quinta-feira, 16 de julho de 2020

 Onde você está garoto?
Olha para as paredes como se olha
 Horizontes
Onde está você garoto?
 Que eu não te vejo por aí
 Por onde anda e pisa 
 Para onde vão
suas palavras?
 De onde elas vem,
garoto?

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Dantès na Fortaleza de If II

(para o Zuni)

cole seu ouvido na parede, Edmundo
sou eu quem você escuta do outro lado
raspando a argamassa como se fosse um rato faminto

mesmo depois de todos esses anos, você continua um homem bonito
eu que nem posso te ver ainda, preso que também estou em minha cela
mas intuo que seus cabelos e sua barba agora sejam mais selvagens
e que seus olhos estejam fundos - como um lorde Ruthven, dirão um dia

não ouça o chamado da morte, Edmundo
escute a minha colher improvisada raspando a pedra
é uma voz menos doce, mas de promessas mais palpáveis
coma um pouco do seu pão, tome um pouco da sua sopa

nossos carcereiros não percebem
(isto foi vedado a eles)
mas nós somos seres humanos
estamos vivos
estamos sãos

escute como eu esmigalho diligentemente o calcário que nos cerca
é essa a essência de nossa profissão, e você bem sabe disso
uma a uma esmigalhar as pedras, botar o pó de lado
escondê-lo em nossa cela, arremessá-lo pela janela quando não há guardas vigiando
criar esses túneis apertados
pelos quais os seres humanos consigamos nos arrastar

quando eu comecei isso tudo, Edmundo, para mim só havia um propósito no escavar:
escapar da fortaleza de if, enfrentar, com os dentes e os punhos nus, se fosse preciso
Deus e o mar que ele inventou
e os homens que inventaram deus e o estado e as carabinas,
encontrar meu tesouro escondido nas cavernas de uma ilha perdida no meio do mar
e viver como um deus entre os homens, senhor de meus próprios homens e deuses e carabinas

mas agora, Edmundo, eu sei
que o que move meus braços a continuar escavando é o batimento de seu coração
enfraquecendo pouco a pouco na cela ao lado
sua respiração cada vez mais difícil e mais leve

coma seu pão e tome sua sopa, por favor
não tire de mim este farol

fugir sozinho de If é como tornar-nos nós mesmos em carcereiros
não seríamos mais capazes de reconhecer um ser humano
mesmo que estivesse sangrando em nossos braços

permanecer em If é como reconhecermos que os carcereiros têm razão
mas como pode haver razão em olhos
incapazes de reconhecer um ser humano
mesmo que esteja sangrando diante de si?

minha religião é escavar a argamassa e o pó todas as noites
enquanto não há carcereiros e carabinas fazendo seu barulho
pelo chão duro e úmido da fortaleza

meu Deus mora nas celas minhas vizinhas
ele agoniza com o peso das botinas dos guardas
e com a comida podre e o pão embolorado

minha teologia é relembrar a Deus de sua humanidade
encontrá-lo e repartir o que tenho
mesmo que seja pouco


coma seu pão, tome sua sopa.
a pedra ao lado de sua cama começa a deslocar-se
o pó da argamassa escorre ao seu redor
eu te amo
e breve estaremos juntos.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Como ler um texto acadêmico

(para Fernanda K.)

Caros alunos!

Haja vista que vocês estão entrando agora em seu primeiro ano na Universidade,
haja vista as graves circunstâncias, que nos impedem de prover-lhes com o apoio de que precisam,
haja vista as especificidades da construção de textos acadêmicos, sua estrutura, convenções e desenvolvimentos - para as quais nosso sistema básico de ensino, infelizmente, não é capaz de prepará-los,

escrevi para auxiliá-los neste seu primeiro semestre um guia que, espero, possa ser útil durante todo o correr de sua graduação. (Ao chegarem à pós, e talvez mesmo à iniciação científica, ou ao trabalho final de curso, vocês perceberão que este guia é, na verdade, incompleto, e só permite uma apreensão parcial do que se lê. Ainda assim, deve servir bem para que deem seus primeiros passos no fascinante universo do conhecimento superior.)

Para adquirir o mínimo de compreensão sobre um texto acadêmico, conforme vocês perceberão, é preciso lê-lo várias vezes.

A primeira leitura é mais simples e superficial: ponha ao seu lado dois ou três dicionários de sua confiança; um copo de água; procure as palavras desconhecidas que for encontrando no texto. Se o contexto e os dicionários não ajudarem, procure frases de referência na internet. Anote bilhetinhos amarelos com as palavras encontradas, e cole os bilhetes ao lado das palavras desconhecidas para referência mais rápida.

Na segunda leitura, já ciente do universo vocabular do texto, é preciso traçar um mapeamento teórico. Deixe uma aba aberta em seu navegador com a plataforma Lattes; outro copo de água, talvez um suco de laranja; verifique cada citação;  arranje pedaços de papel um pouco maiores que os da primeira leitura, e copie neles um breve currículo de cada um dos autores citados - nada muito extravagante: seu nome, universidade de formação, principais trabalhos, conceitos mais importantes, posicionamento em relação ao autor do texto sendo lido no momento e talvez uma pequena foto. Nós temos cérebros muito visuais, é mais fácil fazer a ligação entre autores e suas ideias se temos uma foto como intermediária. Quem consegue olhar para uma foto do Freud sem pensar em charutos e nos próprios pais?

Na terceira leitura, entramos no universo conceitual do próprio texto de forma mais profunda: se você estiver lendo alguém que tenha trabalhos anteriores, é preciso deixar abertos ao seu redor todos os trabalhos daquela pessoa; caso ela ainda não tenha trabalhos anteriores, os de seu orientador; talvez uma taça de vinho, ou uma dose moderada de aguardente; se os trabalhos anteriores estiverem disponíveis apenas digitalmente, imprima-os - nosso cérebro humano é muito tátil, e é mais fácil transitar entre os diferentes textos se estiverem em sua forma física diante de si. Grife no texto todas as palavras que indicarem um conceito. Retorne aos trabalhos anteriores do autor, ou de seu orientador, e refaça  para eles as etapas de leitura um e dois. Tome uma folha de sulfite para cada um dos conceitos encontrados e registre a primeira vez em que aparecem nos trabalhos daquele autor, ou de seu orientador; e anote as vezes subsequentes em que aparecem, e quais são as variações significacionais perceptíveis. Costure com uma linha vermelha essas folhas de sulfite às páginas do texto sendo lido. Caso o conceito apareça mais de uma vez no texto, para referência mais simples, faça cópias do sulfite sobre aquele conceito e costure-o em todas as páginas necessárias.

Na quarta leitura, temos que encontrar os revéses do texto - o dito pelo não dito, a ironia, o que o autor procura esconder através da própria mensagem. Você vai precisar de um grampeador, uma tesoura e um espelho; os dicionários que você pegou mais cedo podem vir a calhar; um refrigerante de cola e talvez duas pílulas de cafeína; leia o texto de trás para frente - primeiro frase por frase, depois palavra por palavra, depois letra por letra. Use a tesoura e o espelho para essa reordenação pode deixar as coisas mais fáceis, no começo. A seguir, com auxílio dos dicionários, faça a leitura antônima do texto: procure o oposto de cada conceito, de cada adjetivo e, se for o caso, mesmo dos artigos. Volte aos bilhetes biográficos e encontre o nome dos inimigos mortais de cada um dos autores citados, e anexe uma biografia deles ao verso de seus nêmesis. Então faça a leitura reversa e a leitura antônima de cada um dos trabalhos anteriores do autor sendo estudado, para garantir o conhecimento da involução de seus anti-conceitos. Com mais ou menos duas ou três cartolinas por página, é possível fazer um mapa conceitual de cada uma dessas contra e anti-leituras. Use o grampeador para anexar as duplas ou trios de cartolinas a cada página do trabalho original, para a referência ficar mais fácil. Um marca-texto também pode ser útil, nessas horas, para indicar em cada cartolina a relação e a anti-relação entre as ideias presentes nela e as presentes no texto estudado.

Na quinta leitura, é preciso reconhecer o processo de internalização conceitual operado pela leitura. Deixe a tesoura onde está, e pegue mais uns dois ou três copos de refrigerante de cola, ou uma garrafa de vinho nova, dependendo de qual ajudar mais sua digestão; chá verde bem quente ou uma limonada também são bem vindos. Coma o texto. Apenas o original, veja bem! Desgrude dele os bilhetinhos, as notas biográficas e anti-biográficas e as fotos, descosture as etimologias conceituais e desgrampeie as cartolinas com as contra-leiruras. Coma o texto. Veja bem se não deixou sobrar algum grampo para não engasgar. Mastigue apenas o mínimo necessário, para que as ideias do texto não se diluam. Mas seja generoso com a bebida, para ajudar a digestão. A seguir, coma seus bilhetes e suas notas, suas etimologias e as cartolinas. Elas são parte de você, então mastigue com calma. Perceba a diferença entre as texturas. Perceba como o que vem de você mesmo desce mais fácil. Mas tome cuidado para não engolir nenhum grampo que tenha ficado preso entre as cartolinas. Se engolir um pouco da linha vermelha, o prejuízo não é tanto.

Na sexta leitura, você tem condições enfim de perceber que você é o texto. O texto só se realiza em você, leitor, e não há nada como a sensação dos sucos gástricos derretendo a celulose em seu estômago para se dar conta dessa unidade. Você é o texto. O autor está morto.

Na sétima leitura, é preciso garantir que o autor esteja morto. Reabra a página do currículo Lattes, caso a tenha fechado ao cabo da quarta leitura; uma pílula digestiva e outro copo de água; algumas velas, e uma faca afiada - preferencialmente obsidiana. Acenda uma vela, e faça uma oração à sua divindade favorita, com os olhos voltados na direção de Alexandria. Pense na biblioteca em chamas. Se for ateu, cante o hino nacional e dê três pulinhos. Consulte no Lattes a universidade onde o autor está instalado. Adquira bilhetes de ida e volta, de preferência com tempo de sobra para chegar a  nosso encontro virtual de cada noite. Viaje até a universidade, solicite um crachá e diga que está fazendo uma leitura profunda da obra do professor estudado. Caso ele não esteja, descubra seu paradeiro e dirija-se até ele o quanto antes. É conveniente fazer isso a céu aberto em uma noite de lua nova, sem nuvens e sem vento. Se não for possível garantir as condições climáticas ótimas, leve pelo menos um cobertor grosso, para garantir que haja pouca luz nos olhos do autor antes que você o esfaqueie. É a ausência de luz nos olhos que realmente garante a morte do autor, e a ausência de vento garante a morte do homem. Beba o copo de água.

A oitava leitura é reconhecer que seu esforço foi em vão. Quem é você para dizer que entendeu um texto? Você foi longe o suficiente? Você conhece de fato de dentro para fora o trabalho que supõe compreender? É preciso que você volte, e abra o cadáver do autor. Você precisa escarafunchar suas vísceras. Você sabe qual delas realmente importa comer, caso tenha feito a preparação adequada para a leitura. Mas quando você abrir o corpo do autor morto, você vai reparar que não há nada lá.

Idiota

Eu comi todas as vísceras de todos os autores deste programa. Eu guardo o crânio de cada um deles atrás da prateleira de livros que uso como fundo em minhas aulas à distância. O professor que você esfaqueou com sua faca - duvido muito que você tenha conseguido uma de obsidiana - é apenas a casca de um acadêmico. Ele vai voltar à "vida", e reassumir suas funções na universidade, como já fez em anos anteriores. Mas ele não é mais um autor; o autor está morto.

Não se sinta mal. Isso é uma parte natural de seu progresso acadêmico. Quantos autores eu e os demais professores de vocês já não esfaqueamos por aí, só para descobrir que chegamos tarde demais, e que já não havia sequer uma víscera útil a engolir? Há mesmo colegas no departamento que se conformaram a só roer ossos e comer tutano, e alguns de nossos professores mais ilustres já foram eles mesmos esfaqueados inúmeras vezes, e não passam da casca da casca da casca de um ser humano.

Eu gosto de acreditar que alguns de vocês terão a fibra moral e o rigor intelectual necessários para cumprir a risca minhas instruções de leitura, mas sei que é uma ilusão da minha parte. A geração de vocês não foi feita para a academia. O vestibular ficou fácil demais com as mudanças todas, e um número infinitesimal dos alunos que chegam à minha sala de aula tem as condições necessárias para cumprir com todas as etapas de uma leitura adequada (adequada, lembrem-se bem, a vocês que estão nos primeiros anos da graduação!).

Mas prossigo com minha esperança, apesar de tudo. Todos os semestres deixo no programa, para a aula final do curso, um texto de minha autoria. Todo semestre deixo minha faca de obsidiana afiada, pronto para os leitores que virão, para mostrá-los que nem todo autor está morto. Algum semestre desses, espero, algum aluno provará que estou errado.
 

 

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Bom dia

Quem sabe as noites não viram manhãs?
E as madrugadas durem o dia inteiro?
Até que o sol nasça
pela manhã de novo.

Quem sabe choque não se empoeire?
E a poeira cubra o mundo inteiro?
Até que o choque
em mim de novo.

Quem sabe o vento não leve as flores?
E o perfume fique nos homens todos?
Até que em nós floresça
um dia novo.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Eu tenho andado sem vontade de viver, meu bem
Mas que isso não seja motivo de alarde!

Eu tenho amado somente coisas abjetas

O repulsivo é a única coisa que me encanta durante a insônia
Só me dá alegria o que há de mais degradado
Somente por essas coisas eu ainda nutro algum carinho

Eu tenho andado sem vontade de viver, meu bem
Mas ainda quero amar tanto, tanto!
O sujo, o quebrado, o inútil, o inválido
O feio

Talvez seja alguma síndrome narcísica, meu amor
Eu vejo o que há de mais podre e de mais indigesto
E consigo me amar a mim mesmo
Que me apodreço a olhos vistos
Que nenhum sistema digestório que se preze deseja deglutir

Mas quero amar isso tudo tanto, tanto!
Mesmo estando sem vontade nenhuma de viver
A vontade de amar essas coisas todas persiste
Então eu vivo.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Shorashim

O meu vô quando eu era mais novo e eu ainda nunca tinha dado um banho nele e nem em ninguém além de mim mesmo
o meu vô ele me contava que meu bisavô, o seu Guilherme Witrique, o vô Willy, ele tinha uma bandeira do partido nazista escondida em um baú no quarto, junto com o rádio.
Era o governo Vargas e era a guerra e nem alemão nem japonês nem italiano podia
ter bandeira de nada e muito menos rádio em casa;
inclusive meu vô conta que o seu Guilherme ia às vezes na aeronáutica visitar uns alemães presos
mas isso é outra história;
inclusive meu vô conta que uma família de japoneses que era muito chegada deles
teve a casa invadida e saqueada e apanharam bastante
mas isso é outra história.

Mas eu lembro do meu avô contando essa história e depois me dando uma risada triste
E ele me dizia "já viu isso, filhinho? um pai nazista de um filho franciscano"
"franciscano da porta pra fora!" dizia a vovó,
mas isso é outra história;

Ele me dizia "já viu isso, filhinho? um pai nazista de um filho franciscano"
triste
Mas ele também dizia
"é que as coisas estavam difíceis na Alemanha depois da primeira guerra"
e dizia
"e o hitler era um homem que discursava muito bem, então ele convencia o povo"
e dizia
"ele tinha uma voz muito boa, inflamava as pessoas"
e dizia
"meu pai ouvia ele discursando no rádio e ficava todo emocionado"
 triste
"mas o melhor amigo dele era o Schmuziger, um judeu suíço que morava por aqui também"
 triste triste
"um pai nazista de um filho franciscano"
triste triste triste

Eu cada vez mais eu acho que meu vô mentia sobre o hitler
porque ele amava o pai dele
então ele tinha que acreditar que o vô Willy estava sob um feitiço poderoso
seduzido pela retórica de um mestre da manipulação
porque ele conhecia o vô Willy e ele sabia que não era possível
um homem doce e bom e generoso ter escondida no fundo do baú
a bandeira do partido nazista

Mas agora é o século XXI e eu consigo
meia dúzia de teclados e cliques eu vejo
um vídeo do hitler na internet e ele
falando é uma criança choramingando, que se acha mais importante do que é
e fica levantando e baixando a mão de um jeito idiota e a roupa dele
é a de quem não tinha dinheiro pra pagar um alfaiate pra fazer a medida
e ele anda como um pato

Pode ser que houvesse feitiço, mas estava em outro lugar,
não no hitler

Me desespera profundamente encontrar a fórmula dessa feitiçaria
eu preciso dela porque
pode ser, com a Graça de Deus, que sobrevivamos a mais isso tudo
e que a Fome, a Peste, a Guerra e a Morte deixem seus cavalos encostados
por mais ainda um par de séculos

E então eu vou ter meus netos e vou contar histórias pra eles
pra que eles conheçam suas raízes, mesmo o que há de triste nelas
mas ainda será o século XXI, talvez
e eles ainda conseguirão com meia dúzia de teclados e cliques ver os vídeos

Não sei de onde vou explicar tantos homens doces e bons e generosos
com bandeiras pestilentas no fundo de seus baús e na sacada de suas janelas


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Boromir às margens do Anduin

Como se chamará a próxima loucura que tomará de assalto o coração dos filhos dos homens?

Atrás de quais armas invisíveis nos espatifaremos, sujando-nos de sangue em ilhas desertas?

Ficamos tão mais fracos quanto mais nos aproximamos de casa e talvez não possamos, em nossos dias, sequer atribuir a culpa a forças escondidas na Terra das Sombras

Tudo está às claras.

Mas a linhagem dos homens segue definhando.

Quantos pecadores e proscritos se erguerão de sua própria lama para fazer frente aos devoradores de pequeninos?

De qual clarim encantado soará a nota cristalina que nos colocará em marcha novamente diante de tanto crepúsculo?






quarta-feira, 8 de maio de 2019

Dantès na Fortaleza de If


eu estendo minhas mãos, Edmond,
mas não te encontro
e o mundo segue nos atropelando
muito à nossa revelia

não há ilhas miraculosas no nosso século
nada do que eu possa dizer para te consolar
será tão certo quando é preciso
mesmo que eu acredite muito fielmente nessas coisas

mas o sol ainda vai brilhar de novo
nos seus cabelos molhados de mar e
não haverá gendarme ou leão ou alienista no mundo
que alcance seu iate de velas brancas
sumindo no horizonte em direção à aurora