terça-feira, 14 de maio de 2013

Corridas de cavalos

(considerações não necessariamente relacionadas sobre a arte da escrita)

Você vai estar sentado na sua cozinha, entre um e outro sanduíche, lendo um verdadeiro clássico - que você já queria ter lido faz tempo, mas ainda não tinha. Se você for como eu, e gostar do pão mais macio, vai preferir esquentar seus sanduíches no microondas. Mas a minoria das pessoas é como eu, e você provavelmente vai usar uma tostadeira, pro seu pão ficar crocante, ou comer sanduíches frios mesmo.

Tudo bem.

A coisa é que, entre um sanduíche e outro, enquanto acaba a visita à amante e todos se preparam para a grande corrida de cavalos, você vai se lembrar que já leu alguma coisa falando à respeito disso. Foi um tratado sobre literatura? Foi uma crônica? Foi uma piada? Claro que não foi uma piada... Foi na escola? Cursinho? Alguma matéria alternativa, já na faculdade mesmo? Será foi só um texto que você leu porque queria? Você vive fazendo esse tipo de coisa, afinal, ou nem estaria por aqui agora...

E não só o texto falava sobre corridas, ele falava sobre cair do cavalo. Sim, você terá certeza agora, o texto tratava de uma queda. Mas os detalhes ainda estarão muito confusos na sua cabeça, e, caramba!, agora você tem é que prestar atenção à corrida em si, não de gente falando dela fora de hora.

(Em um parênteses, você vai ficar um pouco decepcionado por já saber que vai haver a queda. É chato mesmo. Você estava feliz por ter conseguido começar um livro daquele calibre, pensando que não sabia nada da estória, que cada parágrafo seria uma surpresa, e de repente estará lá a queda do cavalo, direto na sua testa. E o parênteses não será à toa! Bem no finalzinho dele, você se lembrará, ou terá a impressão de se lembrar, que, em consequencia do tombo, o cavaleiro morrerá!)

 Será isso mesmo? O cavaleiro morre? Não pode ser! As consequencias que isso traria para a estória seriam... Você continuará lendo, incerto. Cada obstáculo que a égua transpõe será um alívio, cada avanço, uma alegria - ainda que você não goste - no mínimo, até então você pensará que não gosta - do oficial que a cavalga.

Mas os sinais estão lá. As pistas de que as coisas vão dar errado lhe virão uma por uma, retroativamente, e você se dará conta. Sem saber muito bem por qual processo, sua mente deslizará fora de seu controle, reorganizará insinuações, analogias e evidências do livro e fará brotar memórias do texto obscuro que lhe atrapalhou a leitura, e você seguirá lendo, com a certeza que os sanduíches tem de suas mordidas: o Vronski cai do cavalo e morre.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Mayhew Boys, Attaway Girls – Pt. 3

3  - Onde nossa estória encontra seu fim.

91df6c9de25b59e518e9b309e92e-postNa época em que Mama Mayhew foi até Old Nick o trabalho de um demônio era muito mais fácil. Nick simplesmente tinha de esperar em algum bosque, ou pântano ou caverna e aproveitar a beleza da paisagem enquanto isso. Era muito raro ter de ir até a cidade naquela época. Não que não houvessem pessoas interessadas, mas o mercado rural ainda era mais lucrativo. Old Nick lembrava claramente de Mama Mayhew quando ainda jovem. Não era uma mulher bonita, e talvez por isso achasse que fosse necessária a ajuda do diabo. Estava errada, é claro, mas todas as pessoas que pediam ajuda a Old Nick estavam irremediavelmente erradas, se não em outra coisa ao menos em achar que esse tipo de contrato poderia ser vantajoso para alguém que não o espírito sulfúrico. A jovem, como muitas outras pessoas antes dela, tentou arranjar um acordo que lhe fosse vantajoso. Ignorava que o diabo era sábio não por ser diabo, mas por já perambular pelo mundo a muito tempo, e, portanto, por já ter visto tudo que poderia ser visto em se tratando de engenhosidade humana. Ainda mais uma engenhosidade tão campestre, tão simples. A mulher lhe pedira um número exorbitante de desejos realizados em troca de sua alma. Old Nick não queria se dar ao trabalho por tanto tempo. A mulher achava que ter muitos pedidos poderia ajudá-la no caso de uma necessidade, no caso de fazer uma escolha errada e precisar desfazê-la. Contradizer tal crença seria, para Old Nick, ir de encontro com toda sua natureza, contra o instinto que o ordenava a enganar os seres humanos, seja qual for a situação. O homem listrado – naquela época as listras não estavam no terno, mas já estavam no cabelo, e mesmo na pele tatuada, que ficava à mostra sob um manto rústico feito de algum animal estranho que dava a impressão de ter uma pelagem ao menos vagamente listrada – tratou então de fingir negociar com a mulher. Naquela época as negociações, especialmente as desta espécie, não eram seladas com meio-sorrisos ou apertos de mã0, os dois negociavam através de gritos guturais, e quando Mama Mayhew achou ter convencido o demônio a lhe dar três desejos, se achando muito inteligente por tê-lo feito, o acordo foi selado com a jovem aplicando um beijo no traseiro de Old Nick. Alguns séculos antes o demônio teria sodomizado a moça, para que ela permanecesse virgem, como era de seu desejo, mas Old Nick aprendera que o tempo fazia com que as pessoas naquelas partes do mundo passassem a se achar muito civilizadas para tais atitudes. Aparentemente, no entanto, ainda não eram civilizadas o suficiente para deixar de fazer acordos com as forças infernais.

Essa tendência, Old Nick perceberia, se acelerou de formas inconcebíveis nos anos que se seguiram. A ponto de, quando chegou a vez de Mr. Attaway fazer o seu acordo, o Old Nick de então ser completamente diverso do que fizera o acordo com Mama Mayhew. Mais do que a época, no entanto, o que mais diferenciava o processo dos dois era o lugar. Quando Mr. Attaway procurou o diabo, os negócios na zona rural já não se mostravam tão lucrativos quanto Old Nick desejava, então a mudança para a cidade foi inevitável. Teve de cortar os cabelos, fazer um terno sob medida, teve de substituir a negociação gutural por uma linguagem de vendedor ambulante que fazia com que perdesse parte do respeito que tinha por si mesmo e por seus talentos demoníacos. Que tipo de mundo seria aquele no qual nem o próprio diabo poderia ser orgulhoso? Mas, o hábito que mais enraivecia Old Nick era, sem dúvida, o de selar um acordo com um aperto de mãos. Era revoltante que se vendesse a realização dos piores desejos de uma forma assim tão frígida, tão antisséptica. Mr. Attaway era um jovem morto de fome, que havia embuchado uma moça e não fazia ideia de como sustentar uma família quando sequer conseguia manter sua própria barriga cheira. A barriga de uma mulher grávida, grande como era, deveria exigir ainda mais comida. Trabalhara sua vida inteira na manufatura, e era prole de um casal igualmente morto de fome como o que pretendia então formar. Seus pais morram de frio quando era ainda muito jovem, e desde então trabalhara a preços irrisórios. Não sabia fazer nada além de fósforos. Sua negociação com Old Nick fora bem diferente da de Mama Mayhew. Mr. Attaway não tinha o amor-próprio necessário para negociar, só queria uma escapatória frente ao problema com o qual se deparava. Duas semanas depois, era um dos homens mais ricos em toda a terra da rainha, com um império de fósforos que se expandia até às colônias. Duas semanas foram suficientes para que deixasse de ser um faminto sem amor-próprio para ser um orgulhoso escravocrata. Ou melhor, capitalista.

Old Nick muitas vezes se sentia como um verdadeiro cobrador de impostos, tão burocrático quanto um agente da rainha, mas, obviamente, sem o mesmo prestígio, e seus clientes sempre exigiam sigilo demais. E foi com essa eficiência burocrática que cobrara as dívidas de Mama Mayhew e Mr. Attaway. Old Nick, é claro, não havia envelhecido um dia sequer desde que Mama Mayhew viera até ele. Na verdade, agora parecia ainda mais jovem, com o cabelo aparado e a barba feita. Era um tanto quanto revoltante para Old Nick que estivesse cada vez mais difícil encontrar pessoas dispostas a selar um contrato. A rainha velha era muito carola, mas Old Nick tinha experiência suficiente no ramo dos pecados para saber que esse tipo de coisa só atiçava mais os desejos escusos. Bastava ver Whitechapel; se algum lugar na terra já fora tão parecida com o inferno, era aquele bairro. Era tão parecido, na verdade, que Old Nick evitava andar por lá, não queria correr o risco de ser assaltado. Ou cair na tentação com uma prostituta sifilítica, já tinha sofrido com isso vezes o suficiente para saber se cuidar. O que Old Nick precisava era de clientes jovens e empreendedores, que pudessem ajudá-lo a estabelecer um sistema tão eficiente quanto aquele que tinha no campo, só que agora na cidade. Talvez até expandir, o império era grande, nenhum demônio de segunda classe ia conseguir peitar o grande diabo britânico, mas para isso precisava de um sistema de distribuição muito melhor do que o que tinha agora, isso de ir de porta em porta era, além de ineficiente, muito cansativo. E era um trabalho de vinte quatro horas, Old Nick estava cansado como o diabo.

Foi então que começou a engendrar seu plano maquiavélico. Não era dessas pessoas retrógradas que acreditavam que a corrupção era um traço do sangue. Mas não conseguia deixar de imaginar como seriam as pessoas criadas por alguém que lhe vendera suas almas. Uma pessoa que nem sequer era dona da própria alma, não dava valor suficiente para isso, deveria ser um parente muito ruim. Passou então a examinar os irmãos Mayhew e as irmãs Attaway. Era uma combinação perfeita. Perfeita demais para que se fizesse sem um pouco de ajuda diabólica. Old Nick soube muito bem se aproveitar dos instintos maternos de Mama Mayhew, assim como do orgulho e pragmatismo de Mr. Attaway, que faria tudo para barganhar, hoje, termos melhores do que aqueles que havia aceitado quando sua barriga estava vazia. Old Nick foi convidado de honra para o casamento. E era difícil dizer quem estaria mais feliz, ele ou os noivos.

E nenhuma situação seria mais propícia para abordar os jovens do que no funeral de Mr. Attaway e Mama Mayhew. Gentilmente, com toda a prática adquirida nos séculos, e com todo o pedantismo que lhe era asqueroso mas necessário, Old Nick se aproximou dos jovens herdeiros. Todos sabiam que Mr. Attaway fora rico, mas ninguém realmente parecia saber como funcionara tamanho império de fósforos. Os dois recém-consagrados casais sequer haviam se recobrado de sua dor o suficiente para pensar em tais assuntos. A fortuna que Mr. Attaway lhes deixava seria suficiente para manter um padrão de vida muito mais elevado do que aquele que poderiam esperar nesta etapa de sua vida, ou era assim que imaginavam. Não ficaram tão felizes ao descobrir que a fortuna de Mr. Attaway provavelmente morreria com o velho. Os dois irmãos Mayhew mentalmente xingaram o morto. Old Nick ouviu tais palavrões com o maior dos prazeres. Blasfêmias não podiam ser veladas frente a um demônio. E foi neste momento, em que a tristeza sobre os caixões ainda insepultos se desvanecera, que Old Nick tivera a certeza de que seu plano estava fadado ao sucesso.

Poucos meses depois, a Attaway & Mayhew não só era a maior produtora de fósforos de todo o império, mas também a maior exportadora de tecidos listrados, e agenciadora de pactos demoníacos. Desde o Raj até as Antilhas britânicas, nenhum centímetro de território pertencente à rainha escapava da ambição dos dois casais. Old Nick viu seu plano se desenvolver rapidamente, logo teve de contratar assistentes responsáveis por redigir os contratos infernais, disponíveis em três tipos de papel, a depender das preferências climáticas do cliente, as negociações eram coisa do passado, todas as trocas eram agora correspondentes a um preço tabelado, que qualquer outro demônio honesto acharia superfaturado, mas o nome de Old Nick no ramo era muito reconhecido, até mesmo a rainha condecorara os méritos da empresa. Condecoração essa feita no nome dos Irmãos Mayhew, claro, afinal, para a sociedade, havia sido a capacidade empreendedora dos recém-casados que trouxera novo folego aos negócios à velha manufatura criada por Mr. Attaway; mas no fim das contas, a condecoração fora parar na parede de Old Nick, claro. Agora decididamente estabelecido numa grande casa em Picadilly,  mas na qual passava muito pouco de seu tempo; gostava muito de viajar pelas filiais da empresa para conferir que não estava sendo enganado pelos demônios menores. Se tornou uma figura tão exemplar da comunidade infernal que seu par francês tentou por décadas seguir seu exemplo, sempre sem sucesso.

 

***

A estória merecia um fim. Mesmo que não seja este o fim merecido.

Talvez uma intervenção

Eram tantas as manias que você podia ter me passado, e a que ficou foi logo a de destruir livros. Agora sempre que leio tenho um lápis do lado, para sublinhar as passagens que acho interessantes, e poucos são os livros que li recentemente que escapam de ter suas orelhas dobradas.

Coloco o livro de lado. É daqueles que exige muito de mim. E nunca soube lidar com coisas que exigem demais de outra forma que não fosse procrastinando.

Toda vez que passo uma sexta-feira em casa fico ansioso, esperando que em algum momento, lá pelas duas ou três da manhã, você vá me ligar, talvez um tanto bêbada, para falar alguma coisa. Qualquer coisa. 

Toda vez que saio numa sexta à noite, tenho de me segurar para que não seja eu quem vá beber demais e te ligar para falar alguma besteira. Ou talvez nem para falar o que seja, não é como se soubesse o que fosse falar, talvez só o fizesse para ouvir sua voz. Mas pode ser que falasse algo muito estúpido, é o que costumam fazer as pessoas em situações como essas. E não posso me permitir ser ainda mais estúpido com você. Além do que, não é como se você fosse realmente atender. Não numa noite de sexta. Deve ter coisas melhores para fazer.

Lembra quando muitos anos atrás você me disse que isso de escritores se inspirarem no sofrimento era só um mito? Achei então que você havia me decifrado, que havia percebido que o ennui é só pose, que a pose de triste era só para fazer o poeta antes que as palavras o fizessem. Acho que me enganei. E mesmo agora, o que faz os dedos dançarem é o ócio. É estar em casa, num fim de semana de dia das mães, e não ter o que fazer, não ter em que pensar, se não em você, e em coisas que me disse anos atrás, coisas que você nem vai lembrar de ter dito. A memória é um brinquedo, mas é como aquele jogo de tentar acertar a faca nas lacunas entre os dedos. Se você brinca com memórias displicentemente, elas podem te causar dor, elas podem até fazer com que se perca para sempre um pedaço de você.

E eu podia escrever livros inteiros sobre fracasso,  e sobre como morrem os sonhos e as histórias de amor; sobre gerações perdidas entre incertezas, sobre rotinas sem saída e sobre auto-depreciação. Ao invés disso escrevo sobre o tempo perdido fantasiando e lembrando de você.

sábado, 27 de abril de 2013

"...Classic, with a hint of neurosis."

K, ainda muito jovem, se viu preso numa rotina. Todas as coisas, todos os fatores, se resumiam a números postos ao lado de atribuições. E era horrível que tal coisa acontecesse com alguém ainda tão jovem. Ainda estava na faculdade, mas seus números eram seguramente desimpressionantes: Num dia escovava os dentes duas vezes, se alimentava também duas, bebia cerca de cinco copos d’água, tomava banho uma vez no inverno e duas no verão;  dormia seis vezes por semana, ia para a faculdade três, encontrava com amigos duas; lia três livros por mês, via cinco filmes, saia à noite duas vezes, e, se tivesse sorte, fazia sexo numa dessas. Voltava para sua cidade natal a cada um ano e meio. Sua vida acadêmica era marcada em períodos de seis meses, a sua vida amorosa, antes dos vinte anos, era marcada por paixões que duravam um ano. Até que percebeu que o último percurso que deveria ter levado um ano já tinha passado dos três. Nada mais na sua rotina tinha mudado, apesar disso. Lembrava de uma música que dizia “you never get wiser, you only get older”.  Não se sentia mais sábio, só se sentia mais velho, e mais escravo de suas necessidades, mais incapacitado de satisfazer suas vontades. Era como uma carapaça que tinha crescido ao seu redor, uma forma de se adaptar à realidade, não de se por em bons termos com ela, é verdade, mas uma forma de não se machucar quando as coisas dessem errado. É uma das formas-padrão de lidar com esse tipo de coisa, junto do desenvolvimento de tendências cínicas e e pessimistas. Essas duas já acompanhavam K desde que conseguia se lembrar de si mesmo como algo além de um rascunho de ser humano, desde que deixara de ser uma tartaruga no aquário de uma pet shop para se tornar um adulto.
Exceto que a rotina não lhe trazia nenhuma das vantagens que deveria. Ele não se sentia confortável, não se sentia seguro, não se sentia bem; muito pelo contrário, só sentia um enorme peso nas costas. Sentia a necessidade de mudar, a vontade de fazer algo novo. Não só mudar o número que precedia alguma das atribuições, mudar o quadro como um todo. E não sabia o que o prendia. Não era simples preguiça. Não PODIA ser. “Ninguém é assim tão preguiço”, pensava. E, de fato, era um escravo da preguiça, mas conseguia convencê-la a alforriá-lo temporariamente sempre que precisava; sempre que estava muito carente, sempre que achava que agir ia ser de alguma forma útil, para uma causa ou para alguém de quem gostasse. Surpreendentemente, nunca para si mesmo, era egocêntrico, mas simplesmente não se importava. Foi só quando resolveu que realmente deveria mudar que percebeu, cabalmente, que não se tratava de uma questão de preguiça. A vontade de mover a bunda gorda estava lá, mas era só isso que estava. A carapaça, tal qual a de Gregor Samsa, o prendia, o sufocava. Queria mudar mas não sabia como, talvez sequer houvesse como. Queria mudar para mais, sendo que vivera por anos na disciplina do menos, queria andar com a cabeça erguida depois de ter se acostumado a tomar cuidado para não pisar em merda de cachorro. Não queria ser uma pessoa diferente, estava muito satisfeito com a pessoa que era, mas para mudar o resto, mudar a rotina, como fugir da mudança que deve se dar em nós mesmos? Queria, como uma cobra, se livrar da pele antiga, mas continuar o mesmo animal. Definitivamente era isso que queria, a outra opção seria uma fênix, que morre para dar vida a filhotes, a criaturas novas. Era poético demais, mesmo para K, era muito infantil e ingênuo; ou melhor, simplesmente não tinha a arrogância suficiente para atraí-lo. Lembrava de ter ouvido uma outra música que dizia algo mais ou menos assim: “I can’t save you, there’s no violence in your heart.” O coração de K estava cheio de violência, mesmo que grande parte dela não passasse de faz-de-conta.
Precisava de uma fórmula mágica, mas não era assim tão fácil, não é mesmo? Se o fosse todas as pessoas conseguiriam fazer o mesmo, se fosse tão fácil os problemas da humanidade – ao menos os emocionais e espirituais – praticamente não existiriam. Não, existiam as dificuldades materiais, existia o fato de que mudar a vida significava desistir de muitas coisas, algumas ruins mas outras boas, e desistir significava se sentir fraco, significava que se sentiria menor do que seu medo. Não em todas as coisas, não, se livrar da maioria das correntes que o amarravam seria ótimo, mas algumas não, e essas machucariam. Sempre poderia esquecer, é verdade, mas K nunca fora muito bom nessa brincadeira de esquecer. Talvez essa fosse uma das coisas que devesse mudar em si mesmo. Mas como se faz uma coisa dessas? Algumas mudanças são relativamente fáceis: mudar os ambientes que frequentava, mudar as pessoas com quem convivia. Mas não queria simplesmente sumir da vida de seus amigos, assim como não estava exatamente certo se deveria sair da faculdade, talvez tentar outro curso, talvez tentar algo complemente diferente. Não mudar essas duas coisas já eram permanências fortes demais para serem desconsideradas. Mudar as pequenas coisas (se tornar mais otimista, se tornar mais humilde, menos preguiçoso, mais alegre) eram as coisas importantes, ao menos é o que diziam a maioria das pessoas. E a maioria dos livros de auto-ajuda. Pensar nisso já fez com que K reconsiderasse a questão. E eram essas idiossincrasias que faziam dele quem era, não eram? Passara a vida toda tentando se convencer que sim, que aquela era a pessoa que era, e sem se importar muito com a questão disso ser socialmente fabricado ou espiritualmente inerente, não fazia diferença, o resultado era o mesmo. Mas e se não fosse? E se ele não fosse nada além da carapaça numa cor verde-amarronzada? Não conhecia muito de biologia, mas não podia deixar de imaginar se, algumas vezes, ao tentar mudar de pele, as cobras falhavam e se transformavam em amontoados de órgãos que deveriam ser internos esparramados pelo chão. Não conseguia deixar de imaginar: e se por baixo da carapaça do besouro não existisse nada? Talvez fosse esse medo, mais do que a preguiça, que o impedisse de mudar.
Ainda assim precisava tentar. Talvez desse errado, mas talvez desse certo. Apenas talvez. 

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A Fome

A Fome é diferente em cada um de nós. Todos, no entanto, estão famintos por algo. A Fome não pode ser saciada, não pode ser apaziguada, não existe solução. A Fome é a força motriz, é o motivo e o objetivo de tudo que fazemos. Alguns conhecem muito bem sua Fome, outros apenas arriscam dizer o que seria ela. Outros, como eu, e, talvez, como você, ainda não descobriram. Ou não aceitaram.

K, no entanto, era um jovem que conhecia muito bem sua Fome. E conhecia muito bem o poder que o desejo exercia sobre ele. Hoje em dia, especialmente para alguém jovem, parece cada vez mais difícil saber o que se quer. K sabia. Mas isso não era exatamente um alivio. Muito pelo contrário, saber o que queria era exatamente um problema para o jovem. A necessidade de K não era exatamente física, não era exatamente sexo. Era uma coisa que não existia, não propriamente, não quando se tem vinte e poucos anos. A Fome de K também não era por afeto, não era amizade o que ele queria, não era amor ou companheirismo, não era alguém com quem pudesse conversar ou alguém que pudesse compreendê-lo. Não, a Fome estava no laço e, mais do que isso, na complexidade dele. Nada que pudesse definir seria remotamente útil.

Tente lembrar uma daquelas cenas dos filmes mais antigos que mostravam o Dr. Hannibal Lecter poeticamente apreciando uma refeição. A carga irônica que se revelava quando o garfo entrava em contato com a carne, sem que o expectador tivesse certeza de qual a origem daquele alimento, mas que pudesse muito bem intuí-la. A tensão da faca cortando todas as células devidamente preparadas e arranjadas num magnífico prato, numa obra de arte culinária. A Fome não pode ser comparada com uma alimentação normal, só pode ser metaforizada nesse caso exatamente pela carga paradoxal que se encontraria nesse exemplo. E é aí que está a genialidade dessa metáfora. Mas na vida real a Fome é diferente, no mundo real a Fome é bem menos glamorosa, ainda que seja tudo que pode se existir de mais refinado numa existência. A Fome é psicopática. Sim, é uma obsessão, é uma pequena refeição que pode ser apreciada em todos os seus aspectos e que só serve para aumentar ainda mais a necessidade. Ou melhor, o desejo.

Não é algo bonito de se falar. Na verdade, pode muito bem chegar a ser pura e simplesmente errado falar sobre a fome alheia. Nada revela tanto da alma de alguém. Não as estórias de amor que tentam transformar todas as nossas características em metáfora, não as estórias de fantasia que são, em si, grandes metáforas; e, definitivamente, não as longas dissertações filosóficas sobre a psique de um personagem sobre a sociedade que o moldou e faz dele quem ele é. Quem faz de nós o que somos é a Fome. E – novamente – não é bonito que eu esteja aqui falando sobre a Fome que fazia de K quem ele era. Principalmente por ser essa Fome algo que ele mesmo não consideraria nem sequer ligeiramente elogiável. Que dizer então de reconhecer que era essa característica específica a base fundadora de seu ser? Da forma que levava sua vida? Para a maioria dos homens admitir tal Fome provavelmente não seria nem um pouco embaraçoso, mas o era para K. Ele era um jovem sensível e, mais do que isso, que pensava criticamente. E o seu próprio ser era o alvo preferido de suas críticas. Saber qual era sua Fome só deixava K ainda mais decepcionado consigo mesmo, e ele já era auto-depreciativo o suficiente.  Ainda que, de uma forma muito leonina, para o mundo exterior tentasse passar uma impressão de alguém seguro, até mesmo cheio de si. Pensava se todas as pessoas arrogantes eram tão inseguras quanto ele, mas duvidava que a resposta fosse afirmativa.

A Fome de K era o tempo. Era a espera. Era a tensão da caça. Era a conquista; não a conquista física, mas a conquista moral, espiritual, era a conquista total e definitiva. A Fome de K eram as relações de poder, na cama, nas carícias, nos olhares. Era saber exatamente qual efeito causava sobre alguém, fosse tesão ou fosse puro ódio, era a capacidade de transformar uma em outra e então de voltar ao começo. Era um trabalho lento, era um trabalho digno de um psicopata: a escolha da vítima, a escolha dos métodos e do momento, o prazer da vontade, do clímax e, depois, de se fazer ser odiado. Podia ser interminável, como uma dança, como o movimento de um pêndulo. Podia também ser muito rápido, todo o processo poderia durar apenas uma noite, mas nesses casos K não poderia aproveitar todas as suaves alterações no sabor de seu banquete, poderiam durar semanas, meses, até mesmo alguns anos. Podia ser fácil ou podia ser doloroso, era como experimentar um prato salgado para, na próxima vez, provar um doce. Uma quente e outra frígida.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Talvez uma intervenção

Você não faz ideia de como é difícil procurar por você em outras pessoas. Não sou idiota o suficiente para buscar nelas o todo daquilo que é você, isso seria impossível, é claro. Não existem duas pessoas iguais, mas me consolo em pensar que muitas possam ser parecidas. Nem poderia querer encontrar alguém que fosse exatamente igual a você, isso não me faria nenhum bem, só aumentaria minhas contradições, me faria duplamente decepcionado.

Não, o que procuro são pequenos detalhes que possam fazer com que me lembre de você, que possam fazer com que sinta como se estivéssemos juntos. Não faço isso conscientemente, deixo claro. Faço porque sou fraco, é inevitável. Escuto, por acaso, a conversa de duas pessoas. Sou observador, é isso que faço. E mesmo que não fosse, algumas palavras chegam a nós por acaso. E a palavra que chegou a mim foi o seu nome. Não consigo evitar, minha atenção é instantaneamente fisgada. Olho e percebo que é o seu nome, mas que não foi dirigido a você. A pessoa com seu nome não me fazia lembrar de você em nenhum outro aspecto. Não nos cabelos ou olhos ou nariz. E, apesar de ser errado julgar alguém assim tão sumariamente, nem de perto era tão interessante. Ainda assim, me interessava. Me interessava apenas por ter o seu nome, é verdade. Como poderia evitar? Me pus a pensar, rapidamente, que entre um beijo e outro poderia dizer o seu nome, que na cama poderia sussurrar o seu nome ao ouvido dela e ela nunca imaginaria que seria com você que eu estaria falando. Eu a estaria enganando, mas ela também enganaria a si mesma, e isso parecia tornar o pecado um pouco menor. E eu podia prever que aquilo iria saciar uma pequena parte de mim que havia sido deixada para morrer. E sempre foi essa satisfação pela metade minha sensação mais próxima da felicidade. Ao menos até você. Mas ela tinha o seu nome, a tentação era demais, tive de ir até lá.

Não foi a primeira vez. E, devo dizer, dificilmente será a última. O nome, no entanto, nunca tinha surgido antes. Existem tantos outros detalhes mais fáceis de serem encontrados, alguns tão insignificantes que precisam ser maquiados com um pouco de imaginação. Pode ser o cabelo, podem ser os olhos, pode ser simplesmente a geografia da pele. Nunca o sorriso, nunca o nariz, nunca o cheiro. É sempre decepcionante. Mas a realidade é sempre decepção. Maturidade é só uma forma de ir dessa decepção à seguinte sem desistir. É uma tentativa de lidar com as memórias. Mesmo que seja apenas fingindo que elas não estão lá. Existe, é claro, a necessidade de suprimir tudo que não é aquele detalhe. Se foi o cabelo que me levou até aquele pessoa, então é preciso ignorar a voz. As palavras podem ser os passos da dança do acasalamento humano, mas quando seus pés já conhecem a rotina o suficiente para dançarem no piloto automático é fácil desligar o cérebro. E assim as coisas se desenrolam. Não é você, mas são pequenas partes de você. Ou talvez essa seja só a desculpa que inventei para não me sentir tão culpado, tão fracassado. Provavelmente essa é a forma mais burra de se lidar com esse tipo de coisa. A chance de se ter algum tipo de redenção dessa forma é muito pequena. Veja que digo redenção, não superação ou qualquer outra palavra idiota que o valha e que seja utilizada por jovens que não sabem o que sentem. Eu sei o que sinto, como sei tudo sobre mim mesmo. Certa vez estava discutindo com você sobre o porque de gostar tanto de Murakami. Acho que foi porque os personagens dele conseguiram encontrar a si mesmo de uma forma tão assustadora, mas ainda assim continuam tão perdidos na confusão que é o mundo. Eu me identifiquei, mas para você isso só deve ter parecido um motivo para gostar menos daqueles personagens. Saber o que é, no entanto, não ajuda a descrever aquilo que sinto, sei que provavelmente não é amor a palavra certa (essa nunca é a palavra certa, especialmente comigo, especialmente com você), mas parece ser para sempre. E amor não existe, não é mesmo? É como felicidade. São coisas que só podem ser se no fim der tudo certo, mas no fim nada dá certo. Às vezes tudo que queremos é que dê errado por mais algum tempo.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Mayhew Boys, Attaway Girls – Pt. 2

2 – Onde conhecemos as irmãs Attaway e os eventos se desenrolam.

Alphonse Maria Mucha - B_n_dictineÉ de conhecimento geral o papel que se delega às mulheres – e mais especificamente, às filhas – nesse longo reinado de Sua Majestade Victoria. Não é muito diferente daquele papel que lhes era imposto já antes disso, e que certamente ainda perdurará por muitos anos, mas nunca foi algo tão extremado assim. Talvez nem mesmo na idade média. Todos sabemos como nossa Rainha e Imperatriz preza pelos valores, pela moral, e como é importante para ela que todos seus súditos e súditas vivam uma vida de retidão e contrição. Tendência essa que, claramente, apenas se acentuou com a viuvez da matrona, que finalmente achou uma desculpa para usar preto pelo resto da vida. St. James era a lei.

Uma família inexplicavelmente abastada como os Attaway certamente não esperariam menos de suas filhas – duas flores cândidas, primores de comportamento e temperamento – do que casamentos que enlaçassem-las com famílias ainda mais abastadas.  E, de preferência, de forma bastante explicável e palpável. Foi, portanto, uma grande surpresa quando foi anunciado o noivado de não apenas uma das Senhoritas Attaway, mas de ambas, e logo com os jovens senhores Mayhew. Não que alguém tivesse algo a dizer sobre os Mayhew, de forma alguma, sempre foram rapazes muito bem-quistos, muito asseados, mas que nunca tiveram muito destaque na sociedade. E, principalmente, que não tinham onde caírem mortos – até onde se sabia – a não ser, talvez, o colo de sua mãe. Mãe essa que nunca havia sido bem aceita pela sociedade, pelo menos não como os filhos, desde que Victória sentara seu traseiro gordo – não, sejamos honestos, quando jovem Sua Alteza tinha um traseiro devidamente irretocável – no trono.

Os boatos, é claro, foram muitos. a primeira coisa levantada pelos de pouca imaginação, foi que teria ocorrido algum fato vergonhoso, algo que obrigara o digníssimo Mr. Attaway a ceder a mão de suas duas adoradas filhas. Falou-se que a belíssima Flora havia sido ludibriada, conspurcada por Lucas Mayhew, com aqueles olhos sempre perdidos em alguma lugar, certamente planejando as mais perversas perversões. Falou-se até mesmo que a espirituosa Laura – inteligente demais para ser tão bem-quista quanto a irmã – estaria grávida de David Mayhew, aquele homenzinho que só pensava em coisas ruins, e que, portanto, deveria ser ele mesmo um grande bandido e libertino. Jovens apaixonados clamaram por duelos, no calor do momento, para libertar uma ou outra Miss Attaway do jugo do malvado Mayhew respectivo. Tal falatório, no entanto, não durou muito. Alguém de bom-senso apontou que uma das irmãs poderia haver caído nas garras dos perversos, mas duas? Era maldade demais para ser verdade. Além do mais, os Mayhew eram verdadeiros cavalheiros, nunca haviam demonstrado qualquer grau de libertinagem ou amoralidade, e já cortejavam as respectivas Attaway a muito tempo, sempre de forma muito educada. Mas o que levaria cortejos tão duradouros a finalmente chegarem a algum lugar se não infâmia? Oras, se Mr. Attaway concedera a mão de suas duas filhas, isso só poderia significar que os Mayhew não eram tão pobretões quanto se pensava! Talvez a velha bruxa Mayhew estivesse para morrer e fosse deixar uma herança colossal, como por vezes o fazem os grandes pães-duros das histórias de Mr. Dickens. Sim, devia ser isso, os garotos Mayhew não eram, de forma alguma, pés-rapados, isso se podia ver claramente, como eram ambos distintos cavalheiros, ou pelo menos foi isso que todos se adiantaram a defender assim que tal teoria veio à baila. Os Mayhew deveriam ter adquirido uma grande soma de dinheiro, e isso fizera com que Mr. Attaway visse as vantagens de unir sua família àquela. Uma soma tão considerável que não importava se o sobrenome Mayhew era nobre, se tinha história. Surgiu então a dúvida de como Mr. Attaway ficara sabendo disso, e qual era a real origem de tanto dinheiro. Questão essa que não ficou no ar por muito tempo. Muitos foram os que apareceram dizendo saber de tal a muito tempo, muitas também foram as origens que deram para o dinheiro, alguns mais exaltados se atreveram até mesmo a dizer com autoridade: “Eu vi os jovens Mayhew cortejando as Attaway com tanta paixão que me vi na obrigação de contar a Mr. Attaway a verdade sobre a condição financeira dos rapazes, para que fossem finalmente aceitos.” Como era de se esperar, portanto, os Mayhew passaram a ser convidados para todos os bailes, todos os eventos dignos de nota que aconteciam na capital do Império (além de alguns fora de lá, e muitos que sequer eram dignos de nota). Com, o tempo e a aproximação do casamento, no entanto, a estória de que os Mayhew eram secretamente ricos se esfacelou aos poucos. Os preparativos do casamento, claro, eram organizados por Mr. & Mrs. Attaway, mas o que viria depois disso seria completamente por conta dos irmãos Mayhew, e não se via nada demais, nem mesmo nada que fosse além do que deveriam estar ganhando de dote. Rumores surgiram que o alfaiate tivera de ser convencido a aceitar o dinheiro pelas vestes de casamento dos irmãos apenas após realizada a cerimônia. Foi então que alguém muito sensível percebeu que não fazia sentido essa estória toda, que devia ter algo muito errado para que os casamentos fossem arranjados, e tudo assim tão às pressas! Mas então já era tarde demais para duelos, e poucas pessoas conseguem se interessar por uma história que não envolve nem libertinagem nem heranças exorbitantes, então acabaram deixando tudo de lado. Algumas senhoritas muito jovens e inocentes chegaram até a pensar que tudo se tratava de uma história do triunfo do amor sobre o dinheiro e a sociedade, mas tais devaneios obviamente não foram levados a sério.

Enquanto tudo isso acontecia no mundo lá fora, Flora e Laura Attaway corriam com os preparativos de seu casamento. Laura era mais velha que Flora, mas ambas eram, obviamente, muito mais jovens que os ainda jovens irmãos Mayhew. Ambas eram cortejadas pelos irmãos já ha alguns anos, e seria insensível de minha parte dizer que não estavam apaixonadas. Mas, considerando o fato de que ambas estavam apaixonadas, eram elas as provas vivas de que a paixão pode acontecer de diversas formas, por diversos motivos. O que não era nada além do que poderia se esperar, afinal, se existia uma dupla de irmãos mais discrepante que os irmãos Mayhew, essa dupla eram as irmãs Attaway. Basta que olhemos para como cada uma se comportou no período entre a aceitação do pedido de casamento e a consumação do ato. Ambas ficaram surpresas, mas isso era de se esperar, qualquer pessoa ficaria, toda a sociedade londrina ficou, como eu bem já expliquei. Mas, para além disso, as duas passaram a agir completamente diferente. Ao sair do estado de choque inicial, Flora passou a um semelhante de extrema felicidade, o que fez com que sua irmã pensasse em como ela era perfeita para Lucas, ambos em seu tedioso otimismo e seu romantismo quase patológico. Enquanto a irmã se perdia em devaneios, Laura definiu toda a base do casamento. Ela que definiu que seria uma única cerimônia – o que deixaria toda a sociedade de queixo caído, mas era bastante racional, e talvez por sua própria racionalidade, deixasse todos assim abismados –, onde ela aconteceria, a data, o quanto poderiam gastar, e até mesmo alguns detalhes do que viria depois; Laura fez questão de tirar Lucas da sua letargia para que tivesse respostas claras sobre como ele planejava sustentar sua irmã, coisa com a qual seu pai surpreendentemente não havia se preocupado, e, apesar de não ficar completamente satisfeita com a resposta, teve de se contentar. A vida que teria com David não seria tão diferente, é verdade, mas ela era mais independente que Flora. Ou melhor, ela se importava menos com determinadas frescuras, e certamente poderia apoiar David, talvez até mesmo se responsabilizando por uma parte dos rendimentos familiares, nos últimos anos isso não era tão incomum, para desgosto dos conservadores e da Rainha. Mas Laura não se importava tanto com esse tipo de coisa. Na verdade, Laura era o tipo de pessoa que se importa muito pouco com o que for, era inteligente – ou ao menos se assegurava disso – o suficiente para não cair nas maquinações e enganações que vinham acompanhadas de bailes e ceias elegantes. Laura era uma ótima pianista, mas como o piano era visto como nada mais do que um passatempo, deixava que parte de seu tempo se ocupasse também com a literatura. Gostava muito de algumas das obras mais recentes, que tanto escandalizavam os literatos. Não só os livros de Wilde que David sempre levava debaixo do braço, mas mesmo aquelas coisas mais complicadas, para as quais ele não tinha tanta paciência mas para as quais se dedicava para deixá-la feliz.

Depois de definidos esses primeiros detalhes, Laura simplesmente deixou tudo de lado. Isso coincidiu com a época em que Flora percebeu a aproximação da data definida pela irmã, e começou a ficar completamente obcecada com os detalhes – aquele tipo de detalhe para o qual a irmã nunca daria a devida importância – e teve de arregaçar as mangas. Com base nos orçamentos pré-definições feitas por Laura, Flora fez com que o casamento fosse realmente um evento que chamasse a atenção de toda a sociedade. A decoração, os ritos, os votos, a festa. Flora, assim como a irmã, gostava de literatura. O gosto, porém, era bastante diverso, Flora gostava daqueles autores franceses, seus poemas cheios de sentimento, se entediava demasiado com a prosa que a irmã lia como se não tivesse mais com o que se preocupar. No piano, não era nem de longe tão boa quanto Laura, mas tocava com uma frequência muito maior, mesmo que apenas para ouvir os elogios de como era uma moça prendada. Sabia falar línguas que a irmã mal sabia paintings-by-pino-daeni-3-159590-530-664existir, e se fascinava com tudo que tinha relação com o oriente. Fizera questão de usar tecidos da pérsia ou ainda de mais longe, incensos e coisas do tipo para deixar a cerimônia com um ar mais exótico. Isso tudo sob os preceitos de St. James, é claro, pois isso era o mais importante.

Uma semana antes do casamento, a casa dos Attaway era um verdadeiro caos. Enquanto Flora experimentava e reclamava para conseguir os últimos ajustes de seu vestido, tão violentamente descabelada que a visão chegava a ser cômica – um vestido branco esvoaçante encimado por fundas olheiras e fios de cabelos despontando para todos os lado – enquanto isso Laura estava num canto, completamente quieta, o cabelo preso num coque – o que não impedia que lhe caísse frente às orelhas, quase que emoldurando o rosto, de uma forma esquisita – vestindo apenas sua roupa de baixo – o que já significava uns bons quilos de tecido – e fumando um cigarro de maconha que lhe fora recomendado pelo médico da família para aliviar a cãibra menstrual, mesmo tratamento que era recomendado à própria Rainha Victoria. Laura, nesses dias, tinha de ficar o mais afasta de sua irmã o possível, já que Flora sentia muito mais os efeitos de tal remédio que a própria medicada. Mas nesse caso era inevitável, Laura tinha que estar lá durante os testes de vestido, assim como tinha que estar na maior parte das preparações do casamento, agradasse ou não a Flora. Laura, por sua vez, pensava na Rainha. Se os ciclos delas fossem sincronizados, ela poderia estar fumando agora mesmo. Será que Victoria seria como ela, que mal ficava de olhos vermelhos? Ou seria como Flora, extremamente sensível sobre isso? Laura gostava de pensar que a Rainha vivia um dilema moral por conta disso. Mas não tinha certeza se existia motivo para tal. Ela não deveria dar importância para isso.

Laura simplesmente acenava para tudo que a irmã dizia. Percebeu que havia alguém à porta do casarão apenas quando a pesada porta se abriu no andar abaixo. Saiu do quarto, em direção à entrada, para ver quem era, sem se importar em deixar a irmã mais nova sozinha. Foi só quando viu o visitante, um homem alto e magro vestindo roupas chamativas e listradas, que lembrou que não estava propriamente vestida. Escondeu-se, tendo certeza de que não havia sido vista. Ela nunca tinha visto aquele homem, fosse em casa, fosse nos eventos que os Attaway costumavam atender. No entanto, o estranho andava pela casa plenamente livre, como se a conhecesse muito bem, e foi direto para a sala onde Mr. Attaway costumava receber parceiros de negócios, e onde havia concedido a mão de suas filhas para os irmãos Mayhew. Laura não conseguiu conter a curiosidade, teve de seguir o homem estranho, sempre tomando cuidado para não ser vista. Depois de que entrou na sala, fechando a porta atrás de si. Laura foi até lá, cuidadosamente, e pôs-se a escutar através da porta.

De início, o que lhe chamou a atenção foi o silêncio. Nada de cumprimentos, nada de educação. No entanto, não parecia ser um silêncio tenso. Mas ela sabia que seu pai estava ali com o estranho. O que lhe chamou a atenção em seguida foi ouvir Paganini. Não fazia ideia do que, naquela sala poderia estar fazendo aquele som. Seria o estranho um violinista? Mas não havia nenhum violino naquela casa, e o homem não trouxera nenhum consigo. Mais estranho ainda foi quando o violino parou abruptamente e seu pai falou, como se respondesse a ele. Ao que se seguiu uma nova peça de Paganini, e então uma resposta de seu pai, e assim consecutivamente. Era como ouvir apenas uma metade da conversa. Ainda assim, ficava claro que os dois – Mr. Attaway e o violino, já que não se ouvia outra voz – discutiam o casamento. Por algum motivo Mr. Attaway parecia agressivo, assim como o violino, afinal era Paganini. O violino era tocado com maestria, parecia ser o próprio Paganini a tocar, e Laura se sentiu fortemente tentada a abrir a porta e ver quem tocava. Foi então que ouviu passos se aproximando da porta. Correu e se escondeu num lugar que pudesse ver quem sairia pela porta. O homem alto e vestindo listras saiu, com um sorriso sardônico. Só agora ela percebeu que mesmo o cabelo dele parecia ser listrado: fios ruivos entrelaçados por fios grisalhos. O estranho parecia muito satisfeito consigo mesmo, e se dirigiu diretamente à saída do casarão. Laura, no entanto, ficou escondida mesmo depois de ouvir a porta principal ser fechada. Quando finalmente saiu de lá e foi até a sala do pai, encontrou-o calado, lívido. Com uma real cara de susto. Não conseguiu fazer nada que não balbuciar frente as perguntas da filha. Parecia muito assustado. Quando finalmente se deu conta das coisas que a filha lhe perguntava, mandou-a se calar e saiu. Se aquilo tinha algo relacionado com seu casamento, precisava falar com David, juntos conseguiriam entender melhor do que aquilo se tratava. Talvez o homem listrado tivesse alguma relação com os Mayhew. Se não se enganava, Mrs. Mayhew fora ruiva antes de ter seu cabelo embranquecido pelo tempo.

Os preparativos do casamento, no entanto, a consumiram mais do que esperava, e Flora cobrou demais sua participação, não teve chance de conversar com David até a noite do casamento, e ainda assim, tinham muito mais com que se preocupar. Tudo parecia ter corrido bem, e sabia como David gostava de se preocupar com tudo que aparecia pela frente, tudo era, para ele, um problema que precisava ser resolvido. Durante a cerimônia, obviamente, não poderia trazer isso à tona, e mesmo depois, na noite de núpcias, tinham mais sobre o que conversar.

Mal sabia ela que, naquela noite, quando finalmente experimentava um pouco de paz ao lado de David, o homem listrado movia os cordões de seu teatro de marionetes. Na noite seguinte à noite de núpcias, Mr. Attaway e Mrs. Mayhew ambos amanheceram mortos.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Mayhew Boys, Attaway Girls – Pt. 1

Já faz um tempo que não escrevo aqui. Grande parte da culpa por isso é do semestre, da falta de tempo e dessas coisas. Uma pequena parte, no entanto, se deve a estar envolvido com um outro projeto. Alguns meses atrás algumas pessoas de RI tiveram a ideia de criar um jornal, e eu claramente faço parte dele. Já saíram da prensa internética três edições, que você pode conferir aqui. Todas as edições tem mais de um texto meu, então acabei me concentrando lá, e deixando aqui um pouco de lado. O Yuri também faz falta como estímulo. Mas o importante é que agora estou com um tempinho e vou tentar escrever pelo menos algumas vezes antes que a ampulheta volte a girar e o pêndulo se aproxime da minha garganta querendo cortá-la.

Percebi que essa estória vai ser mais longa do que imaginara inicialmente, então será cortada. Inicialmente em três partes. Todas serão postadas aqui ainda esse mês, espero.

***

1 – Onde conhecemos os Mayhew, e nosso nêmesis.

Alphonse Maria Mucha - Flirt _calendar_Lisonjeados, os irmãos Mayhew saíram do grande salão. A arquitetura do lugar deixava claro sua importância, dava importância para tudo de acontecia ali, de uma forma bastante soturna. Devia ter sido construído em algum momento do reinado de Charles II, logo depois de Cromwell. Os irmãos ficavam um tanto atônitos ao imaginar como uma família com um sobrenome de origem tão comunal como Attaway podia ter posse de um casarão como aquele, de um salão de tanta gravidade histórica. Ou melhor, isso passava pela cabeça de apenas um dos irmãos, David. Era o mais racional dos irmãos, o único que conseguia pensar em diversas coisas ao mesmo tempo. Lucas era diferente, era fácil perceber, enquanto o vemos subir à carruagem de aluguel, que tudo que ele viu ou ouviu naquele lugar não deve ter causado nenhuma impressão em sua memória, estava com o exato mesmo ar avoado que tinha ao chegar.   Era uma espécie de humilhação, para eles, ter ido fazer um pedido de casamento em um Hansom, um taxi comum, e não num Ladeau, como a situação – e as pretendentes – exigiam. Mas estavam apaixonados e não tinham dinheiro. E, no fim das contas, tinham até mesmo sido lisonjeados. Lucas não conseguia pensar direito nisso, era claro, não conseguia pensar em outra coisa que não sua amada Flora já a meses. David, no entanto, achava tudo aquilo muito estranho. Mr. Attaway os havia recebido cordialmente, mas de forma alguma havia sido caloroso. David achava mesmo que alguns dos tramites normais da situação provavelmente haviam sido deixados de lado: nada de serviçais servindo bebidas, nem como aperitivo nem como comemoração, nenhuma das filhas por perto. Tudo muito estranho. É claro que David também estava tão embriagado de paixão quanto seu irmão. E estava imensamente feliz por ter conseguido a mão de Laura. Mas fora muito rápido, muito frio. Não haveriam dotes nem nada do gênero, isso era de se esperar, mas Mr. Attaway também não demonstrara nenhum interesse em garantir que as filhas teriam uma vida decente, mesmo que não no mesmo nível de elegância ao qual estavam habituadas.

Era de se esperar que Mr. Attaway já houvesse se inteirado por completo da situação financeira dos irmãos, mas ainda assim era incomum que não tivesse feito qualquer pergunta, qualquer ressalva. Se atendo completamente aos fatos, David não acreditava que Mr. Attaway fosse permitir que não apenas uma de suas preciosas filhas, mas sim duas delas, se casassem com os Mayhew. Eles era, bem-apessoados, e tinham muito cuidado de passar a impressão de jovens promissores e estáveis, mas não era difícil saber que isso não era exatamente verdadeiro. Quando Mr. Mayhew falecera, quase dez anos antes, deixara uma herança que poderia sustentar apenas um filho, numa vida confortável mas desprovida de luxos. Os dois irmãos Mayhew, no entanto, dividiram o recebido igualmente, como gêmeos. Sempre foram muito afeitos um ao outro, e nenhum deles teria coragem de reclamar a herança inteira, com medo de perder tal cumplicidade. Ao chegarem em casa – que parecia ter o dobro da idade da dos Attaway, dado seu desgaste, mas que na verdade não devia ter nem mesmo um terço disso – os irmãos foram diretamente contar as boas novas à matrona. Mrs. Mayhew lembrava a Rainha Victoria. Ambas estavam por volta dos 60 anos, e embora Mrs. Mayhew parecesse bem mais velha, a semelhança era inegável. A gorda matrona recebeu as notícias calada. Sentada na poltrona velha ouviu os filhos narrando todos os detalhes, ouviu Lucas falar e repetir centenas de vezes elogios a Flora, o rapaz divagava, tinha planos idílicos e parecia ainda não perceber que casamentos naquela época eram muito menos românticos do que imaginava, que a vida de casado não tinha uma proteção mágica que impedia o acontecimento de coisas ruins. David estava mais calado, perdido em pensamentos. Foram assim desde pequenos, Lucas era muito otimista e David nunca conseguia realmente aproveitar as conquistas que obtinha, simplesmente criava algo em sua mente que dizia que algo de ruim deveria vir com aquilo. Podia ser cautela, mas era exagerada. No entanto, dessa vez o olhar de Mrs. Mayhew se prendeu em David, que não percebeu isso por estar muito perdido nas suas preocupações precedentes.

Diante da euforia de Lucas, os medos de David acabaram se colocando de lado. No fim da noite os irmãos já estavam ambos tranquilos e alegres. Se não na mesma medida, em uma bem semelhante. E foi com esse espírito que cada qual foi para sua casa. Casas essas ainda menores e mais envelhecidas pelo tempo, pela chuva e pela fumaça que a casa de seus pais, perto da qual pareciam dois ovos sob a galinha. A verdade é que tais casas serviam para pouco mais que dormir, a maior parte do tempo os irmãos Mayhew ainda passavam na casa onde haviam sido criados: as refeições, as confabulações, até mesmo encontros de negócios. Mas, à noite, com a parca criadagem dormindo no anexo e os filhos longe, a casa era unicamente de Mrs. Mayhew e do fantasma de Mr. Mayhew.

Tarde da noite, Mrs. Mayhew foi até a porta do casarão. A abriu como se soubesse que alguém se encontrava ali. E, realmente, alguém ali estava. Um homem alto e magro, os cabelos de um ruivo não-natural, não daquele ruivo fogo que é fácil de se encontrar, mas de um vermelho sangue, completado com verdadeiras listras de cabelos grisalhos. O homem vestia trajes justos, o casaco, a calça e a gravata eram pretas, com listras vermelhas, o colete, ainda mais chamativo era de um tom de vermelho muito próximo do da cor do cabelo, com listras amarelas. Apenas a camisa branca era realmente adequada. Como um todo, o modelo era antiquado, impróprio para um cavalheiro. Mas o homem não era um cavalheiro: é de conhecimento geral que um cavalheiro não usa listras, listras são a vestimenta do diabo. De longe, tal figura já chamaria bastante atenção, mas os que se aproximassem iriam se assustar ao ver os olhos de cores diferentes. Não era uma combinação comum, nada de um olho verde e outro azul ou castanho, não. Um dos olhos era esbranquiçado, talvez cego, mas imóvel como um olho de vidro e o outro, de longe poderia disfarçar-se como sendo castanho, mas de perto era claramente vermelho. Nenhuma carruagem se encontrava ali, o homem parecia ter chegado a pé e exibia um sorriso sarcástico e de dentes tortos.

Sem nenhum palavra, Mrs. Mayhew fez um sinal para que o homem entrasse. E ele obedeceu, ainda com o sorriso no rosto, girando a bengala de ébano no ar. Ambos seguiram silenciosamente para o grande salão, onde Mrs. Mayhew se sentou na sua poltrona, sob o retrato do falecido marido – um homem gordo e careca, com o rosto tão completamente ocupado por um sorriso de orelha a orelha e por um nariz aterradoramente grande que os olhos pareciam dois pequenos pontos perdidos no rosto – e encarou o visitante, que ficou a caminhar em círculos pela casa.

“Eu sei porquê você veio, mas ainda é cedo, Old Nick.” Disse Mrs. Mayhew para quebrar o silêncio. “Se é que ainda posso chamar de Old Nick alguém que é visivelmente mais jovem do que eu.”

“Ah, bruxa velha, você não passa de uma criança para mim.” Disse o homem, num tom leve, sem se desfazer do sorriso. Sua voz era suave e aveludada. “Mas você sabe qual o acordo. Você tinha três desejos, todos eles se realizaram, agora não há nada que te prenda a este lugar.”

“Hum, aprendi com você a ser cautelosa nos negócios. Nada me garante que minha última solicitação foi atendida.”

“Ah, como ousa! Por acaso não cumpri devidamente nossos dois acordos anteriores? Se me lembro bem, ha quase 50 anos uma jovem foi até o bosque pedir minha ajuda para fazer com que seu amado retribuísse seu amor. Que criança tola era aquela, se embrenhou dentre as árvores pois achou que eu não poderia ir até a casa dela!” E aí o homem soltou uma gargalhada assustadora e alta, que poderia acordar todos os criados, e mesmo os vizinhos, não fosse também uma gargalhada enfeitiçada. “E ainda mais tola de ter ido até lá por um homem como esse, que poderia ser seu com um simples abrir de pernas." A bengala de ébano apontava para o retrato de Mr. Mayhew. “Quarenta anos depois, a mesma criança, embora agora estivesse com os cabelos embranquecidos e não fosse mais burra o suficiente para ir me procurar nos bosques, essa criança me fez um segundo pedido. Ela não queria se separar do homem que amava, o homem que morria enquanto ela falava comigo. Ainda assim, apesar de todas as dificuldades, eu cumpri minha parte do contrato, a menina casou-se com o homem e, quando ele morreu, não se separou dele.”  E então o homem apontou para o fantasma de Mr. Mayhew, encolhido em um dos cantos do salão, até agora despercebido. “E ainda assim você duvida que vou cumprir com a última parte do contrato, criança tola?”

“Cale a boca, você não está aqui para se vangloriar das suas capacidades ou dos acordos que cumpriu no passado. A última parte do acordo dizia que meus filhos iam se casar com mulheres ricas, que iam ter suas vidas garantidas por isso. Hoje eles receberam as mãos dessas mulheres, mas ainda é cedo para que eu lhe pague por seus trabalhos, o casamento ainda não foi realizado.”

“Que seja, então, velha. Voltarei na noite de núpcias de seus rebentos para tomar o pagamento que é meu por direito. E então você não terá mais formas de protelar, que fique bem claro.” Irritado, o homem chamado Old Nick foi até a lareira e lá se desfez em labaredas do mais intenso dos vermelhos, sem esperar respostas.

O fantasma de Mr. Mayhew se aproximou de sua esposa. O próprio andar do fantasma demonstrava como ele se sentia humilhado da condição na qual se encontrava. O olhar que lançava a Mrs. Mayhew era de pura reprovação. Mas ainda assim tentou abraçar a mulher enquanto essa chorava lágrimas silenciosas. Em vida, Mr. Mayhew fora um homem muito querido por todos, o sorriso e o nariz, ambos enormes, que apareciam no seu retrato tinham uma parte considerável da culpa por isso, mas era também espirituoso e muito afetuoso com todos. Compreensivo e progressista. Mrs. Mayhew quando jovem era uma mulher livre, e se encantara por Mr. Mayhew exatamente por encontrar nele um homem que não desprezava as mulheres, como muito se fazia naqueles tempos. Com o andar do reinado de Vitória as coisas apenas pioraram nesse sentido. No entanto, Mrs. Mayhew acreditava que seus filhos haviam absorvido bem o exemplo que lhes passara o pai. Desde que Mr. Mayhew falecera, cerca de dez anos antes, seu fantasma passara a ocupar a casa. Cuidadosamente educado nas artes de ser um fantasma, pelos conhecimentos da esposa, Mr. Mayhew era visto apenas por ela.  Não era do tipo de fantasma que assombra casarões, era do tipo de fantasma que vive pela metade. Mas isso pode já ser dito de muitas das pessoas vivas.