sexta-feira, 10 de março de 2023

Canções para fazer brotar um rio

para Nara, e para Lena

1.
Dizem que Moshê feriu as pedras a pauladas para fazer brotar a água
Deu certo, mas a que custo? 

2.
Os rios precisam, para brotar, de canções mais sutis que aquela do pau contra a pedra:
O gelo andino se desmanchando ao sol, o olho d'água agitando a areia no meio da mata, a chuva de verão encharcando a serra;

3.
Cada rio que brota é um milagre,
Não pela sede que sacie, mesmo que sacie muita sede
Não pela vida que carregue, mesmo que carregue muita vida
O milagre é que o rio brote, e o rio que brota é o milagre;

4.
O difícil dos rios é que só se pode amá-los em movimento;

5.
Se eu fosse profeta, inventaria uma religião toda fluvial:
As noviças percorreriam um rio da nascente até o mar
As iniciadas de volta do mar até a nascente;
Só atingiriam o sacerdócio as que encontrassem
na volta uma nascente diferente daquela de que partiram;
Só conheceriam a fé verdadeiramente
as que, sem perceber, mudassem de rio no meio do caminho;

6.
A verdade é que não posso ensinar quem quer que seja sobre canções para fazer brotar um rio:
Moshé escreveu cinco livros para ensinar como fazer um mundo, um país, um povo,
e mesmo assim fez o que fez quando se tratou de brotar a água;

7.
Mas tenho fé nos aquíferos que moram em nossos subterrâneos
Há uma hidromancia toda nossa, se nos permitirmos
adivinhar a água pela água;

8.
Todo rio é presente de um rio que veio antes
Rios que correram por sob a terra, por sobre o ar, rios caindo das nuvens, ou das estrelas;

9.
Todo rio que brota é um presente,
Não pela sede que sacie, mesmo que sacie muita sede
Não pela vida que carregue, mesmo que carregue muita vida
O presente é que o rio brote, e o rio que brota é o presente;

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Liturgia (2)

Então Jesus olhou para todos os que estavam ao seu redor, e disse ao homem: "Estenda a mão." O homem assim o fez, e sua mão ficou boa.

 

Meu Deus não celebra a páscoa na igreja
(Só comparece quando é convidado
e mesmo assim nunca com certeza)
prefere o chão, cem vezes, ao tablado

Meu Deus celebra a páscoa onde esteja,
com vinho, ou guaraná, e pão assado
O culto do meu Deus se faz à mesa
só se louva a meu Deus acompanhado

Meu Deus não celebra a páscoa na igreja
(Se tenta, botam-no logo de lado)
É uma religião que escapa ao sentido
a de um Deus que fornece Seu exemplo: 

Nunca realizar milagres no templo
(Exceto nos casos em que é proibido)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Manual de Dermatonomia — ou, qual a diferença entre uma verruga e um olho de peixe?

 para a Raíssa

    Quando uma bruxa (ou bruxe, ou bruxo) lança uma maldição, se forma sobre a pele da pessoa amaldiçoada uma verruga. O tamanho e aspecto da verruga podem variar conforme o rancor da bruxa (ou bruxe, ou bruxo) contra a pessoa amaldiçoada, e a força da maldição: quanto mais poderosa a maldição, maior será a verruga; quanto mais rancorosa, mais a verruga apresentará uma tonalidade que se destaque na pele da pessoa atingida.     
    A localização da verruga pode variar conforme o tipo de desagravo cometido contra a bruxa (ou bruxe, ou bruxo) em questão: esbarrar com uma bruxa (ou bruxe, ou bruxo) na calçada, por exemplo, provavelmente vai te render uma verruga em um braço ou ombro; a uma pessoa que julgue muito barulhenta, a bruxa (ou bruxe, ou bruxo) fará crescer uma verruga em alguma parte mole, normalmente a barriga, a bochecha, e, em casos especiais, uma das nádegas; pessoas que façam pouco caso da culinária de uma bruxa (ou bruxe, ou bruxo) podem ver em si brotar uma verruga na língua, ou na sola do pé; atrapalhar uma bruxa (ou bruxe, ou bruxo) que tenta enxergar o céu noturno rende uma verruga na ponta do dedo inconveniente; por fim, entre as de mais interesse, é no nariz que crescem as verrugas de pessoas amaldiçoadas por terem feito pouco dos poderes mágicos de uma bruxa (ou bruxe, ou bruxo). Não é à toa, aliás, que tanta gente haja, entre a bruxaria, com verrugas imensas espalhadas pelo nariz: o segundo passatempo favorito das bruxas (e bruxes, e bruxos) é fazer pouco caso das habilidades mágicas de outras bruxas (e bruxes, e bruxos); seu primeiro passatempo favorito, por sua vez, é lançar maldições a outras bruxas (e bruxes, e bruxos) que fizeram pouco caso de seus encantamentos.    
    A quantidade de verrugas é invariável: sempre exclusivamente uma por maldição. Isso se dá porque a ofensa é a matéria prima da verruga, e as leis naturais são muito claras nesse sentido: independente do poder, do rancor, ou do direito de vingança que uma bruxa (ou bruxe, ou bruxo) tenha sobre uma pessoa que a ofendeu de algum modo, cada ofendimento só é suficiente para produzir uma unidade de verruga — é responsabilidade da bruxa (ou bruxe, ou bruxo) caprichar na maldição, caso se importe tanto assim com o desrespeito sofrido. Algumas bruxas (e bruxes, e bruxos), naturalmente, tentam burlar a natureza, quando sentem que o rancor não foi ainda exaurido: aprendem os horários da pessoa a quem querem amaldiçoar repetidamente para esbarrarem com ela de novo e de novo ao atravessar a rua para o mercado; se acostumam a ouvir tudo no volume mínimo, a andar o dia todo com abafadores nos ouvidos, apenas para retirá-los quando sabem que a pessoa a ser amaldiçoada vem visitar; presenteiam a amaldiçoável com seus bolos e doces menos favoritos, toda semana, um favor entre vizinhos, meu bem; misturam o nome de estrelas e constelações para ver seu alvo colocar um dedo entre seus olhos e o céu noturno; erram feitiços, poções, e fórmulas de encantamento de propósito, só para ouvir o bufar autoconfiante da bruxa (ou bruxe, ou bruxo) que se acha superior.
    Mas logo descobrem que não é a mesma coisa. As verrugas subsequentes, forjadas de desagravos forçados, não têm o mesmo ímpeto, o mesmo charme, não têm arte. É a verruga pela verruga. A verruga traidora, que chega mesmo a realçar o desenho dos ombros ou valorizar o olhar afiado da pessoa atingida, agora mais bonita com suas três verrugas do que quando não tinha nenhuma.

    Por sua vez, os olhos de peixe aparecem quando uma sereia (ou sereie, ou sereio) se apaixona por alguém. No caso, o tamanho do olho de peixe independe do tamanho do apaixonamento da sereia (ou sereie, ou sereio), ou de seu poder, que as leis da natureza que regulam a paixão são outras, e não funcionam muito bem com isso de forças patológicas e medidas taumatúrgicas. É, na verdade, muito mais cronológico. O olho de peixe é o resultado da permanência do olhar apaixonado de uma sereia (ou sereie, ou sereio) por sobre aquele pedaço do corpo da pessoa amada: quanto mais tempo olha, tanto mais cresce.
    Cada sereia (ou sereie, ou sereio) tem seu tipo. As que se apaixonam mais facilmente por pessoas parecidas consigo mesmas, normalmente ficam olhando para as mãos de suas amadas, e comparando com as próprias mãos, e daí de surgirem olhos de peixe em tantas mãos. As que se apaixonam mais facilmente por pessoas diferentes de si, se enamoram normalmente das pernas e dos pés de suas amadas, e daí que haja tanta gente com olhos de peixe nos joelhos ou nos pés. É difícil as sereias (e sereies, e sereios) porém ficarem olhando muito tempo para nossos rostos — acham as expressões humanas muito secas e terrestres para seu gosto, normalmente nos amam apesar de nossas caras, e não por causa delas.
    O amor é coisa muito mais produtiva do que o despeito, pelo que uma única paixão pode levar a muitos olhos de peixe. Na verdade, a origem de um olho de peixe é coisa muito complicada de se identificar: há casos de múltiplos olhos de peixe no corpo de uma pessoa, causados por uma sereia (ou sereie, ou sereio, não se sabe ao certo) indeciso a respeito de qual parte achava mais charmosa na pessoa amada. Há o caso de uma pessoa que tinha, dizia-se, o cotovelo tão ao gosto de uma sereia, e ume sereie, e um sereio, que os três juntos revezavam-se admirando-o, a ponto de um olho de peixe do tamanho de uma bola de gude ter crescido ali. Mas é sempre incerto, e a natureza desproporcional entre o amor e o tempo complica as coisas: como saber quantas sereias (e sereies, e sereios) são responsáveis por aquele olho de peixe? Como garantir que a sereia (ou sereie, ou sereio) que por mais tempo admira seu tornozelo é realmente quem está mais enamorada? Às vezes alguma das outras pretendentes é mais tímida, ou às vezes há uma sereia astigmata, ou distraída, que precisa olhar longamente para aquele tornozelo para ter certeza de seus detalhes apaixonantes.
    Mas estas perguntas e especulações são todas, no fim das contas, vazias. Tanto faz se é uma ou mais de uma sereia (ou sereie, ou sereio) quem te ama, como tanto faz saber qual delas te ama com mais intensidade. Todo o povo do mar aprendeu há muito tempo que seres humanos só se amam de vista — e o mais conveniente ainda, ensinam aos cardumes de filhotes de sereia, recém saídos das ovas, e o mais conveniente é que seja uma paixão de mão única. Mirem os humanos, ensinam, suas mãos tão parecidas com as nossas e suas pernas tão diferentes, mas não deixem os humanos mirarem de volta. O máximo que se ganha do amor de um ser humano é uma cantiga triste, ou a sensação de desaparecer na espuma.


sábado, 1 de outubro de 2022

Oração para São Jerônimo

(para o Leandro D.)  

Meu vô Willy xingava palavras feias:
Scheiße!, ele dizia. Verdammt!
e talvez outras, importadas da Renânia, que eu não conheço

e a vó Emília dizia que não, amuada
que não falasse palavrão assim
é pecado

Pecado? Pecado como?
Gott kann kein Deutsch

Talvez seja isso mesmo, vovô
mas eu acho que o buraco é mais embaixo

Na minha experiência, Deus não se presta a nos atender muito em português tampouco
(só se for do jeito d'Ele, lá pelas Suas linhas tortas)
Alguma coisa se perde na tradução,
no pecado como na graça

Acho que Deus só fala mesmo é latim
Por isso inventou São Jerônimo, para que
ele pudesse vir e dar um relato mais preciso
do que Seu Filho andou fazendo nos anos que andou
de férias entre nós

Intercedei por nós, São Jerônimo
traduza nossas preces, para que cheguem aos ouvidos de Deus
num linguajar que Ele entenda

Intercedei por nós, paizinho Jerônimo
verta as respostas de Deus com carinho
para que mesmo Seus nãos mais absolutos
soem doces aos nossos ouvidos cansados

domingo, 4 de setembro de 2022

Frodo em Imladris

Viver pode muito bem ser que seja
a sensação de acordar de um sonho triste
para outro
Sentir no ombro a cicatriz da ferida de ontem
Sentir nas mãos o comichão da ferida de amanhã

Viver pode muito bem ser que seja possível apenas
na escolha de seguir marchando
de um sonho ruim para outro
da ferida de agora até a próxima

Não devemos nos espantar diante da ignorância
nem nos arrepender de não termos memorizado todos os mapas:

Os que conhecem o caminho
não seriam capazes de trilhá-lo


domingo, 3 de julho de 2022

não é preciso ir longe para encontrar o monstro:

ele está logo aí, mais que teu vizinho

um inquilino íntimo do teu peito

quem sabe é ele mesmo que lê

ele mesmo é quem escreve

 

tu reconheces o monstro nas passagens mais sutis

no ponto entre uma faixa e outra da curva

na esquina da esquina

 

espelhos são desnecessários, nesse sentido

 

querer encontrar o monstro com um espelho é um erro que cometem os inexperientes

sim, o monstro está neles

além da íris, a sugestão do monstro fica visível em quase todos

os reflexos de quase todas as pupilas

mesmo a das crianças

 

mas, mas!, que deselegante querer assim procurar o monstro

mais bonito é encontrá-lo no gesto suave

no virar do rosto

na mão que segura a faca com

um pouco mais de força do que é preciso

no passo que hesita no

vão entre o trem e a plataforma 

na esquina, enfim, da esquina


o monstro, encontrado no fundo dos olhos, no olho d'água de um espelho

é muito mais assustador

muito mais difícil de amar


mas como não sentir carinho pelo monstro que percebemos

nos dedos que escavam nossas têmporas

na boca que toma com muita pressa a bebida quente

ou gelada demais


é preciso amar o monstro

(da forma oblíqua

na esquina, veja bem, da esquina)

para que ele não nos consuma

sexta-feira, 17 de junho de 2022

quinta-feira, 21 de abril de 2022

sonetralhadora #6

mas veja que cristão este país:
a todo criminoso, um indulto
pode ser salafrário, ou inculto
pode enfrentar o mais cruel juiz

no fim, há de se salvar por um triz
qualquer perpetrador de seu insulto
muito além da Justiça mora um vulto
pra salvar, na caneta, o infeliz*

*exceto, é claro, se o infeliz for pobre**
ou se, sei lá, fizer muita pergunta,
e não topar resposta atravessada.

**daí, mesmo ele não fazendo nada,
a Lei com todo seu vigor lhe cobra.
o crime? depois a Justiça inventa...