quarta-feira, 22 de setembro de 2021

não precisa se consternar, pequenina
diante da imensidão desse abismo escuro

Isso que te dói como se fosse um minúsculo corpo humano é, na verdade

o elo de uma corrente inquebrável
a palavra encantada de um feitiço
o fóton de um rastro luminoso

que se estende infinitamente de desde o início dos tempos

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Faria na Fortaleza de If

eu nunca soube ler o coração das pedras;
você sabe muito bem, conhece
muitos dos subsolos em que já me perdi
e há muitos ainda a respeito dos quais nunca lhe falei;

nunca soube

sempre pretendi, isso sim,
saber ler o coração dos seres humanos
como se fossem livros abertos
(também os livros sempre pretendi
saber ler muito bem,
mas isso não vem ao caso)

por isso me ferem estes dias em que
os corações se embaralham, minhas vistas se embaçam
e é difícil saber onde termina o humano
e onde começa a pedra


sábado, 18 de setembro de 2021

por ocasião do centenário de Paulo Freire

propagam: este é um mundo de vileza
mas isso é o natural da vida
o desamor é a regra sem saída
a humanidade está num ciclo presa.

respondes: não! não é da natureza
humana (ou divina!) que se forma
a aberração, travestida de norma,
que nega ao mundo sua boniteza;

há que se ler o mundo até o tutano,
sem ser bancariamente conformado;
e ler o mundo junto a toda gente!

pra constatar que o que há de mais humano
é perceber no mundo o inacabado
e ainda assim amar profundamente

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

o polido é guardar cada uma das paixões em uma pequena caixa, uma já usada, feita de tábuas velhas, de preferência um tanto suja de areia e lama; depois, pincelar a caixa com gordura, ou óleo, ou vaselina, ou o lubrificante que se tiver à mão; abrir um caminho através do umbigo até logo abaixo ou logo acima do estômago, onde ficar menos cômodo, e colocar a caixa lá dentro. 

suportar então, em silêncio, os arranhões e as fisgadas, a aspereza, a lubrificância se esvaindo e as consequentes úlceras.

silenciosamente, educadamente, graciosamente.

vem um dia um mergulhador incauto; nos mata; nos abre a barriga; de dentro de nós retira a pérola.

domingo, 12 de setembro de 2021

Um embrião

Você pode querer esculpir na minha testa

Palavras sagradas

ou nomes profanos


Você pode fazer escorrer a tinta e o sangue

Até que meus olhos não possam ver mais nada,

minhas narinas não consigam mais inspirar o sopro da vida,

e de minha boca só saiam gurgulhos ininteligíveis


Ainda assim, continuarei em marcha

O nome santo da Verdade está gravado em mim

em camadas mais profundas.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Liturgia

Não posso prometer aos que me peregrinam

estradas secas, caminhos planos

Mas brotam às margens das minhas trilhas

muitas fontes cristalinas

(todas elas sagradas)


Não há templo suficiente para

a religião que escorre de mim

A única liturgia possível é a da água

que entra e sai da terra

que escava a terra

que dela escapa

que sublima e chove

 

Sou incapaz de gestar pelo tempo certo

os rios que há em meus subterrâneos

(mesmo os que gerei com mais cuidado)

Sob qualquer chuvisco

transbordo

domingo, 8 de agosto de 2021

3. Aidaque e as Ilhas do Sono

 3.

Por sobre o domo erguia-se, dessa forma, pouco a pouco, uma rede de faróis que irradiava da Cidade de Vidro, nas praias do fim do mundo. Com o passar do tempo, as filhas do Jaguar, que se tornaram depois as Pequenas Deusas da Morte, desenvolveram sua navegação e sua arquitetura, de forma que hoje, ao olharmos para cima no céu noturno, ele está todo salpicado de seus faróis. Naqueles tempos, porém, do início do mundo, as estrelas iam se acendendo pouco a pouco.

Uancámina tinha o que precisava: com a desculpa de testar o brilho e o alcance dos novos faróis que suas irmãs erguiam, levava sua frota de barcos de vidro a pontos cada vez mais distantes da Cidade de sua mãe, o Jaguar. Conforme se aproximava da Ilha brilhante, porém, se tornava mais poderosa a luz que irradiava dela, e as estrelas só ficavam visíveis durante o que chamaram de noite, que era quando as ondas do Mar de Nada escondiam o brilho da Ilha atrás de si. Uancámina teve que inventar assim de se orientar pelo brilho e movimento da Ilha durante o dia, e pelo brilho e posição dos faróis de suas irmãs apenas durante a noite.

Logo mais e mais das filhas do Jaguar estavam empolgadas pela empreitada. A fera divina viu, assim, sua Cidade de Vidro cada vez mais esvaziada; as filhas que não queriam passar o tempo todo no Mar de Nada, manobrando seus barcos de vidro, ficavam por sobre o domo, andando de um lado para o outro construindo estrelas para suas irmãs se guiarem lá de baixo. O Jaguar era uma mãe paciente, e não queria impor nova interdição a suas filhas, mas Incálima, a Senhora da Cidade de Vidro, não iria tolerar o sofrimento de sua mãe em silêncio – mesmo que ela também ansiasse por saltar num barco de vidro e navegar até o centro brilhante do Mar de Nada. Assim, às irmãs que retornavam à Cidade de Vidro para abastecer-se de mantimentos para continuar navegando pela noite ou construindo estrelas, Incálima impunha diversas tarefas e trabalhos que as prendiam à Cidade de Vidro. A umas ordenava que desmanchassem uma torre de vidro, a outras que reerguessem a mesma torre, no mesmo lugar, agora dois andares mais alta; e pouco a pouco a Cidade de Vidro voltou a se encher de atividade, e da voz das Pequenas Deusas, todas agora muito exaustas e cheias de trabalhos circulares para que pudessem se preocupar em sair por aí cintilando o céu ou costurando o mar.

Por esta época, Uancámina comandava sua expedição mais ousada até então: da última vez que estivera na Cidade de Vidro pudera conversar com algumas das suas irmãs que trabalhavam nos faróis por sobre o domo. Com a ajuda das imensas lentes de vidro que inventaram, elas eram capazes de enxergar as coisas que havia abaixo, flutuando no Mar de Nada. E uma das coisas que observaram era essa: que ilhas gêmeas giravam lentamente pelo Mar, flutuando cada vez mais para perto da Cidade de Vidro. Se fosse equipada com mantimentos suficientes, e se soubesse se orientar pelos ângulos certos em relação aos faróis que brilhavam à direita da Cidade de Vidro, Uancámina seria então capaz de alcançar essas imensas ilhas, e pela primeira vez pisar em algo que não fosse o vidro de um barco, o vazio de um domo impossível, ou a areia prateada das praias do fim do mundo.

Enquanto Incálima ordenava o desmanche e a reconstrução de torres e pavimentos, Uancámina se aproximava, embalada por uma brisa solar suave, das praias da maior das duas ilhas gêmeas. O ancoradouro que encontrou, na verdade, foi uma pequena enseada no canal de Nada que separava as duas ilhas. Era uma ilha estranha, de cor crepuscular, e tudo parecia feito de pedra. O primeiro barco que se encostou à praia de cascalhos ficou cheio de rachaduras, e Uancámina sinalizou para que as outras naves, que vinham atrás, permanecessem afastadas.

Quando pisou o chão daquela praia, era tudo mais duro. O ar da ilha era mais pesado, e Uancámina se dava conta de cada pedra em que seus pés feitos de sombra tocavam. Não se feria, mas as sensações pareciam fortes demais para seus sentidos acostumados ao Nada de que era feito o Mar, as estrelas e a Cidade de Vidro. Suas irmãs diziam: venha, irmã. Volte ao barco, e vamos voltar ao Mar, que é mais agradável que essa ilha de pedras duras e cores opacas.

Não, ela respondeu. Se vamos navegar até a Ilha Brilhante, no centro do Mar de Nada, será preciso construir outras cidades de vidro e outros portos para nos refazermos ao longo do caminho. Não podemos saber se serão agradáveis como as praias de que viemos, ou se serão duras como estas, ou ainda piores. Preciso aprender a existir entre as pedras. Fiquem no barco, sim, e afastem-no da praia para que não se rache mais nestes seixos. Mas me deixem aqui pela noite. Vejam o horizonte: a Ilha Brilhante desaparece agora por detrás das ondas do Mar de Nada. Quando ela surgir novamente pela manhã, venham me buscar.

Suas irmãs queriam protestar, mas sabiam que era inútil tentar convencer Uancámina quando já estava decidida de alguma coisa. Assim, afastaram-se à procura de um ponto da enseada onde a maré permitiria que seus barcos de vidro ficassem estacionados. Ao longe, podiam apenas ouvir um grito vindo de sua irmã. Uancámina se havia deitado sobre os rochedos, para acostumar o corpo à sensação da dureza. Depois do primeiro grito, controlara a voz, para não espantar as irmãs, mas a sensação ainda era opressiva. As pedras, como a realidade de que eram feita, faziam se sentir avassaladoramente pelos músculos, pele e tendões de Nada de Uancámina. Mesmo seus longos cabelos não eram barreira suficiente para aliviar a sensação nas costas e na nuca. Mas ela estava determinada a resistir: olhava fixamente para o céu, na esperança de ver rebrilharem os faróis de suas irmãs. Estaria alguma delas olhando agora, através de suas lentes imensas, para baixo, para as ilhas gêmeas? Seriam capazes de perceber a angústia no rosto de Uancámina? As gotas de suor que brotavam em sua testa e suas mãos?

Mas Uancámina não sentia sobre si os olhos de suas irmãs, nem vindos das estrelas nem dos barcos no meio da enseada. A verdade é que provavelmente muitas das Pequenas Deusas velavam por sua irmã naquele momento, tentando decifrar o que acontecia na praia escurecida pela noite; no entanto é difícil não se sentir sozinha quando as costas aprendem a sentir pela primeira vez o áspero de um chão de pedras, ou a pressa de um vento gelado.

Pouco a pouco, porém, Uancálima já não sentia a aspereza. Ela tentava não se mexer – talvez não fosse mesmo capaz, tão exaustos estavam seus sentidos – mas reparava a mudança na posição das estrelas sobre sua cabeça, conforme as ilhas giravam vagarosamente pelo Mar de Nada. Da forma como estavam dispostas, sabia que agora a Cidade de Vidro estava posicionada na direção para que seus pés apontavam, e essa sabedoria lhe trazia algum consolo. Sim. Não se deu conta de quando isso aconteceu, mas percebeu, quando a luz da Ilha Brilhante no meio do Mar de Nada atravessou suas pálpebras na manhã seguinte, que havia mesmo adormecido.

Apoiou o braço no chão para se levantar, e constatou que a sensação das pedras continuava terrível. Não é que suas costas se tivessem acostumado à sensação de dureza durante noite, mas uma cama de um musgo escuro e macio havia crescido por sob seu corpo sem que percebesse. Frustrada, Uancámina se pôs de pé, pisando ainda sobre o musgo – muito mais tolerável que os pedregulhos. Quando olhou em volta para se orientar, e para procurar o brilho dos barcos de vidro na enseada, percebeu a presença de ainda outra cama de musgo na praia, e sobre ela uma pessoa adormecida. Aproximou-se, se esforçando para não se deixar abater pelo duro das pedras nos pés, e pelo vento que ficava mais forte descendo das colinas pedregosas além da praia. Percebeu, com espanto, que não se tratava de uma de suas irmãs – era a primeira vez que encontrava em suas viagens não a vaga forma de uma criatura misteriosa no meio das ondas, mas um ser de constituição tão próxima da sua. Era impensável para ela, até agora, que houvesse no meio do Mar de Nada criaturas tão parecidas com suas irmãs, que não fossem elas mesmas também filhas do Jaguar.

Desperte, ela pediu.

A criatura abriu os olhos. Mas Uancálima não sabia se ela a havia compreendido.

Você insiste tanto assim que eu não durma?, a criatura respondeu, coçando sua barba, tirando seu cabelo desgrenhado do rosto. Na noite de ontem, seu grito terrível me despertou de um sono agradável, que já durava tantos dias! E depois ainda não parava de tremer, e respirar com o barulho de uma ventania. Se eu não tivesse te dado uma cama, estaria até agora fazendo uma algazarra no meio das pedras! Se eu te ajudei a dormir seu sono, por que você não me deixa dormir o meu?

Como você aprendeu a falar? Você já conheceu minha mãe, o Jaguar? Ele me ensinou a falar, mas não sabia que havia ensinado mais ninguém – mesmo que suas palavras soem um pouco estranhas.

Eu não sei nada sobre nenhum Jaguar! Ou talvez... talvez eu me lembre... Mas não é uma lembrança minha, e sim de alguma coisa que eu era antes, ou de que eu era só um pedaço. Só sei que despertei sabendo falar essa língua, e que uso ela quando meu irmão vem me incomodar em meu sono. E agora tenho que usá-la com outros visitantes também, pelo visto! Como se meu irmão já não me bastasse. Você também veio me pedir para navegar o mar escuro contigo? Se Qüenita, que é meu irmão, não me tirou meu amor pelo sono e pelos sonhos, não é você quem vai tirar.

Mas Aidaque, o deus sonolento, estava errado; pois desde que viu pela primeira vez Uancámina deitada por sobre os seixos, ou antes, desde que ouviu seu grito cortando a noite, estava condenado a não dormir nunca mais pacificamente como antes. Era o tempo em que os deuses iam despertando em suas ilhas; alguns por influência das Pequenas Deusas da Morte e de suas estrelas, alguns por causa do brilho da Ilha no centro do Mar de Nada, alguns só não conseguiam achar mais uma posição confortável para se deitar – uma maldição que transmitiram depois a muitos mortais.

Não, respondeu Uancámina. Não estou aqui para te despertar, nem para te levar. Preciso apenas de um porto para meus navios descansarem durante a travessia do Mar de Nada, que você chama de mar escuro. Mas suas praias são muito duras, todo o seu mundo é duro e real, até o ar. Não sei se vou sequer conseguir construir meu porto aqui, mas se eu conseguir será na ilha pequena, então, para não incomodar seu sono.

Não!, redarguiu Aidaque. Você não precisa de um porto nem de navios! E minha ilha posso fazê-la mais agradável para você, se quiser.

Com um gesto lento de seu braço, Aidaque fez brotar um tapete do musgo escuro por sobre as pedras, para proteger os pés de Uancálima de pisar em tanta dureza. Ela sorriu em agradecimento.

Você é gentil, estranho da ilha. Mas na Cidade de minha mãe, o Jaguar, é tudo feito do cristal mais delicado e irreal, e a areia que cobre o chão dos caminhos é insólita como os pensamentos. Todas as construções são feitas cuidadosamente, para abrigar a população imensa de filhas que minha mãe, o Jaguar, gerou. Se fosse conforto e companhia aquilo que busco, eu não teria precisado lançar meus barcos de vidro ao Mar imenso de Nada que nos cerca.

Uancámina virou as costas para Aidaque, então, e se voltou para o Mar, de onde chegava à praia um barco como ela nunca tinha visto. Era uma canoa, menor que os barcos de vidro que ela e suas irmãs faziam, mas escura, quase tanto quanto o mar, feita de madeira. Duas das Pequenas Deusas que acompanhavam Uancámina em sua viagem, Órina e Audólima, vinham sentadas sobre ela, visivelmente desconfortáveis. Na popa, manejando um grande remo, vinha o outro deus das ilhas gêmeas, Qüenita.

Ele era mais magro que seu irmão, mais franzino, mas ao mesmo tempo mais energético. Ao invés de Aidaque, Qüenita se apressara ao despertar dos deuses, tendo se enamorado do brilho da Ilha do centro do Mar de Nada desde que ele surgira pela primeira vez no horizonte. Como o irmão, aprendera a cultivar sua ilha; mas ao invés de criar tapetes e camas confortáveis para si mesmo, inventou árvores de que pudesse construir uma canoa, para atravessar o mar. Em suas tentativas infrutíferas de enfrentar a corrente com sua pequena embarcação, mais de uma vez encalhara na ilha de seu irmão gêmeo, cuja companhia sempre solicitava em vão. Aidaque ainda sentia o sono dos deuses, e não ia desperdiçá-lo em um projeto que parecia inútil, por bonito que fosse o brilho distante da Ilha solar.

Naquela manhã, porém, preparando-se para seus exercícios diários de navegação ao redor das ilhas, Qüenita percebera incrédulo o faiscar dos barcos de vidro no canal entre a sua ilha e a do irmão. Aproximara-se cauteloso daquelas formas elegantes, tão maiores que sua pequena canoa, mas também tão mais frágeis – como percebera pelas rachaduras em um dos barcos.

As Pequenas Deusas da Morte, que naquele momento perguntavam-se como fariam para ir buscar sua irmã Uancámina sem causar mais estragos em seu navio, ficaram igualmente espantadas ao ver o deus aproximando-se por sobre o mar. Deixaram-no subir a bordo de suas embarcações, porém, passado o espanto. Ele ansiava por saber de sua viagem, e queria saber quão longe tinham conseguido viajar pelo Mar, e como funcionavam suas velas, e como faziam para se orientar em seus caminhos. Audólima, porém, preocupada que estava com sua irmã sozinha na praia, concordou em lhe contar tudo o que pedisse, desde que antes ele as levasse para encontrar Uancámina.

Assim ele as transportou até a praia. Ao chegar lá, como prometido, as Pequenas Deusas contaram a ele e seu irmão sobre suas viagens, sobre o Mar, e sobre os faróis que haviam construído por sobre o Domo, as estrelas, que as guiavam de volta para a Cidade de Vidro. Qüenita suplicou que elas as levassem com ele, para que pudesse ele também conhecer o Mar aberto e a Cidade de Vidro. Aidaque suplicou a Uancámina que ficasse, pois ele prepararia para ela uma cidade como a de sua mãe, o Jaguar, onde ela poderia ter seu porto e descansar de suas viagens. Mas Uancámina só soube dizer, novamente, que ele era um estranho gentil.

Um estranho não! Aidaque é meu nome. Você dormiu na minha ilha, na cama que fiz brotar para você, então já não somos estranhos.

E é por isso que as Pequenas Deusas da Morte chamam as ilhas gêmeas de Airunê Ualuta, as Ilhas do Sono.

Aidaque permaneceu em sua ilha, mas Qüenita, ao transportar de volta as irmãs para seus barcos de vidro, conseguiu convencer Uancámina a levá-lo com elas para a Cidade de Vidro, onde ela esperava juntar mais de suas irmãs e material suficiente para construir seu porto nas Ilhas do Sono. A seu irmão Aidaque, Qüenita prometeu que estaria de volta quando a terceira estrela mais brilhante – ainda haviam poucas nessa época, era fácil fazer esse tipo de contagem – estivesse aparecendo no meio da noite por sobre o cume em que Aidaque tinha sua caverna favorita. Aidaque disse que não se apressasse, que ia ser bom poder ficar sozinho para dormir seus sonos divinos.

Ele permaneceu em sua ilha, a maior das Ilhas do Sono, mas seu sono já não vinha como antes. Por mais que fizesse brotar musgos delicados e frescos, e erguesse cavernas para se esconder do brilho solar da Ilha no meio do Mar de Nada, não conseguia mais que dormir algumas horas durante a noite, quando já estava escuro. Sentia saudades de seu irmão, e gostaria tanto que ele atracasse afobado sua canoa nos cascalhos, como fizera tantas vezes antes. E sentia saudades de Uancámina, e ansiava novamente por sua companhia, tão breve, mas tão delicada.

Precisava erguer para ela uma cidade, para que ela pudesse ficar mais tempo com ele quando voltasse. Mas Aidaque só sabia construir leitos e cavernas. Não sabia nada sobre o que fazia uma cidade, além de ser cheia de pessoas e prédios, conforme relatara Uancámina. Farei primeiro as pessoas, resolveu Aidaque, e elas depois hão de me ajudar a construir os prédios da forma certa.

Assim, o deus esculpiu das pedras de sua Ilha os primeiros mortais – ainda que a morte não houvesse ainda sido inventada. Ele não era um escultor muito habilidoso nem muito criativo, mas evocava em sua mente a imagem de Uancámina, Qüenita, e mesmo de Audólima e Órina, para inventar as formas de suas criaturas. Assim que uma ficava com os olhos fundos de seu irmão, mas as orelhas de Órina; ou com a estatura de Uancámina, mas o porte largo e forte de Audólima. Uma a uma esculpia, modelava e polia a pedra, e quando teve um número que considerou suficiente de criaturas à sua disposição, esperou o raiar da Ilha Brilhante para despertá-las, para que elas também sentissem vontade de acordar com seu brilho solar pela manhã.

Antes que pudesse fazê-las construir a cidade que queria para Uancámina, percebeu que teria que alimentá-las, e protegê-las do frio, e ensiná-las a falar. A elas não bastava o musgo, e ele teve que inventar plantas maiores, como as da ilha de seu irmão, e animais pequenos e grandes para polinizá-las, ou para servir de alimento a seus novos companheiros. Não foram muitas as coisas que Aidaque inventou para habitar sua Ilha, pois ela não era grande como outras que havia espalhadas pelo imenso Mar de Nada. Mas foi o suficiente para que as criaturas que havia esculpido pudessem comer e se alimentar, e breve construir uma cidade para Uancámina.

Agora, porém, o prazer de Aidaque não residia mais na cidade que viria, e na companhia futura de Uancámina. Ele se alegrava em compartilhar sua existência com os mortais, ensinar e aprender palavras novas com eles, e mal percebeu quando o prazo para o retorno de Uancámina e Qüenita se aproximou, chegou e passou. A terceira estrela mais brilhante já piscava por sobre as suaves colinas da ilha de seu irmão quando ele finalmente começou a se preocupar.

Mas Qüenita era agora prisioneiro de Incálima na Cidade de Vidro, e Uancámina e suas irmãs estavam impedidas de lançar seus navios de vidro ao Mar de Nada novamente. 

terça-feira, 27 de julho de 2021

2.: Uancámina e o Mar

 

Da Cidade de Vidro nas praias prateadas do Mar de Nada, o Jaguar e suas filhas, as Pequenas Deusas da Morte, podiam ver as Ilhas todas. Eles não sabiam, ainda, que as Ilhas eram feitas da poeira que havia se desmanchado do corpo da Estrela. Mas a mais central de todas as Ilhas, ao redor da qual todas as demais flutuavam, brilhava um brilho intenso. Era pálido, dizia o Jaguar, se comparado à beleza do brilho da Estrela, e a maioria de suas filhas acreditavam.

Pálido ou não, era um brilho. Tinham a esperança de que a Estrela houvesse sobrevivido, e lá estivesse combalida, se recuperando naquela Ilha distante no meio do Mar de Nada. Mas o Jaguar não conseguia entrar nas águas de Nada do Mar para nadar até ela. A força repelente, que o havia arrastado e ferido violentamente para até as areias da praia do Mar de Nada, ainda operava de alguma forma, formando um domo imenso por sobre o Mar e as Ilhas, impedindo o Jaguar de atravessar as fronteiras prateadas do fim do mundo. Suas filhas, porque havia nelas algo da Estrela, podiam escolher, porém: quando queriam, eram capazes de escalar pelo domo como se fosse um objeto sólido intransponível; se tinham vontade, no entanto, sabiam perfeitamente atravessá-lo, e entrar nas águas do Mar de Nada.

Foi por isso que o Jaguar encarregou suas filhas de irem até o centro do Mar de nada, para a Ilha luminosa, onde havia de estar sua amiga. Elas já sabiam suficientemente bem sua língua, ainda que tivessem inventado palavras e tempos novos, com os quais ele não concordava muito; mas teria de bastar. Elas eram tão densas quanto o Mar, feitas que eram também de nada, então tiveram que inventar os barcos para poder atravessá-lo. Construíram grandes canoas de vidro, feito da areia da praia, e remos do mesmo material. Mas a travessia do Mar de Nada era traiçoeira, e as filhas do Jaguar estavam ainda inventando a navegação. As primeiras expedições extraviaram-se, incapazes de lidar com as imensas ondas e o vento solar. Perderam-se em pontos remotos da praia do fim do mundo, só retornando muito tempo depois à Cidade de Vidro, ou desapareceram sem vestígio algum.

Uma sombra se apoderou do coração do Jaguar, que amava a Estrela e queria de todo modo revê-la, mas que amava também suas filhas e não queria que mais nenhuma desaparecesse pelo Mar. Ordenou que cancelassem suas expedições e aventuras, e que ficassem com ele na Cidade de Vidro, ouvindo sobre a Estrela e esperando que ela, algum dia, viesse ela mesma até eles, de sua Ilha brilhante no centro do Mar de Nada.

Mas também as Pequenas Deusas da Morte tinham seus amores: amavam o Jaguar, sua mãe, e agora amavam o cintilar dos ventos solares em seus barcos de vidro, e os desafios da navegação, e as criaturas sombrias que viam emergir no meio das ilhotas cinzentas ou das ondas negras de Nada. Uancámina, que os mortais aprenderam depois a chamar de Pancamira, era a capitã de uma das expedições que se havia perdido, mas que regressara à Cidade de Vidro navegando pelas costas da praia prateada, usando o brilho da areia como referência para suas manobras. Quando soube da interdição do Jaguar, resolveu contrariar sua mãe: para curá-lo do peso em seu coração, mas principalmente para poder lançar novamente seus navios ao Mar.

Tinha para isso um plano: em primeiro lugar, precisava ser capaz de perceber a distância que estava da Cidade de Vidro caso se perdesse novamente. Convenceu sua mãe, o Jaguar, da importância de construir uma imensa torre na cidade, um farol, para que a Estrela percebesse seu brilho e pudesse chegar até elas mais facilmente, dizia. Com espelhos e fios da juba do Jaguar, que tinha cor de relâmpago, fizeram uma lâmpada que puseram no alto de sua torre. Uancámina convenceu sua mãe a deixá-la sair com os navios de novo, para que pudesse medir o alcance da luz do farol, sob a condição de levar consigo Incálima, a senhora da Cidade de Vidro e filha mais obediente do Jaguar, para garantir que retornariam assim que sua estimativa estivesse feita.

Mas a precaução era desnecessária: Uancámina sabia que a luz do farol da Cidade de Vidro não seria suficiente para chegar até a Ilha brilhante no centro do Mar de Nada, e não seria suficiente sequer, talvez, para chegar às ilhas que flutuavam mais próximas da praia no fim do mundo. Isto, porém, também estava previsto em seu plano. Ao voltarem à cidade de vidro, a própria Incálima testemunhou a favor da irmã, de que a luz do farol ainda era insuficiente.

Não só isso, disse Uancámina, é insuficiente como permanecerá escondida pelas próprias ondas do Mar de Nada. Assim como as ondas escondem a Ilha brilhante de nossa vista por metade do dia, também elas nos esconderão das vistas da Cidade de Vidro conforme nos afastamos, mesmo que construamos uma lanterna dez vezes mais poderosa.

Me parece, minha filha – o Jaguar conhecia todas as suas filhas profundamente, mas parecia divertido com sua descoberta – me parece que você já sabia desta limitação desde antes, tendo se perdido com sua frota para tão longe da Cidade de Vidro. Por que fazer suas irmãs laborar tanto tempo então, com a construção de um farol inútil?

Não é inútil, minha mãe! Sabemos agora o quão perto temos que trazer sua amiga, a Estrela, para que queira nos visitar. Precisamos agora construir outros faróis, cuja luz seja mais fácil de ser capturada por seus olhos de Estrela. Faróis que a tragam cada vez mais perto, cada vez mais, até que possa ver a luz que brilha da Cidade de Vidro, para que venha a nosso encontro!

Incálima adivinhava o pensamento da mãe: mas minha irmã, as ondas do mar continuarão ondejando não importa em que ponto das praias construamos outros faróis!

Não os construiremos nas praias.

Assim Uancámina ensinou a sua mãe e suas irmãs o seu plano: usariam de seu poder de filhas do Jaguar para subir pelo domo que separava o mundo de sua mãe como se fosse sólido. Misturariam à argamassa gotas da saliva do Jaguar, para que ela também fosse interditada de atravessar o domo. E construiriam no alto do domo uma rede de torres e faróis, todos brilhantes, que pudessem conduzir o olhar da Estrela em sua ilha distante até o ponto certo das praias do fim do mundo. Foi desta forma que Uancámina inventou o que os mortais depois chamaram de estrelas, que serviram mesmo de morada para muitos deles depois que a morte foi inventada.

             Mas no fundo de seu coração, Uancámina não tentava nem inventar moradas para almas nem convites para a Estrela. O que ela fazia era criar uma rede brilhante com a qual pudesse orientar as manobras de seus navios, assim como o brilho da areia prateada a havia orientado no passado.