(para o Akira Yamasaki)
Se eu te dissesse que o trem pra São Miguel saiu voando e chegou antes do horário
E que o metrô da linha verde se pintou de cor de rosa no trocar do itinerário
Se eu te contasse que os faróis das avenidas se acenderam de azul a um só momento
E que em função da confusão os motoristas esqueceram os carros no engarrafamento
Era capaz d'ocê dizer que eu 'tô maluco ou qu'eu 'tô precisando ir no oculista
Porque pra ver tanta besteira concentrada tem que 'tar ruim da cuca ou ruim da vista, aiai...
Se eu te dissesse que o Pinheiros 'tava cum cheirinho fresco de roupa recém-lavada
E que o caminhão de lixo era muvido a algudão doce e não tinha cheiro de nada
E que maestros ocuparam praças, pontes, passarelas, cada canto e cavidade
E quando deram sete horas transformaram em melodia os ruídos da cidade
Era capaz d'ocê mandar eu usar o tal de cotonete e mais de uma vez por dia
E, se a limpeza não me desse resultado, pra eu já deixar marcado uma terapia, aiai...
Se eu te contasse que chuveu no Itaim, mas que foi chuva de bombom e borboleta,
E que o sol naquele dia era nascido de cesárea e concebido na proveta
E que o sorvete que eu tomava tava estranho porque a calda era roubada de um cometa
Era capaz d'ocê dizer que de falar tanta besteira eu só pioro a minha fama
Mas que apesar de eu ser um louco numa cidade maluca, a verdade é que você me ama, aiai...
quarta-feira, 25 de novembro de 2015
domingo, 1 de novembro de 2015
O Espelho
Depois de horas de contemplação sem fim
conclui Narciso:
Deus inventou o espelho pensando em mim
conclui Narciso:
Deus inventou o espelho pensando em mim
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
o Elefante
tem um Elefante na palma da minha mão
não é uma metáfora, ou uma experiência artística, ou um jogo de palavras,
não
literalmente, na palma da minha mão, tem um Elefante.
ele é orgulhoso, e algo cheio de si, como acaba acontecendo com os elefantes que saem muito cedo de casa, e é por isso que tenho que tratá-lo de Elefante, não de elefante.
fora isso, não há qualquer motivo para as maiúsculas.
as maiúsculas, todos temos que concordar com isso uma hora ou outra, são desperdiçadas na maior parte do tempo;
(e a pontuação)
mas eu sou, talvez, uma pessoa bem menos revolucionária do que gostaria, pelo que a maioria das minhas frases acaba, intimidada pelo olhar duro das sábias da gramática, cheia de vírgulas e pontos e parênteses e letras maiúsculas;
mas estou hoje inspirada pelo Elefante, este sim um verdadeiro revolucionário, e transgrido. minhas frases começam sem maiúscula, e todo este parágrafo - estrofe? - que não passa de um grânde parêntese, está sem parênteses para marcá-lo.
o Elefante acredita, e eu concordo com ele, que grânde deveria ser acentuada, e tú.
tú acentuada é muito mais bonita.
grânde acentuada tem outra grandêsa.
tenho um Elefante gramático e revolucionário em minha mão, e uma selva por todo meu corpo.
nas pontas dos meus dedos, caçoando do Elefante por sua empáfia, tem cinco jabutis. nenhum deles sabe o que empáfia significa, mas adoram a palavra, e acreditam que descreve perfeitamente o Elefante (ou, como eles gostam de dizer, "O Elefante").
no meu joelho direito tem uma cobra coral, que se enrosca em dias de frio com tanta força que me dói às vezes. ela também se enrosca quando está com saudades do Elefante, porque sabe que eu levo minhas mãos ao joelho quando ele dói. ela é ligeiramente apaixonada pelo Elefante, um amor que ela disputa com o tigre que tem no joelho esquerdo;
o tigre, porém, só sabe machucar com arranhões, que são muito menos eficazes do que enroscos. quando está com saudades de seu amado Elefante, o tigre cutuca meu joelho esquerdo com sua garra, até que ele fique pinicando e eu tenha que baixar minhas mãos para coçá-lo. ele nem sempre faz isso, porém, só quando está com muita saudade, porque os jabutis que tem nos meus dedos gostam de mordiscar suas orelhas e bagunçar seu pêlo, e o tigre que tem no meu joelho é todo muito vaidoso. é um paradoxo terrível, pensa o tigre, que ele só consiga encontrar o Elefante que tanto o apaixona apenas quando seus pêlos estão bagunçados e quando não consegue conversar direito, porque tem um jabuti em sua orelha.
sempre que isso acontece, o tigre tenta puxar um papo com a mariposa que tem em minha canela, sua grande confissora.
não consegui falar com meu amor hoje...
por quê?
eu tinha um jabuti na minha orelha...
isso é uma metáfora, ou uma experiência artística, ou um jogo de palavras?
não, literalmente, mordiscando minhas orelhas, tinha um jabuti.
a mariposa dá de asas, suspira, e se prepara para uma conversa que ela sabe que vai ser confusa.
não é uma metáfora, ou uma experiência artística, ou um jogo de palavras,
não
literalmente, na palma da minha mão, tem um Elefante.
ele é orgulhoso, e algo cheio de si, como acaba acontecendo com os elefantes que saem muito cedo de casa, e é por isso que tenho que tratá-lo de Elefante, não de elefante.
fora isso, não há qualquer motivo para as maiúsculas.
as maiúsculas, todos temos que concordar com isso uma hora ou outra, são desperdiçadas na maior parte do tempo;
(e a pontuação)
mas eu sou, talvez, uma pessoa bem menos revolucionária do que gostaria, pelo que a maioria das minhas frases acaba, intimidada pelo olhar duro das sábias da gramática, cheia de vírgulas e pontos e parênteses e letras maiúsculas;
mas estou hoje inspirada pelo Elefante, este sim um verdadeiro revolucionário, e transgrido. minhas frases começam sem maiúscula, e todo este parágrafo - estrofe? - que não passa de um grânde parêntese, está sem parênteses para marcá-lo.
o Elefante acredita, e eu concordo com ele, que grânde deveria ser acentuada, e tú.
tú acentuada é muito mais bonita.
grânde acentuada tem outra grandêsa.
tenho um Elefante gramático e revolucionário em minha mão, e uma selva por todo meu corpo.
nas pontas dos meus dedos, caçoando do Elefante por sua empáfia, tem cinco jabutis. nenhum deles sabe o que empáfia significa, mas adoram a palavra, e acreditam que descreve perfeitamente o Elefante (ou, como eles gostam de dizer, "O Elefante").
no meu joelho direito tem uma cobra coral, que se enrosca em dias de frio com tanta força que me dói às vezes. ela também se enrosca quando está com saudades do Elefante, porque sabe que eu levo minhas mãos ao joelho quando ele dói. ela é ligeiramente apaixonada pelo Elefante, um amor que ela disputa com o tigre que tem no joelho esquerdo;
o tigre, porém, só sabe machucar com arranhões, que são muito menos eficazes do que enroscos. quando está com saudades de seu amado Elefante, o tigre cutuca meu joelho esquerdo com sua garra, até que ele fique pinicando e eu tenha que baixar minhas mãos para coçá-lo. ele nem sempre faz isso, porém, só quando está com muita saudade, porque os jabutis que tem nos meus dedos gostam de mordiscar suas orelhas e bagunçar seu pêlo, e o tigre que tem no meu joelho é todo muito vaidoso. é um paradoxo terrível, pensa o tigre, que ele só consiga encontrar o Elefante que tanto o apaixona apenas quando seus pêlos estão bagunçados e quando não consegue conversar direito, porque tem um jabuti em sua orelha.
sempre que isso acontece, o tigre tenta puxar um papo com a mariposa que tem em minha canela, sua grande confissora.
não consegui falar com meu amor hoje...
por quê?
eu tinha um jabuti na minha orelha...
isso é uma metáfora, ou uma experiência artística, ou um jogo de palavras?
não, literalmente, mordiscando minhas orelhas, tinha um jabuti.
a mariposa dá de asas, suspira, e se prepara para uma conversa que ela sabe que vai ser confusa.
terça-feira, 20 de outubro de 2015
Oração das Almas
Pra dona Glaucia, que me ensinou a ter menos vergonha delas
As almas guardam um silêncio todo digno, todo específico, nos cemitérios.
Não é como seu silêncio no dia a dia, quando elas vão nos visitar em nossas casas e lá ficam, tímidas, observando o que fazemos discreta e educadamente, talvez para compensarem o fato de nos estarem bisbilhotando a vida. São poucas as pessoas que se sentem confortáveis quando há almas as observando cozinhar, lavar-se, varrer o chão, amar. Tememos, talvez, o peso do julgamento - o silêncio das almas que nos visitam, por educado que seja, carrega em si algo de julgamento, como quem diz "No meu tempo, fazíamos diferente" ou "No Reino de Deus, não precisamos desse tipo de coisa".
Mas não é assim nos cemitérios. Nos cemitérios, elas se sentam sobre as lápides, e nos miram com os olhos desbotados dos anjos de pedra e das fotografias pregadas nos túmulos (não com os olhos de Nosso Senhor Jesus Cristo, porém, que nos cemitérios estão quase que sempre fechados). Elas se sentam em suas lápides, silenciosamente, e simplesmente indicam sua alegria pela nossa visita através das flores murchas e dos vasos quebrados, através dos gatos velhos e dos pássaros que voam entre as pedras.
Ou talvez eu esteja errado;
Talvez mesmo aí, em seu silêncio gentil e hospitaleiro, haja um quê de julgamento, como se nos dissessem, viu?, é fácil receber bem - sempre que visitamos, você insiste em prosseguir cozinhando, lavando-se, varrendo o chão, amando; quando basta que você se sente sobre sua lápide e demonstre sua alegria com nossa visita!
Talvez mesmo nos cemitérios, então, as almas nos julguem, de alguma forma. Mas não vou insistir nessa linha de raciocínio, ou meu texto pode ficar excessivamente metafísico.
As almas guardam um silêncio todo digno, todo específico, nos cemitérios.
Não é como seu silêncio no dia a dia, quando elas vão nos visitar em nossas casas e lá ficam, tímidas, observando o que fazemos discreta e educadamente, talvez para compensarem o fato de nos estarem bisbilhotando a vida. São poucas as pessoas que se sentem confortáveis quando há almas as observando cozinhar, lavar-se, varrer o chão, amar. Tememos, talvez, o peso do julgamento - o silêncio das almas que nos visitam, por educado que seja, carrega em si algo de julgamento, como quem diz "No meu tempo, fazíamos diferente" ou "No Reino de Deus, não precisamos desse tipo de coisa".
Mas não é assim nos cemitérios. Nos cemitérios, elas se sentam sobre as lápides, e nos miram com os olhos desbotados dos anjos de pedra e das fotografias pregadas nos túmulos (não com os olhos de Nosso Senhor Jesus Cristo, porém, que nos cemitérios estão quase que sempre fechados). Elas se sentam em suas lápides, silenciosamente, e simplesmente indicam sua alegria pela nossa visita através das flores murchas e dos vasos quebrados, através dos gatos velhos e dos pássaros que voam entre as pedras.
Ou talvez eu esteja errado;
Talvez mesmo aí, em seu silêncio gentil e hospitaleiro, haja um quê de julgamento, como se nos dissessem, viu?, é fácil receber bem - sempre que visitamos, você insiste em prosseguir cozinhando, lavando-se, varrendo o chão, amando; quando basta que você se sente sobre sua lápide e demonstre sua alegria com nossa visita!
Talvez mesmo nos cemitérios, então, as almas nos julguem, de alguma forma. Mas não vou insistir nessa linha de raciocínio, ou meu texto pode ficar excessivamente metafísico.
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
Maçãs que comi
Ontem comi duas maçãs
seguidas
Quem é que faz isso?
Maçã se come por unidade
E eu?
comi o dobro!
seguidas
Quem é que faz isso?
Maçã se come por unidade
E eu?
comi o dobro!
domingo, 9 de agosto de 2015
Oração da Quaresma
Passar as mãos nos cabelos de D'us
Abraçar D'us
Fazer carinho no rosto de D'us
Elogiar Seu sorriso
Chamar D'us pra tomar uma cerveja
Tomar guaraná com D'us, que está guardando a quaresma
Tocar violão com D'us
Perceber que D'us, apesar da voz maravilhosa, volta e meia erra o tempo, principalmente quando tenta tocar samba.
Ficar amigo de D'us, mas muito camarada mesmo.
Querer bem a D'us, ser por ele querido
Saber da morte de D'us, sofrer com a morte de D'us,
Chorar, inconsolavelmente.
Ir ao enterro de D'us,
Chorar, inconsolavelmente.
Três dias depois, um bilhete:
"Já melhorei. Vamos tomar aquela cerveja?"
Abraçar D'us
Fazer carinho no rosto de D'us
Elogiar Seu sorriso
Chamar D'us pra tomar uma cerveja
Tomar guaraná com D'us, que está guardando a quaresma
Tocar violão com D'us
Perceber que D'us, apesar da voz maravilhosa, volta e meia erra o tempo, principalmente quando tenta tocar samba.
Ficar amigo de D'us, mas muito camarada mesmo.
Querer bem a D'us, ser por ele querido
Saber da morte de D'us, sofrer com a morte de D'us,
Chorar, inconsolavelmente.
Ir ao enterro de D'us,
Chorar, inconsolavelmente.
Três dias depois, um bilhete:
"Já melhorei. Vamos tomar aquela cerveja?"
quarta-feira, 5 de agosto de 2015
Paraparábola
Conta-se que, após uma noite de tempestade, um velho sábio caminhava pela praia. Milhares de estrelas do mar estavam espalhadas sobre a areia, a vida se esvaindo conforme o sol subia.
Uma garotinha corria da praia para o mar, carregando as estrelas moribundas e atirando-as de volta à água. Sentindo que daí extrairia alguma sorte de sabedoria, o velho aproximou-se da menina e lhe perguntou:
- São centenas, milhares de estrelas morrendo nessa praia, e há milhões dessas estrelas no oceano. Não faz diferença alguma que você consiga resgatar algumas dúzias, então, por que você as está ajudando?
Ao que a garotinha, olhos cansados e cabelo coberto de suor e areia, respondeu:
- Eu perdi uma aposta.
Uma garotinha corria da praia para o mar, carregando as estrelas moribundas e atirando-as de volta à água. Sentindo que daí extrairia alguma sorte de sabedoria, o velho aproximou-se da menina e lhe perguntou:
- São centenas, milhares de estrelas morrendo nessa praia, e há milhões dessas estrelas no oceano. Não faz diferença alguma que você consiga resgatar algumas dúzias, então, por que você as está ajudando?
Ao que a garotinha, olhos cansados e cabelo coberto de suor e areia, respondeu:
- Eu perdi uma aposta.
quinta-feira, 16 de julho de 2015
Xangai
Sobe um vento mandarim
Rumo ao sol, sol de 上海
Não sou eu quem fica em mim,
Não sou quem de mim se vai
Mal sou sombra de nanquim,
Mal sou nuvem que esvai
Posso só ser eu, enfim
Ao seu lado, em 上海
Rumo ao sol, sol de 上海
Não sou eu quem fica em mim,
Não sou quem de mim se vai
Mal sou sombra de nanquim,
Mal sou nuvem que esvai
Posso só ser eu, enfim
Ao seu lado, em 上海
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