Sobe um vento mandarim
Rumo ao sol, sol de 上海
Não sou eu quem fica em mim,
Não sou quem de mim se vai
Mal sou sombra de nanquim,
Mal sou nuvem que esvai
Posso só ser eu, enfim
Ao seu lado, em 上海
quinta-feira, 16 de julho de 2015
domingo, 24 de maio de 2015
Hoje no metrô
Hoje algo um tanto
diferente aconteceu. Encontrou Igor na estação Butantã, como quase toda
sexta-feira depois do trabalho de ambos, só que dessa vez acompanhado da irmã.
O Igor era um de seus melhores amigos: já se conheciam há alguns anos, já
haviam conversado de tudo e já tinham passado por umas poucas e boas juntos,
mas até hoje não tinha calhado de conhecer alguém da família dele. São todos do
interior e quase nunca vêm pra cá. E agora a irmã tinha vindo casualmente visitar
o irmão para o final de semana. Era muito parecida com ele de rosto, tinha
olhos pequenos e um grande sorriso, e também tinha assim como o Igor um jeitão
charmoso e uma voz forte. Mas mesmo assim, era bastante diferente dele de uma
forma peculiar: era especialmente bonita. Foi difícil acostumar-se com a
presença dela. Aquele encontro, tão rotineiro, familiar e casual hoje virou alguma
coisa totalmente estranha. Ela era realmente muito bonita. Teve que se
concentrar para manter a compostura e parecer normal – e fez isso com maestria,
diga-se de passagem – enquanto se perguntava de onde aquela criatura alienígena
e fascinante tinha aparecido, como foi de repente atrapalhar aquela zona de
conforto tão banal e como era cosmicamente conectada ao seu melhor amigo ao
mesmo tempo que sempre esteve tão longe? Foi um pouco perturbador. Se fosse
possível tirar uma foto espiritual daquela situação mais cedo no metrô estaria
boquiaberto e vidrado, cara a cara, sem piscar, vasculhando com atenção cada movimento
no canto de seu sorriso e cada movimento em torno de seus olhos – como uma criança
perdida na terra dos doces – e era isso de fato o que se segurava para não
fazer no mundo não espiritual. Dizia-se qual o momento certo de desviar o
olhar: ia dela para o irmão, para o teto, as janelas, o chão e de volta para
ela, discretamente. Até que graças ao
mundo, que mantém certas coisas sempre do mesmo jeito - que usamos de
referência para diagnosticar nossa própria sanidade ou lucidez -, todos ali de
pé, olhando para os trilhos à frente como se não tivessem outro lugar para
olhar, puderam ver a Luz no fim do túnel e foi um certo alívio imediato. Não vai
ter mais que lidar com aquela tensão de novo, pelo menos não pelo fim de
semana, o que já é um bom tempo para pensar no assunto. Enquanto isso, enquanto
o fim de semana não começa oficialmente, pensou naquilo que dizem de que quando
se dorme pensando em algo, é com isso que agente sonha. Boa noite.
sexta-feira, 22 de maio de 2015
O dragão sutil
Quando o dragão sutil apareceu pela primeira vez, mordeu fora, sem que eu percebesse, um pedaço do menor dos artelhos do meu pé direito, e o lóbulo da minha orelha esquerda. Só fui notar na manhã seguinte, porque meu pé estava formigando e havia algumas manchas de sangue no meu travesseiro. Na segunda vez, mais ousado, me subtraiu um pedaço, ainda bastante pequeno, da barriga, e um naco do tendão atrás do meu joelho esquerdo.
Da terceira vez, eu percebi sua aproximação. Gritei para espantá-lo - parecia pequeno como uma lagartixa, apesar do formato lembrar mais o de uma minúscula cobra alada -, mas meu tamanho e minha voz não serviram para intimidá-lo. Levou, de uma mordida, a ponta do meu nariz, de que eu tanto gostava.
Por esta época, a maioria das pessoas da vila já estava, como eu, subtraída de uns bons pedaços de si. À mestra curandeira já lhe faltavam quase todos os dedos, a capitã da guarda tinha minúsculas cicatrizes, por todo o braço esquerdo e pelas duas pernas, e o relojoeiro não tinha mais um dos olhos, nem sua famosa cabeleira. Eu estava entre as poucas pessoas que tinha acordado durante um ataque do dragão sutil, porém, e nenhum de nós tivera qualquer sucesso com urros ou tochas para espantar o monstro.
Pedi à confraria dos artesãos que me conseguissem uma espada. Resistiram, a princípio. Fosse o "dragão" - dava pra ouvir as aspas em seus ombros - tão pequeno e sorrateiro quanto se relatava, qualquer martelo de cozinha me serviria para amassar-lhe a cabeça. Seria, porém, uma quebra da tradição muito grave matar um dragão com qualquer coisa que não fosse uma espada, redarguiu a chefe da guarda em meu apoio, e a espada foi arranjada. (Soube, mais tarde, que, mais forte que o argumento da capitã, retinia no coração do confrade-mor o temor de ter seus dedos engolidos durante o sono, o que lhe tiraria a profissão).
Quando, seguindo a tradição, tentei cortar fora a cabeça do dragão sutil, minha espada prendeu-se em seu pescoço e tornou-se, a meus olhos, menor que um alfinete. Percebi que o dragão não era pequeno, mas que estava, de alguma forma, distante. E por distante que estivesse, além de perder minha espada entre suas escamas, perdi naquele dia minha mão direita entre seus dentes.
A vila prosseguiu sua vida, e eu, como sempre acaba acontecendo. Aos poucos, todos se acostumaram a amanhecer sem um dos olhos, ou com pedaços da orelha faltando, ou com um rim a menos.
Uns e outros tentávamos nos proteger. Armávamos redes ao redor das camas e armadilhas pela casa. Mas eram quase todas inúteis. O dragão sutil se encolhia - ou se distanciava, nunca soube entender isso muito bem - o dragão sutil se encolhia conforme a necessidade para atravessar mesmo as grades mais apertadas.
Com o tempo, o dragão sutil se tornou uma figura de linguagem - uma forma de se referir ao fenômeno perfeitamente natural de acordar com partes do corpo a menos. Apenas crianças e nós, insistentes supersticiosos, cremos em um dragão que realmente vem durante a noite nos mastigar pedacinhos fora.
Da terceira vez, eu percebi sua aproximação. Gritei para espantá-lo - parecia pequeno como uma lagartixa, apesar do formato lembrar mais o de uma minúscula cobra alada -, mas meu tamanho e minha voz não serviram para intimidá-lo. Levou, de uma mordida, a ponta do meu nariz, de que eu tanto gostava.
Por esta época, a maioria das pessoas da vila já estava, como eu, subtraída de uns bons pedaços de si. À mestra curandeira já lhe faltavam quase todos os dedos, a capitã da guarda tinha minúsculas cicatrizes, por todo o braço esquerdo e pelas duas pernas, e o relojoeiro não tinha mais um dos olhos, nem sua famosa cabeleira. Eu estava entre as poucas pessoas que tinha acordado durante um ataque do dragão sutil, porém, e nenhum de nós tivera qualquer sucesso com urros ou tochas para espantar o monstro.
Pedi à confraria dos artesãos que me conseguissem uma espada. Resistiram, a princípio. Fosse o "dragão" - dava pra ouvir as aspas em seus ombros - tão pequeno e sorrateiro quanto se relatava, qualquer martelo de cozinha me serviria para amassar-lhe a cabeça. Seria, porém, uma quebra da tradição muito grave matar um dragão com qualquer coisa que não fosse uma espada, redarguiu a chefe da guarda em meu apoio, e a espada foi arranjada. (Soube, mais tarde, que, mais forte que o argumento da capitã, retinia no coração do confrade-mor o temor de ter seus dedos engolidos durante o sono, o que lhe tiraria a profissão).
Quando, seguindo a tradição, tentei cortar fora a cabeça do dragão sutil, minha espada prendeu-se em seu pescoço e tornou-se, a meus olhos, menor que um alfinete. Percebi que o dragão não era pequeno, mas que estava, de alguma forma, distante. E por distante que estivesse, além de perder minha espada entre suas escamas, perdi naquele dia minha mão direita entre seus dentes.
A vila prosseguiu sua vida, e eu, como sempre acaba acontecendo. Aos poucos, todos se acostumaram a amanhecer sem um dos olhos, ou com pedaços da orelha faltando, ou com um rim a menos.
Uns e outros tentávamos nos proteger. Armávamos redes ao redor das camas e armadilhas pela casa. Mas eram quase todas inúteis. O dragão sutil se encolhia - ou se distanciava, nunca soube entender isso muito bem - o dragão sutil se encolhia conforme a necessidade para atravessar mesmo as grades mais apertadas.
Com o tempo, o dragão sutil se tornou uma figura de linguagem - uma forma de se referir ao fenômeno perfeitamente natural de acordar com partes do corpo a menos. Apenas crianças e nós, insistentes supersticiosos, cremos em um dragão que realmente vem durante a noite nos mastigar pedacinhos fora.
segunda-feira, 27 de abril de 2015
A ordem dos meninos chorando
Como se fosse um ritual secreto, o menino chora sentado sobre a calçada. Cada lágrima que escorre é o pedaço de uma mágica, cada fio escapando do que sobrou de suas calças, é um encantamento. É necessário que o menino chore e sinta o gosto frio do cimento nos ossos de suas pernas.
Dele é a ordem secreta pela qual o mundo é o mundo.
Não fosse o atrito do asfalto contra sua panturrilha, não haveria os trens. Sem o esgarçar de seus bolsos, pesados de tão vazios, que seria das padarias? É o feitiço de cada lágrima que escorre que garante que as câmeras de TV possam apontar e suspirar, aliviadas, quando o sol nascer amanhã.
Dele é a ordem secreta pela qual o mundo é o mundo.
Dele e de outros exatos mil e não sei quantos meninos sentados sobre as calçadas, chorando. Cada lágrima que escorre garantindo exatas quinhentas e não sei quantas famílias ao redor de um pão, dentro de uma locomotiva, em um seriado de televisão. Suas exatas seiscentas e não sei quantas calças completas - compostas pelas partes faltantes das calças de cada um - testemunhas do ontem, do hoje e do amanhã. Seus joelhos de menino pretos de sol e sangue.
sábado, 18 de abril de 2015
Em busca da felicidade
O problema de se estudar o direito é enxergar de forma óbvia toda a injustiça institucionalizada que se sobrepõe em nosso sistema; a ciência e a filosofia é o de perceber que a falta de respostas é parte essencial do universo, e o nosso intelecto é a maior fortaleza de toda a dúvida; já a medicina e afins, que lidam com a vida, é o de que ficamos próximos de cada fragilidade, impotência e do caráter perecível de nosso corpo; e por fim a história e as ciências sociais é o de vermos de novo e de novo, claramente, a perpetuação da tirania e a estúpida autodestruição de toda sociedade.
Em qualquer caso, sem poder fazer nada.
Dizem que a ignorância é uma benção, mas o que se deve ver aqui é que é de todo jeito impossível tornar-se uma pessoa feliz sem que se esforce muito, muito mesmo, para isso; e é também impossível, de qualquer forma, ser feliz esforçando-se - somente - para isso.
Em qualquer caso, sem poder fazer nada.
Dizem que a ignorância é uma benção, mas o que se deve ver aqui é que é de todo jeito impossível tornar-se uma pessoa feliz sem que se esforce muito, muito mesmo, para isso; e é também impossível, de qualquer forma, ser feliz esforçando-se - somente - para isso.
quinta-feira, 26 de março de 2015
Soneto charada
Diz-se, daquele que encara o presente
qual pedra ou flor ou o que quer que haja certo,
este estar sim desdistante e, pois, perto
da realidade, e agudo de mente.
Eu, porém, tendo a ler tudo em aberto:
vivo em um ponto entre a trás e a frente:
sido e a ser muito mais que corrente:
sonho que vivo e do qual mal desperto.
Entre, pois, iluminado e atônito,
luzes que apago e rebrilhos que escuro,
cada lumir me sabendo a enjoo,
Dou-me, enfim, um instante do insólito:
Dispo de mim meus passado e futuro:
Encho de sangue meus dedos, e voo
qual pedra ou flor ou o que quer que haja certo,
este estar sim desdistante e, pois, perto
da realidade, e agudo de mente.
Eu, porém, tendo a ler tudo em aberto:
vivo em um ponto entre a trás e a frente:
sido e a ser muito mais que corrente:
sonho que vivo e do qual mal desperto.
Entre, pois, iluminado e atônito,
luzes que apago e rebrilhos que escuro,
cada lumir me sabendo a enjoo,
Dou-me, enfim, um instante do insólito:
Dispo de mim meus passado e futuro:
Encho de sangue meus dedos, e voo
terça-feira, 24 de março de 2015
Não serei nem terás sido
Fecha outra manhã clara
Sem minuto, sem dia, sem frio ou
calor
Sem saber se ela é ontem ou
amanhã escritor
Sem momento de fome ou voz de
professor
Na de sempre espessa luz
A chuva espreguiçou e o sol se
esqueceu
Que pintar desbotado não desfaz
todo o breu
E que tem que subir pra lembrar
quem sou eu
Quando o tempo decidir
Se ele era, se foi, se ele vai ou
se vem
Se ele fica engasgado entre
tantos poréns
Se tem hora pra mim ou hora pra
ninguém
Nesse dia pois quem sabe
Eu o conte nos dedos e o encare na
fronte
E entre os passos pesados de um mastodonte
Eu te olhe, te inspire, me expire
e te conte
sexta-feira, 13 de março de 2015
Drei Liebesgedichte
(Três Poemas de Amor; ou
Um Terço de Uma Crônica)
1.
Tem um ar engraçado o Centro, naquela hora indefinida em que a maioria das pessoas já deixou seus postos em lojas, cafés e escritórios diversos do Centro, mas em que uma parte boa dessas lojas, cafés e escritórios do Centro ainda está aberta.
2.
Eu estou sentado nas escadas do Theatro Municipal, e está escuro - daquele jeito que São Paulo, e talvez todas as cidades do mundo, tem de ficar escuro, sem ficar escuro de verdade, exceto em alguns pedaços.
3.
Tem meia hora eu estava andando pela Barão de Itapetininga que ainda estava cheia, mas cheia de gente que parece que já está cheia do dia e já vai logo pra casa, só quer antes dar um pulo na farmácia ou naquela livraria que só fecha às oito.
Um Terço de Uma Crônica)
1.
Tem um ar engraçado o Centro, naquela hora indefinida em que a maioria das pessoas já deixou seus postos em lojas, cafés e escritórios diversos do Centro, mas em que uma parte boa dessas lojas, cafés e escritórios do Centro ainda está aberta.
2.
Eu estou sentado nas escadas do Theatro Municipal, e está escuro - daquele jeito que São Paulo, e talvez todas as cidades do mundo, tem de ficar escuro, sem ficar escuro de verdade, exceto em alguns pedaços.
3.
Tem meia hora eu estava andando pela Barão de Itapetininga que ainda estava cheia, mas cheia de gente que parece que já está cheia do dia e já vai logo pra casa, só quer antes dar um pulo na farmácia ou naquela livraria que só fecha às oito.
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