em frente da
televisão,
e só me levantei às cinco
da tarde.
Por que? - aparentemente não se sabe.
a porta já estava
aberta
e eu saía para tomar
um ar.
Por que? - eles me perguntavam.
Um dia passou um homem
e olhou como se eu fosse
fantasma.
Eu olhei de volta,
parado.
Por que? - eu me perguntava.
Naquela manhã aquele homem
tinha espancado
alguém.
E de tanto bater,
matou.
Por que? - nos perguntávamos.
Entrei correndo em casa,
sentei em frente da
televisão,
e só me levantei às cinco
da tarde.
Por que? - aparentemente não se sabe.
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