domingo, 4 de setembro de 2022

Frodo em Imladris

Viver pode muito bem ser que seja
a sensação de acordar de um sonho triste
para outro
Sentir no ombro a cicatriz da ferida de ontem
Sentir nas mãos o comichão da ferida de amanhã

Viver pode muito bem ser que seja possível apenas
na escolha de seguir marchando
de um sonho ruim para outro
da ferida de agora até a próxima

Não devemos nos espantar diante da ignorância
nem nos arrepender de não termos memorizado todos os mapas:

Os que conhecem o caminho
não seriam capazes de trilhá-lo


domingo, 3 de julho de 2022

não é preciso ir longe para encontrar o monstro:

ele está logo aí, mais que teu vizinho

um inquilino íntimo do teu peito

quem sabe é ele mesmo que lê

ele mesmo é quem escreve

 

tu reconheces o monstro nas passagens mais sutis

no ponto entre uma faixa e outra da curva

na esquina da esquina

 

espelhos são desnecessários, nesse sentido

 

querer encontrar o monstro com um espelho é um erro que cometem os inexperientes

sim, o monstro está neles

além da íris, a sugestão do monstro fica visível em quase todos

os reflexos de quase todas as pupilas

mesmo a das crianças

 

mas, mas!, que deselegante querer assim procurar o monstro

mais bonito é encontrá-lo no gesto suave

no virar do rosto

na mão que segura a faca com

um pouco mais de força do que é preciso

no passo que hesita no

vão entre o trem e a plataforma 

na esquina, enfim, da esquina


o monstro, encontrado no fundo dos olhos, no olho d'água de um espelho

é muito mais assustador

muito mais difícil de amar


mas como não sentir carinho pelo monstro que percebemos

nos dedos que escavam nossas têmporas

na boca que toma com muita pressa a bebida quente

ou gelada demais


é preciso amar o monstro

(da forma oblíqua

na esquina, veja bem, da esquina)

para que ele não nos consuma

sexta-feira, 17 de junho de 2022

quinta-feira, 21 de abril de 2022

sonetralhadora #6

mas veja que cristão este país:
a todo criminoso, um indulto
pode ser salafrário, ou inculto
pode enfrentar o mais cruel juiz

no fim, há de se salvar por um triz
qualquer perpetrador de seu insulto
muito além da Justiça mora um vulto
pra salvar, na caneta, o infeliz*

*exceto, é claro, se o infeliz for pobre**
ou se, sei lá, fizer muita pergunta,
e não topar resposta atravessada.

**daí, mesmo ele não fazendo nada,
a Lei com todo seu vigor lhe cobra.
o crime? depois a Justiça inventa... 

 

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Éowyn nos campos de Pelennor

um tom cristalino cavalga o vento e alcança 

nossos ouvidos e corações:

eu creio, meu irmãozinho, nessa promessa de um mundo novo:

um que surgirá não apesar dos pequeninos

nem por cima de seus cadáveres;

mas sim de seu trabalho e de sua canção.


a escuridão que ainda há não passa do pânico do velho mundo dos homens

que estrebucha ferido, 

podre, 

moribundo


mas olhe para suas mãos, irmãozinho, e olhe para meu rosto

já não somos homens

terça-feira, 2 de novembro de 2021

heptálogo para o dia de finados

1.

fazer, sim, sempre que possível

mas só fazer amorosamente

em cada guardanapo dobrado

em cada centímetro escavado

em cada palavra, em cada lavra

fazer sensível o amor que transborda


2.

nada vale a pena ser feito se não for amando

nada existe que não valha a pena ser amado

nada é, no fim, errado o suficiente para o amor


3.

se eu não tivesse o amor, não é que eu não seria nada

não

mais importante que isso: não valeria a pena

as pestes, a guerra, a fome, a morte, os lobos e os homens,

isso tudo seria demais para meu coração

que é pequeno como um passarinho, e se machuca tão fácil


4.

o amor não me protege de nenhuma dessas coisas

que pode um passarinho contra a guerra? 

contra a morte? 

contra os homens?

mas se eu amo, o que eu sangro é outra coisa

 

e as lacerações e feridas que me impõem 

as pestes, a fome, os lobos,

não me esvaziam mais de mim, pois o que transborda de mim

não é meu sangue, não é meu medo,

não é nada que seja meu: é o amor

 

escorre de mim como mel, 

limpa minhas feridas - mesmo que elas continuem doendo

o amor não faz nada parar de doer

é vão amar com esse objetivo

como é vão viver imaginando que não há nada que doa


5.

viver apesar da dor, viver porque dói

só pode amar genuinamente quem dói

por suas próprias feridas e pelas dos outros


6.

deixar-se machucar: não para o prazer dos sádicos

mas em solidariedade aos que estão machucados

dividir com eles o peso das feridas

trocar uma cicatriz por outra, pois

em dois corações uma cicatriz dói menos que em um só


7.

é um século cinzento e eu entendo

que as pessoas graves queiram vir torcer o nariz para um poema sobre o amor

(ainda mais um amorzinho assim tão pequeno,

e que escorre tão devagarinho)

você é o que? carolas? brega? escritora de autoajuda?

eu não posso fazer nada, terei que responder

às vezes disfarço, mas às vezes não

só posso escrever o que escorre de mim

e hoje é isso



sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Os habitantes do país da noite

Os habitantes do país da noite
de olhos amarelos e cansados
se arrastam por caminhos que não sei
nem a origem, menos o destino

E choram lágrimas por causas que
tampouco eu consigo compreender
são fontes generosas e constantes
seus olhos amarelos e cansados

Não abro mão de sua companhia
jamais! os habitantes do país
da noite são ainda minha mais
certeira fonte de misericórdia

Na missa já não peço ao Cordeiro
e muito menos a outras liturgias
que me concedam sua piedade

Não, é muito mais certa a que escorre
dos habitantes do país da noite
de olhos amarelos e cansados

Só pedem em troca de seu amor
que abra de mim também a minha noite
que seja generoso em minha fonte
que tenha também eu piedade deles
os habitantes do país da noite

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

lexicologia

 Não inventamos ainda uma linguagem suficiente para o tanto de amor de que precisamos. Recorremos, então, à metonímia: recolhemos aqui uma violência, ali um silogismo, para lá uma convenção, e essas coisas vão virando nosso vocabulário. 

Há quem recuse essa linguagem torta para o amor.

Há quem queira amar sempre apenas literalmente. 

Eu talvez esteja entre estes, mas não tenho certeza. Já tive, hoje não tenho mais. Não inventei ainda uma matemática suficiente para o número das minhas incertezas.