Muito tempo em muito pouco,
Muita vida por nada
A pedra dos jesuítas, nem nenhum outro bezoar, nem o kevlar
Como pode haver antídoto?
Te dou de presente nesse dia triste
Uma cantiga de antes de eu nascer
Mas que eu só inventei ontem:
"Nos dias que a minha estrada
me leva sozinho
Não passo de passarinho
de asa quebrada
Nos dias que a minha estrada
me leva sozinho
Não passo de passarinho
de asa quebrada"
domingo, 12 de junho de 2016
terça-feira, 31 de maio de 2016
Plágio cortázariano sem talento
As notas que saíam do saxofone eram pura violência. No
palco, a banda de jazz parecia comedida, controlada, muito diferente da melodia
que fabricavam. Ao ouvir os primeiros acordes, ainda no bar, contíguo ao palco,
formando um L, ele sentiu o impulso de se afastar tanto quanto pudesse dali.
Mas a bebida era mais importante. Sem ela não iria suportar mais um minuto
naquele lugar. As sobrancelhas do homem de óculos se arquearam, escondendo-se
atrás da armação preta. Se perguntava por quê havia pedido um drink ao barman, e
se a sua montagem era tão complexa assim a ponto de justificar essa demora.
Deveria ter pensado nisso antes, pegado uma taça de champanhe, simplesmente.
Mas precisava de um teor alcoólico maior que aquele, disso estava certo. Quando
recebeu sua bebida, no que lhe pareceu séculos depois, partiu quase que
correndo do balcão. Era um movimento burro, como percebeu imediatamente; não
fazia ideia de para onde poderia ir e, ainda que soubesse, não poderia se
apressar tanto. Não porque sua afobação fosse chamar atenção das pessoas em
vestidos que pareciam feitos de lírio ou ternos qual o céu noturno, mas porque,
ainda que não lotada, a festa tinha gente o suficiente para lhe atrapalhar a
velocidade. Mas o saxofone continuava lhe martelar o cérebro, assim como a
alma, tinha que se afastar. A sensação de claustrofobia crescia. O homem de
óculos suava. Torrenciava. Não tinha problemas com a vestimenta formal, como
muitos, até se sentia bem com uma gravata bem enlaçada, mas por algum motivo
estava desconfortável naquela noite. Não em seu terno, mas em sua pele. Olhava
para todos, mas não reconhecia nenhum dos rostos. Tentava escutar as conversas,
mas era como se fossem travadas em idiomas que ele jamais havia conhecido.
Talvez esse realmente fosse o caso. Parecia estar numa bad trip, num estado de paranoia
ampliado. Tomou de um gole metade do conteúdo de seu copo, como desejando que o
álcool lhe subisse rápido à cabeça. O líquido desceu goela abaixo amargando mais
que a vida. Partiu em direção à escada, pensando que no andar superior o jazz
não o encontraria com tanta força. Esperava que algo acontecesse, podia
pressentir a aproximação, sem saber de que. O piso superior não lhe aliviou a
sensação de forma alguma. As notas pareciam repercutir diretamente do assoalho.
As pessoas, em suas vestimentas haute couture não diferiam em nada, poderiam
muito bem estar usando máscaras venezianas, tanto suas características se
mesclavam de uma à seguinte. Se dirigiu ao terraço, onde algumas pessoas
fumavam. Não tinham nenhum motivo especial para fazê-lo se não hábito, já que
em todos os corredores a fumaça dos cigarros era proeminente. O homem de óculos
achou que lá conseguiria respirar melhor e, de certa forma, estava certo. A
visão das arvores que rodeavam a mansão, ainda que com seu verde obscurecido
pela noite, o acalmava, assim como o lago próximo, refletindo a lua de uma forma
que parecia o ideal platônico desta cena bucólica. A música do salão principal
ainda o atingia, desconfortavelmente. O sax havia amainado, mas uma voz se
unira à harmonia. O homem de óculo observou um casal que caminhava abraçado pela
calçada de tijolos vermelhos (deviam ser vermelhos, ele pensava) que separava
as arvores do lago. O casal obviamente havia se desprendido da massa uniforme
da festa em busca de momentos de privacidade. Ainda que lhes dessem as costas,
o homem de óculos conseguia vê-los sorrir. Uma das pessoas tinha longos cabelos
loiros, outra curtos e escuros. Se vestiam como todos naquele lugar, mas, por
algum motivo, pareceram ao seu observador estranhamente individuais. Ele sabia
que, se os encontrasse depois, ainda que só os tivesse visto de costas,
conseguiria reconhecê-los. Havia algo no jeito que se moviam. Uma malemolência
que parecia mistura de álcool e de paixão. A vocalista cantava “another victim
on the promenade”, como se cantasse “I fall in Love too easily”. E o voyeur
sentiu nisso um mau agouro. Uma sensação de inevitabilidade se espalhou por seu
corpo a partir do estômago, como as borboletas que se libertam do casulo na
realização de uma paixão, mas não eram borboletas o que sentia, e sim insetos
frios, que deixavam seu corpo dormente de medo. Era como se uma faca lhe
penetrasse o abdômen. Sentiu vontade de gritar, mas a voz não lhe saiu. O
máximo que conseguiu por para fora foi um suspiro qual trompete com surdina.
Foi nesse momento que entendeu o que seu corpo já pressentira. Aquele casal que
lhe parecia tão apaixonado era, na verdade, uma cena de assassinato. Ele viu a
lâmina refletir o brilho da lua, o sangue se derramar pelo pavimento da
calçada. Viu a vítima, ainda num abraço amoroso em volta de quem lhe matava,
ser guiada até o lago, onde os dois entraram juntos. A roupa do homem de óculos
estava ensopada de suor, como se ele mesmo estivesse também entrando no lago.
Mais ninguém no terraço parecia perceber o que estava acontecendo. Ou não se
importavam, o que dava no mesmo. Quando o nível da água cobriu completamente os
amantes, o homem de óculos também se sentiu submerso. Não respirava. Buscava
por ar, sem sucesso. Um círculo de convivas se formara ao redor dele. Nenhum
movia um músculo para ajudá-lo, por mais que seu olhar suplicante lhe caísse
sobre os rostos que pareciam feitos de cera. Pelo contrário, pequenos sorrisos
se formavam naquelas faces que, cada vez mais, pareciam máscaras. E quanto mais
ele se debatia, sem conseguir respirar, as mãos como que tapando uma ferida em
seu ventre, mais se alargavam os sorrisos. O homem de óculos voltou a olhar
para o ponto onde os amantes haviam desaparecido sob a água. Deles, o único
sinal que viu foi também sua última visão: a lua refletindo nas lentes rodeadas
por grossos aros escuros.
sábado, 16 de abril de 2016
Hameln
Se a flauta que um rato toca
dos ratos mais o destaca
não queira o rato, em ressaca
tornar em casa sua toca
Pois mesmo eu, se constato
que o rato em si tenha dote,
desconheço sacerdote
que torne em homem um rato
O tal rato que se arroga
de grão tocador flautista
por mais que na flauta insista
é o primeiro que se afoga
Persisto, então, nesse fato
E lembro aos que ainda dormem
Inda que se pinte de homem
Quem toca esta flauta é o rato.
(pro Carlos Moreira, por causa do Hamelin)
dos ratos mais o destaca
não queira o rato, em ressaca
tornar em casa sua toca
Pois mesmo eu, se constato
que o rato em si tenha dote,
desconheço sacerdote
que torne em homem um rato
O tal rato que se arroga
de grão tocador flautista
por mais que na flauta insista
é o primeiro que se afoga
Persisto, então, nesse fato
E lembro aos que ainda dormem
Inda que se pinte de homem
Quem toca esta flauta é o rato.
(pro Carlos Moreira, por causa do Hamelin)
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
Terra cinzenta

A terra em
que te exilaste era estranha
Mulheres e
homens tinham amores cinzentos e empoeirados
Eles eram
eles mesmos cinzentos e feitos de pó,
e percebiam
que tú eras uma estrangeira logo à primeira vista:
pois teu amar era cinzento, mas de um tom amarronzado,
e tú não eras feita de pó, mas de pedregulhos
e tuas roupas eram feitas dos cabelos dos últimos homens e mulheres coloridos.
(foto por Diego Lombo Machado)
e tú não eras feita de pó, mas de pedregulhos
e tuas roupas eram feitas dos cabelos dos últimos homens e mulheres coloridos.
(foto por Diego Lombo Machado)
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
Revenant
A porta se abre com dificuldade. É como se o tempo
houvesse se acumulado em suas dobradiças, em sua fechadura. O tempo e o ócio.
Claramente o apartamento ficou intocado desde que eu o fechei, tanto tempo
atrás. Preciso fazer força para conseguir entrar. Uso o ombro, como num
daqueles filmes policiais. Não serviria de nada se ela já não estivesse aberta,
é claro. Mas entro ainda no impulso do escorão, de surpresa, sem ter tempo de
calcular meu primeiro passo. Não sei se foi com o pé direito ou esquerdo. Uma
superstição boba que não iria fazer a menor diferença. Eu sei que voltar aqui
não é uma boa ideia. O assassino voltando à cena do crime. Eu sabia que era uma
ideia ruim e voltei mesmo assim. Isso deve dizer um pouco sobre mim. Sobre como
sou burro. Ou sobre como sou dependente das coisas ruins que existem dentro de
mim. E nada poderia ser mais parecido com o meu interior do que este apartamento.
Parece o cenário de um filme de terror. A casa assombrada esperando uma família
ingênua se mudar para poder eliminar cada um de seus membros. Exceto que aqui
não há nenhuma família, apenas eu. Todos os móveis estão cobertos em lona
branca. Como se fossem, cada um deles, fantasmas inanimados, ridículos. E sobre
isso uma camada grossa, vil, de poeira se assentou. Não imagino de onde ela
pode ter vindo, todas a entradas estão fechadas. Mas ainda assim se acumulou,
grossa, sólida. O próprio ar esta estagnado. Imagino que entrar na tumba de um
faraó, sob uma pirâmide fechada há milênios, não poderia ser muito diferente
daquilo. Sei lá quanto tempo faz que cobri tudo que existia ali, naquele lugar
que chamava de casa, e me fui, como se tivesse algum outro lugar para ir. Depois
de atravessar aquela porta, fugindo, o tempo nunca mais passou da mesma forma. Era
como se passasse com uma velocidade tão grande que criava uma força centrípeta,
me mantendo parado em seu centro. O que é dizer, é como se o tempo não
existisse. Poderiam ter sido apenas dias, mas me pareciam – e a poeira
concordava comigo – séculos, muitas vidas, das quais eu não vivi nenhuma. Vou
descobrindo as peças uma por uma. Redescobrindo memórias, memórias que não
tinham o efeito que eu poderia esperar. O sofá estava cheio de fúria, as
estantes, com os livros de lombadas apagadas, eram o peso opressor inigualável
da memória e do esquecimento, a cama era frustração sexual, solidão, a mesa era
feita de fome, suas pernas desiguais a infindável necessidade, a busca por tudo
que nunca consegui, nunca iria conseguir. Nada era belo e tudo machucava.
Respirava com dificuldade. O pó e as lágrimas entupindo todas as vias da minha
alma, me sufocando num passado que eu não mais conseguia lembrar, que era tão
distante que não me causava efeito nenhum. Abandonar esse lugar tinha sido a
insensibilidade. Voltar era sentir apenas uma coisa; a dor de ter perdido o
passado e não ter conquistado nenhum futuro se não o lixo. Como poderia ser
diferente quando não se sente nada? Voltei porque achei que aquilo não era
viver, mas antes de levantar a última lona, eu sabia que encarar aquela imagem
seria morrer. Levantei o véu e lá estava eu, jogado no chão. A faca ainda
enfiada em meu coração. Minhas lágrimas imediatamente cessaram. Como Dorian
deve ter se sentido ao observar seu quadro, com seu último suspiro? Eu não
respirava já desde de não sei quando. Estava ali, jogado, estranhamente
conservado – mas não muito, era claramente um cadáver em decomposição ali, sua
pele esverdeada, sua carne carcomida, como que inexistente entre o osso e a
superfície – o meu cadáver. Eu o havia ocultado e fugido. Escapara de meu
próprio suicídio e andava por aí, morto por dentro. Não era o único a fazer
algo assim. Andando na rua é fácil para nos reconhecermos. Falta o brilho no
olhar, falta o tesão em viver. Lá fora era o contrário, nada doía, mas era
também incapaz de sentir prazer. De sentir o que fosse. E algo assim não passa
despercebido. Você aguenta, por um tempo. Mas o céu acaba caindo sobre sua
cabeça em forma de memória. Porque esquecer o valor de algo é uma forma de
lembrar, e é a pior forma possível. Não é só porque o quebra-cabeças perdeu
algumas peças que, ao montá-lo com lacunas, o tornamos completo novamente. Se
apaixonar não é a mesma coisa sem o frio na barriga. E, convenhamos, quem retribuiria
a paixão de alguém assim? O esquecimento nos faz sentir falta de quando
podíamos lembrar. Voltei porque sentia falta de como era viver. Mas voltei
sabendo que não existe remédio. As mudanças que acontecem sobre nós não podem
ser desfeitas, não se pode reviver. Só se pode mudar mais. Só se pode olhar nos
olhos de nosso próprio cadáver e reconhecer nossos atos. E o corpo, os restos,
nos olham de volta e nos enchem de raiva, de fúria, de solidão, de tudo que nos
machuca desde os primórdios da vida. É só isso que sobra. É o que há de impuro,
de podre, de ruim. É a frustração consigo mesmo, aquele veneno que tomamos
todos os dias, desde o berço, aquilo que nos faz crescer e faz nossas juntas
doerem a cada movimento, a amargura absoluta que acaba nos matando. Eu sabia
que não podia voltar a ter o que antes me doía, por mais que sentisse falta da
dor, da ansiedade, da aflição, daquelas coisas que me faziam um ser vivo. Tudo
que podia fazer era mudar mais, era morrer de novo. E olhando nos meus próprios
olhos, como através de um espelho baço, a alma se esvai.
quarta-feira, 25 de novembro de 2015
Cidade Mágica
(para o Akira Yamasaki)
Se eu te dissesse que o trem pra São Miguel saiu voando e chegou antes do horário
E que o metrô da linha verde se pintou de cor de rosa no trocar do itinerário
Se eu te contasse que os faróis das avenidas se acenderam de azul a um só momento
E que em função da confusão os motoristas esqueceram os carros no engarrafamento
Era capaz d'ocê dizer que eu 'tô maluco ou qu'eu 'tô precisando ir no oculista
Porque pra ver tanta besteira concentrada tem que 'tar ruim da cuca ou ruim da vista, aiai...
Se eu te dissesse que o Pinheiros 'tava cum cheirinho fresco de roupa recém-lavada
E que o caminhão de lixo era muvido a algudão doce e não tinha cheiro de nada
E que maestros ocuparam praças, pontes, passarelas, cada canto e cavidade
E quando deram sete horas transformaram em melodia os ruídos da cidade
Era capaz d'ocê mandar eu usar o tal de cotonete e mais de uma vez por dia
E, se a limpeza não me desse resultado, pra eu já deixar marcado uma terapia, aiai...
Se eu te contasse que chuveu no Itaim, mas que foi chuva de bombom e borboleta,
E que o sol naquele dia era nascido de cesárea e concebido na proveta
E que o sorvete que eu tomava tava estranho porque a calda era roubada de um cometa
Era capaz d'ocê dizer que de falar tanta besteira eu só pioro a minha fama
Mas que apesar de eu ser um louco numa cidade maluca, a verdade é que você me ama, aiai...
Se eu te dissesse que o trem pra São Miguel saiu voando e chegou antes do horário
E que o metrô da linha verde se pintou de cor de rosa no trocar do itinerário
Se eu te contasse que os faróis das avenidas se acenderam de azul a um só momento
E que em função da confusão os motoristas esqueceram os carros no engarrafamento
Era capaz d'ocê dizer que eu 'tô maluco ou qu'eu 'tô precisando ir no oculista
Porque pra ver tanta besteira concentrada tem que 'tar ruim da cuca ou ruim da vista, aiai...
Se eu te dissesse que o Pinheiros 'tava cum cheirinho fresco de roupa recém-lavada
E que o caminhão de lixo era muvido a algudão doce e não tinha cheiro de nada
E que maestros ocuparam praças, pontes, passarelas, cada canto e cavidade
E quando deram sete horas transformaram em melodia os ruídos da cidade
Era capaz d'ocê mandar eu usar o tal de cotonete e mais de uma vez por dia
E, se a limpeza não me desse resultado, pra eu já deixar marcado uma terapia, aiai...
Se eu te contasse que chuveu no Itaim, mas que foi chuva de bombom e borboleta,
E que o sol naquele dia era nascido de cesárea e concebido na proveta
E que o sorvete que eu tomava tava estranho porque a calda era roubada de um cometa
Era capaz d'ocê dizer que de falar tanta besteira eu só pioro a minha fama
Mas que apesar de eu ser um louco numa cidade maluca, a verdade é que você me ama, aiai...
domingo, 1 de novembro de 2015
O Espelho
Depois de horas de contemplação sem fim
conclui Narciso:
Deus inventou o espelho pensando em mim
conclui Narciso:
Deus inventou o espelho pensando em mim
Assinar:
Postagens (Atom)