segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Tomando guaraná com você


Num ímpeto de ataque meu pai se projeta frente à minha mãe com a faca na mão. Ambos bêbados. Minha tia grita e se atira em cima dele para tentar impedi-lo, e meu tio vai atrás afim de derrubá-lo de vez, mas não antes que ele golpeie rapidamente a lâmina nas costas de sua cunhada. Minha tia morre, e ao receber um golpe cheio do irmão, meu pai roda e deixa a lâmina na própria barriga. Ele sangra muito, engole sangue, cai e também morre. Minha mãe grita em desespero e meu tio, em choque, tem os olhos abertos mas não olha em nada, e as lágrimas escorrem. Acho que corro, acho que desmaio, acordo no inferno e lá estão todos eles. Reencenam a cena de novo e de novo com infinda ira. Escuto risos. É meu próprio riso. Delirava. Acordo. Agora há um carpete de sangue. Minha mãe ainda grita, perdeu irmã e marido, eram todos uma família unida desde 85, e meu tio a sacode violentamente gritando calma. As pessoas chegam todas de fora para dobrar a realidade de novo, limpar, reparar os danos e continuar com o tempo. Olho o céu, as nuvens são imensuráveis, além delas não posso nem cogitar, sou também imensurável. Volto o olhar abaixo, olho o conteúdo que sorri ao mundo, engulo, olho ao lado, você me olha de volta. Não sei se algo importa nisso, mas sorrio de volta a ti. Obrigado, pelo menos agora posso sentir o gostoso do guaraná.

domingo, 3 de agosto de 2014

Sobre a paciência

Ele era um bom cozinheiro. suas habilidades conquistadas com anos de prática incessante, a ponto de muito já haver se tornado um processo mecânico. era um escape, um tempo em que parava de pensar na vida, e se deixava guiar completamente pelas mãos e pelos estímulos de seus sentidos. algumas pessoas encaram a cozinha como algo muito racional, uma ciência, outras com o senso estético, uma arte; para ele era apenas um hobby, sem grandes pretensões. a cozinha era a parte mais bem cuidada de seu apartamento, era branca, fria, antisséptica, enquanto todo o resto era bagunçado e não raro um tanto quanto sujo. seus utensílios eram de primeira linha, nada de facas guinso, para amadores, todas tinham seus usos específicos, como instrumentos de um cirurgião, e eram organizadas, ainda que inconscientemente, de forma harmônica. poderia muito bem ser algo saído de uma revista de decoração ou filme.
Estava cortando pimentões à julienne, completamente imerso no aroma levemente adocicado e nas cores, amarelo e vermelho. aquele era apenas o primeiro passo, mas seu paladar já ansiava o sabor do prato final. apesar disso seus movimentos eram repetitivos, algo que já havia feito muitas vezes antes. não precisamos saber o que estava fazendo, porque seja lá o que fosse, nunca foi terminado, nunca foi além daquelas fatias milimétricas de pimentão. a monotonia do processo se apossou dele, de forma que deveria ser completamente inofensiva, e o fez bocejar. as mãos, no entanto, se confundiram com isso, e uma continuou a fatiar enquanto a outra esqueceu de se mover e, ainda com os olhos fechados como reflexo do bocejo, sentiu a faca entrar em sua carne, respondeu rapidamente, evitou que o corte fosse mais profundo. mas, ao olhar para o indicador machucado, ele não conseguiu entender muito bem o que estava vendo. esperava um pouco de sangue, talvez um corte grande o suficiente para que necessitasse ir ao pronto socorro e alguns pontos, mas o que jorrava por seus dedos era um líquido azul elétrico e muito mais ralo do que seria de se esperar de sangue, e, para piorar, era uma torrente incessante. não doía muito mais do que um corte normal, e ele aproximou o dedo dos olhos para conferir. não parecia haver nenhuma dúvida, o líquido estava saindo dele, e era um corte normal, até doeu um pouco mais quando separou a abertura em sua carne para observar. não lembrava de ter sangrado azul antes. provou um pouco do liquido azul, que agora ia abaixo no ralo da pia, e era doce, como sorvete ou algodão-doce, nada ferroso. talvez fosse algum tipo de diabetes, que deixa o sangue doce e dificulta a cicatrização, mas não conhecia nenhum tipo que deixasse o sangue azul. isso não era motivo de preocupação, não era médico, até onde sabia aquilo era completamente normal. lavou o dedo e fez uma atadura precária, que ficou encharcada de líquido azul em poucos segundos. Substituiu-a por uma toalha e foi para o hospital.
A sala de espera lembrava vagamente sua cozinha. Iluminação fria e uma impressão geral de limpeza. o pronto-socorro parecia estar num dia pacato. apenas três pessoas estavam esperando atendimento quando ele chegou: duas crianças, uma delas ainda de colo, que não parava de chorar, acompanhadas, e um senhor que aparentava ter mais ou menos três séculos de vida, com pelos no nariz e sobrancelhas incomensuravelmente longas. seu nariz lembrava um pimentão, mas podia ser culpa dos óculos que usava. não havia mais ninguém na sala, e uma pessoa apenas abria a porta para chamar a próxima a ser atendida. o bebê foi primeiro, depois o idoso e então a outra criança.
Todos haviam sido chamados de forma relativamente rápida, mas quando não tinha mais companhia o tempo pareceu parar. o relógio na parede movia os braços de forma audível. a televisão estava desligada. ele praticamente esqueceu a toalha laranja que ia lentamente formando manchas azuis. esperava sem saber mais muito bem o que. mesmo quando olhava para baixo, para a toalha, só conseguia pensar que era uma cor bonita. o relógio tic-taqueava inutilmente. não conseguia escutar nenhum outro som. ficou um pouco preocupado, se não teria ficado surdo, e que o relógio não estivesse na parede, mas em sua cabeça. começou a achar estranho não terem vindo chamá-lo ainda, talvez não lembrassem que estava lá. talvez a pessoa que chamava tivesse caído no sono. nesta letargia, seria difícil julgar. as manchas cresciam lentas e silenciosas. primeiro dispersas, como um dálmata, apenas em cores que seriam mais fáceis de imaginar num personagem da vila sésamo. depois o laranja se tornou mais escasso. o tempo andava sem ir para lugar nenhum. ele dormiu de olhos abertos, e só foi acordado por um outro som, igualmente rítmico, o de gotas de líquido azul caindo da toalha em direção ao chão de cerâmica branca. só então percebeu que tinha dormido não apenas os olhos estavam abertos, mas também a boca. aquilo devia lhe dar uma impressão de infinita estupidez, aquele olhar para o nada, mandíbula caída, toalha azul na mão. cerrou os lábios e piscou, como se para voltar ao normal. se levantou e começou a andar de um lado a outro, para não dormir novamente. sua paciência era descomunal. quando menos percebeu, estava caminhando no ritmo do relógio. apesar de, a esta altura, já estar praticamente certo de que o haviam esquecido e abandonado ali, não lhe ocorreu que deveria deixar de esperar e buscar alguém. e, se pensou nisso, não levou a ideia a cabo. era uma espécie de loucura que o impedia e o invadia lentamente. a toalha já estava completamente encharcada. não servia mais para nada. o trajeto circular que fazia repetidamente estava sinalizado por respingos azuis. ele não sabia se uma pessoa poderia sangrar tanto assim e continuar bem, mas não sentia nada demais. mesmo o dedo não doía, a não ser que mexesse na ferida. tic-tac. tic-tac. nada acontecia. por puro tédio começou a escrever nas paredes brancas, como sua mente estava vazia, escreveu a receita que planejava fazer quando se cortou. completa com ingredientes, quantidades, modo de fazer e de servir. em letras grandes. lá fora escurecia. a próxima receita na parede foi escrita em letras menores, e a seguinte da forma mais compacta que pode. abstraiu o som do relógio. já era noite quando terminou a primeira parede. infelizmente as partes mais altas ainda estavam em branco, não as alcançara nem mesmo subindo na cadeira de espera. olhou para a parede seguinte e já conseguia imaginar como as receitas configurariam nela, escolhendo cuidadosamente cada uma. a porta se abriu, ele ouviu seu nome ser chamado e foi em direção à voz. a pessoa dona da voz lhe indicou uma porta, e ele entrou.

A médica parecia cansada, como se seu turno estivesse durando horas a mais do que devia. claramente não era a aparência de alguém que havia passado as últimas horas sem fazer nada, então ele concluiu que deveria haver uma outra sala de espera ou que alguma emergência a havia exigido sua atenção. ele contou o que havia acontecido em poucas palavras e mostrou à médica o ferimento. ela ergueu uma sobrancelha, talvez surpresa, mas não disse nada. ajustou os óculos e analisou o ferimento, perguntou se doía e ele disse que não. continuava a jorrar líquido azul, mesmo a vazão não se alterara. a médica suspirou, o tipo de suspiro que mostra que seu prospecto de finalizar seu expediente acabara de sair pela janela. chamou um enfermeiro, que veio equipado para retirar uma amostra de sangue. não dava para esconder que o liquido que encheu a ampola era azul. o enfermeiro exclamou em surpresa, a médica o reprovou com um olhar sério. não se deve mostrar esse tipo de reação frente a um paciente. o enfermeiro se foi. a médica pediu que o paciente esperasse e também se retirou. felizmente desta vez sua paciência não foi testada. voltou acompanhada por outra médica, mais alta do que a primeira. enquanto observavam o sangramento, se é que se podia chamar assim, falavam com um jargão que o paciente não conseguia entender. mas ele não fez perguntas. ao invés disso substituiu, em sua imaginação, as palavras que não entendia por outras, que lhe dissessem algo. uma palavra que se repetia muitas vezes se tornou açafrão, por ter uma sonoridade semelhante, outra por sautée, por parecer vagamente com um estrangeirismo. só voltou a si quando as médicas lhe perguntaram algumas coisas, sobre sua alimentação, sobre sua rotina, sobre históricos de doença. ele lhes disse tudo, mas acreditava que as perguntas haviam sido feitas mais por protocolo do que por poderem dar alguma pista do que estava acontecendo. a doutora alta saiu e deixou a outra acompanhando o paciente. não trocaram nenhuma palavra. desta vez a espera foi um pouco mais longa, mas nada que se aproximasse daquela antes de ser atendido. apenas os suficiente par gerar um leve desconforto com o silêncio, coisa completamente natural quando dois seres humanos estão no mesmo lugar mas não se comunicam por algum tempo. a doutora deveria estar buscando em sua memória algum precedente pois sequer fez algum comentário sobre o tempo ou algo do gênero. quando voltou a segunda médica trouxe consigo um terceiro, que ao ver a situação não conseguiu esconder um sorriso de canto de boca, que se inverteu quando ouviu que o líquido na seringa ao retirarem uma amostra de sangue fora igualmente azul. saiu ele mesmo e voltou preparado para refazer o teste. o resultado foi o mesmo e ele foi embora cabisbaixo para não mais voltar. as duas decidiram que seria necessária uma bateria de exames, que precisavam do resultado da análise do sangue. o paciente foi levado a um quarto. trocaram suas roupas, fizeram com que a mão com o corte ficasse pendendo da cama e abaixo dela colocaram um balde. mesmo depois de terem costurado o ferimento, o liquido vazava, embora agora mais lentamente. o balde ficou cheio em três horas e vinte e sete minutos. pouco depois de o substituírem por um vazio, trouxeram o jantar. comida de hospital. o paciente fez uma careta ao provar e deixou de lado. fechou os olhos e imaginou as comidas cujas receitas escrevera na parede da sala de espera. começou a salivar em abundância, a ponto de um filete escorregar bochecha abaixo. ao abrir os olhos e olhar a macha, descobriu que sua saliva estava verde. 

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Onde levou o bilhete

Eu não sei exatamente o que aconteceu naquela semana, antes e depois do incidente, estava preocupado demais com meu novo emprego e a mudança e tudo mais e os dias passavam muito depressa, além do calor que fazia. A memória que eu tenho foi daquele dia e parcialmente daquela noite. Dessa o que sei foi que com certeza desmaiei na cama, bêbado, lá pelas dez horas da noite, um horário mais cedo do que eu costumo dormir e que não pude escolher, as circunstâncias e o álcool acabaram me nocauteando. Pois bem, as circunstâncias foram duas: a primeira é a de que não havia dormido bem na noite anterior já que, além da ansiedade pela mudança de casa, a mudança de horário me roubou uma hora de sono de acordo com o horário de verão; já a segunda é a que compõe essa história e que relembrarei nessa página. Lembro de estar cozinhando o almoço, acho que era coisa rápida, algum macarrão, quando escutei uns gemidos. Primeiro achei que era o gato e olhei ao meu redor com ar de preocupado para checá-lo, mas ele não estava comigo. Pensei em procurá-lo mas parei por aí, não me preocupei mais, ao contrário, despreocupei-me ao perceber que estava sendo bobo, jamais me preocuparia  com o gato, e afinal e contas ele sempre fazia uns barulhos estranhos mesmo. Foi quando precisei ir ao banheiro, logo após da lembrança do gato, passando pelo corredor iluminado pela da grande janela ficava de frente com o muro que separava a casa com a casa do lado, que escutei novamente os gemidos, e dessa vez o som era mais alto. Passava pouco do meio-dia e o sol batia forte naquele muro conforme a luz refletia para dentro. O sol fez com que, além da curiosidade pelos gemidos, eu parasse ali durante alguns segundos afim de me observar o dia e espairecer. Mas sim, os gemidos vinham do vizinho. Não eram de sexo, nem de criança, nem de bicho. Eram gemidos de dor.
Concentrado naqueles sons que passavam por cima do muro, de repente pude escutar a voz da vizinha. Comecei imediatamente a especular. O marido era um cara tímido, mas das poucas vezes que nos falamos abertamente parecia muito simpático, e por esse motivo era meio estranho pensar que ele poderia tê-la agredido. A vizinha, no entanto, possuía certa agitação em primeira vista, mas o tempo a sublimava logo em alguma melancolia. Ela fazia lembrar uma dessas mulheres que sonham jovens e em segredo com algum tipo de futuro, mas que em algum momento acabou sendo intimada ou cobrada de um casamento, com seus pais dizendo que está na hora e que se não for agora não será nunca mais, que eles não podem mais sustentá-la e etc. Parecia ironicamente que o sonho perdido dessa mulher em particular era ser freira, levar a vida nu convento. Quando os via juntos, o marido e a esposa, ele sempre estava em primeiro plano alguns passos a frente, mas não por vontade dele, sempre a empurrava e a puxava junto, como se faltasse a ela algum bom senso de sinergia necessário para encarar junto dele as situações sociais. Além disso, e essa é uma característica importantíssima, ela era acolhedora demais, e não só com ele, mas também com os outros. Suas falas expressavam constantemente uma preocupação com o bem estar do marido e o conforto dos que estavam ao redor, e com clareza parecia viver sob esse propósito.
Escutei um grito, fraco, sofrido, destacava-se entre os gemidos. Com ele tive uma surpresa: os gemidos eram do marido, ele sofria. Eu tinha o número de telefone deles, poderia ligar e perguntar se precisavam de ajuda, cogitava, ou poderia chamar uma ambulância, a polícia, enfim, não sabia o que fazer. Não deveria ser nada, deveria despreocupar-me dos gemidos como fiz com os supostos gemidos do gato. Achava eu que vizinho devia ter se machucado ou coisa assim. O que veio a mente em seguida, porém, foi que sendo pouco tempo após o meio dia, a esposa teria acabado de chegar em casa do restaurante. Esqueci de mencionar que nessa época a esposa fazia meio período num restaurante ali perto. Parece que uma amiga era a dona e também uma ótima cozinheira, e por relatar que havia recebido reclamações do marido, insatisfeito com sua habilidade, ou falta de, na culinária, a esposa conseguira uma ajuda da amiga experiente com uma espécie de emprego construtivo, e ainda a deixava preparar um almoço no restaurante para levar ao marido como prova de seu esforço. Tendo acabado de chegar em casa então, será que ela havia encontrado o marido já em dor ou será que num ato súbito de realização da própria vida quis quitar as dívidas com seu futuro desperdiçado e na falta de resposta teria partido pra cima do homem com e o machucado? Até mesmo podia ser um caso amoroso, de ter encontrado o marido com outra e ter trocado em tal situação o juízo pela violência. Não soubera dizer naquele momento apesar de aproveitar o exercício.
No fim, acabei ligando. Fui até a sala em direção ao telefone e reparei que de lá também podia escutar os gemidos, agora ainda mais altos, numa questão de talvez uns três minutos. Ela atendeu o telefone:

_Alô?
_Dona Velma?
_Sim, quem é? - sua voz era meio tremida
_Seu vizinho, X., vocês estão precisando de ajuda?
_A-a-ajuda? Não, não precisa, já liguei, estão vindo!
_O que está acontecendo? Quem está indo? Não tenho como não ouvir daqui de casa...
_Desculpe, a ambulância, meu marido está com muita dor, não sabemos o que é!

Nesse momento houve o som da sirene da ambulância descendo a rua. Desligamos o telefone imediatamente sem nos despedir. Ela e eu, como se não tivéssemos mais o que falar nem explicações para dar ao desligar o telefone. Peguei meus documentos e meu celular e desci imediatamente para a rua. Lembro-me de vê-la na porta de sua casa, enquanto tiravam o marido de casa com uma maca. Não estava em prantos, mas tinha um choro contido, estava assustada. Observei a situação e fui até ela. O marido, continuamente em agonia, foi rapidamente posto em posição no carro e não consegui vê-lo com atenção. O homem da ambulância fez sinal que saía e perguntou se eu poderia fazer a gentileza de levar a senhorita ao hospital em minha própria condução. Perguntei então se ela queria carona para o hospital, ela disse muito obrigado e que queria sim. Fomos. A partir daí as coisas foram muito rápidas e loucas. Chegamos no hospital e a ambulância que entrara por um local especial já estava vazia, o pessoal já havia enfiado o marido pelos corredores e alguns enfermeiros levaram a mulher e nos separamos, acho eu que lhe perguntavam coisas de praxe enquanto entregavam papéis para preencher. Tudo isso foi com muita pressa sem que tivéssemos tempo de refletir no assunto, o que fez a situação parecer desesperadora, ou mais grave do que parecia desde que ouvi os gemidos na cozinha. Ela voltou, não disse uma palavra e sentou-se ao meu lado na sala de recepção. Disse a ela que esperaria, para ela se tranquilizar. Uma TV ligada para nos distrair não cumpria esse seu papel e eu pensava cada vez mais quanto tempo teria que ficar ali. Enquanto aguardávamos, ambos visivelmente cansados, vieram nos dizer que o haviam sedado por causa de seu estado inquieto e faziam exames. Ela fez como se fosse perguntar sobre a situação do marido mas o enfermeiro deu as costas e saiu em direção ao corredores antes que ela pudesse. Senti dó. Foi uma eternidade até que ela fosse chamada novamente, dessa vez pelo mesmo enfermeiro que tinha escapado aquela hora. Não foi levada a sala alguma, apenas a alguns metros a frente, no canto que se formava na sala antes da entrada para o corredor, e vi, lembro exatamente, como de repente a mulher quase caiu no chão dando um berro estranhíssimo, daqueles que agente não conhece até ouvir. O marido, segundo aquele infeliz e eleito enfermeiro, havia falecido. Não tenho a mínima ideia como é que fui parar em casa e que horas eram, mas lembro-me que durante esse tempo de choque e frenesi até o cheiro do meu próprio escapamento, ao estacionar o carro em casa, a mulher saiu e voltou várias vezes em minha presença. Numa dessas vezes fui chamado junto com ela para uma sala separada onde deram-na alguns calmantes, um copo d'água que ela não chegou a beber por inteiro e que provavelmente era o segundo ou terceiro que recebia, e uma imagem de raios-X do seu marido, mostrando um esbranquiçado anormal aonde era provavelmente seu estômago. Explicaram-nos que ele havia engolido um pedaço de papel ainda naquela manhã, e que devido a uma anomalia genética hereditária, uma forte rejeição à tintura no papel teria dado início a um processo em cadeia e não me lembro o nome disso e daquilo e que o acabara matando. Foi horrível. Mas o fato intrigante foi o de que ao retirarem o papel na autópsia, logo em seguida, puderam desdobrar um bilhete que dizia:
"Querida Velma, não suporto mais essa vida aqui e não suporto mais você, gostaria de ter aguentado um pouco mais e que as coisas não tivessem que acabar assim. Adeus."
Deixando em aberto várias questões. Teria ele se matado? Na minha opinião, não. Não é possível que ele soubesse sobre aquela história de doença genética e todo aquele papo de como engolir um papelzinho causaria sua própria morte, e ele nem tinha o jeito de bolar uma morte assim tão poética, até mesmo porque sofreu de dor por pelo menos durante uma hora antes de falecer. Mas então o que era aquele bilhete? Porque o tinha engulido? Além disso, tinha que tê-lo feito antes da mulher chegar em casa. A hipótese que formulei, mas que obviamente não posso comprovar e sobre a qual não tive a falta de escrúpulos para investigar mais na época com a vizinha, é que o marido, descontente com alguma coisa que acontecia em sua relação com aquela mulher, planejava ou se matar ou fugir dali, mas acabou se enganando com o horário e foi surpreendido pela mulher que chegava do serviço, logo quando posicionava seu bilhete de despedida, e para se livrar dele o engoliu, tendo como resultado a maldita rejeição e para fins práticos, a morte.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Casos de Amor (ou o Coelho e a Tartaruga)

(em resposta a um do Rafael Carnevalli)

Louco mesmo foi o romance
Entre Don Coelho e Dona Tartaruga:
Desde o começo, ele fugia de planos
Desde o começo, ela planejava a fuga

sábado, 10 de maio de 2014

Matar saudade

Nesses dias de espera à tua presente chegada
Floriram-se expectativas, anseios, imagens

Pouco antes deste momento eu já especulava
Algumas extravagâncias, passeios, bobagens

E agora impressiono-me, com alguma estupidez
O extraordinário de uma plena lucidez
Sou perdido no tempo um teu amigo
E sólido em ti, num cantinho, um meu abrigo

sexta-feira, 18 de abril de 2014

A segunda pessoa.

Os melhores sorrisos
São dados pela metade
E as maiores verdades
Taxadas de maldade.

***

Você acorda suando ao som do despertador. Era de se esperar, foi uma noite quente e você não tem ar-condicionado em casa. Talvez por culpa do calor você teve sonhos ruins, não exatamente pesadelos, mas o tipo de sonho que te deixa desconfortável e te acompanha por pelo menos algumas horas depois de despertar. Normalmente você teria acordado antes do despertador tocar e teria ficado na cama, já acordada mas ainda sem muita coragem para levantar, enrolando até não mais poder. O toque estridente costumava ser mais a voz da razão dizendo que era hora de deixar a preguiça para lá e começar o dia do que realmente algo que te impedia de dormir demais. Isso só fez com que a sensação de não ter dormido bem fosse ainda maior. Ainda assim, você se força a fazer aquilo que sempre faz: come alguma coisa que não é exatamente um café da manhã, se prepara para o dia que vai enfrentar, penteia os longos cabelos castanhos e ondulados para que não ficar parecendo com os restos mortais de quem você foi no dia anterior, checa se tem tudo que precisa na bolsa antes de sair de casa e tenta parece mais acordada do que morta-viva enquanto o faz.
O caminho para o trabalho é o mesmo já há tanto tempo que você já sublimou o quão desconfortável é. Felizmente não é tão cedo quanto poderia ser, as piores horas do transporte público já passaram, embora o seu trajeto esteja longe de ser agradável. Raramente conegue um lugar para sentar no ônibus, e hoje não foi exceção. Apesar de já não ser assim tão cedo, o dia ainda tem aquele aspecto cinzento das manhãs, mas você sempre achou que isso se devia mais ao seu estado de espírito do que à realidade, não é mesmo? Você quase cochila de pé, e a senhora não muito velha e apenas ligeiramente gorda que está sentada num dos assentos amarelos à sua frente sorri ao te ver pescar. Você não consegue distinguir, a essa hora, se era um sorriso de companheirismo ou zombaria, e você sorri de volta, preferindo acreditar no melhor das pessoas. Ela, no entanto, não se oferece a segurar a sua bolsa.
Eu não preciso descrever o seu trabalho, não é mesmo? Nem como você se sente sobre ele, ou como pensa sobre ser só um estágio e como podem ser as diferenças em lidar com um trabalho real quando acabar a faculdade. Se é que vai conseguir um trabalho de verdade depois disso. Você conhece muito bem as suas mágoas, e eu não estou aqui para revivê-las. Não vou falar da sua chefe, ou dos seus colegas de trabalho, essas pessoas não são importantes, não hoje, não nesse dia; você ainda está apenas meio acordada, e qualquer interação com essas pessoas é mais mecânica do que qualquer outra coisa. Em mais de um momento do seu dia você se surpreende não tendo certeza se você disse alguma coisa ou se apenas imaginou ter dito, ou de onde vieram as palavras que saíram da sua boca – pois seu cérebro sem dúvida não teve nada a ver com o parto delas – e sem ter certeza do que foi que alguém te disse, mas você faz o que é preciso e ninguém parece perceber qualquer diferença. Você chaga a se perguntar se essas pessoas ligam assim tão pouco para você, ou se você age assim normalmente, até perceber que você está até mesmo fazendo piadas e comentários sagazes, como você sempre faz, a única diferença é uma letargia que parece saída de algum filme da Sofia Coppola. Você não lembra de que algo assim já tenha acontecido antes. E no fim isso se revela como nem sendo algo assim tão ruim, o dia hoje foi cheio, como costuma ser vez ou outra, e isso te ajudou a não se cansar tanto. Talvez você só tenha se acostumado demais com tudo que faz diariamente. Apesar disso, agradece que hoje você não precisa ir para a faculdade e vai poder voltar para casa sem maiores consequências e quem sabe depois de uma noite de sono com a qual você já sonha, amanhã tudo tenha voltado ao normal.
Voltar para casa não é um processo muito diferente do de sair de lá. Por um momento você tem até mesmo a impressão de encontrar a mesma mulher que sorrira para – ou seria de – você pela manhã, mas não tem certeza, pode muito bem ser apenas um efeito da idade e tipo físico semelhante. Chegando em casa você se sente melhor. Tem até um ligeiro sentimento de que deveria arrumar o seu quarto, mas, olhando melhor, não está assim tão mal, pode deixar o pó se acumular por mais uns dias, até porque você tem coisas mais importantes para fazer. As provas vão começar em breve e você, obviamente, está com seus estudos atrasados. Ninguém diria que você é uma estudantes irresponsável, muito pelo contrário, a maioria dos seus colegas tende a elogiar – embora de forma não exatamente elogiosa – a sua capacidade de tirar notas boas; isso, você prefere ver dessa forma, é uma capacidade de tirar notas boas, é insegura demais para se rotular inteligente, e cobra muito de si mesma para dizer que as notas são fruto de um grande esforço. Pega um dos livros que tirou da biblioteca, deixa próximo um que é seu mesmo, para possíveis referências, comparações e lembranças e acha a folha de papel onde vinha fazendo anotações sobre a leitura. Se perde naquilo por algumas horas, e não é de todo diferente daquilo que aconteceu no trabalho, mas ao estudar esse distanciamento parece algo mais natural, de forma alguma problemático. Já estava tentando criar alguma desculpa para se afastar dos livros e procrastinar por algum tempo quando seu celular toca, ou melhor, vibra, ao receber uma mensagem.
É a sua amiga. Não preciso dizer qual delas, você sabe; aquela que sempre te convida para festas e para a qual você na maioria das vezes diz não, embora te machuque um pouco dizer não para ela, vocês tem se visto tão pouco nos últimos tempos, e você gosta tanto dela, e por isso vez ou outra acaba dizendo sim, só para ter uma chance de sair com ela. Nem sempre os resultados são bons, às vezes vocês mal conseguem falar, seja pela quantidade de álcool consumido ou pelo barulho que sempre existe em todos os lugares para onde ela te leva, outras vezes, no entanto é bom, por vocês conseguirem se reconectar, outras vezes, sem dúvida, é bom exatamente por causa do álcool e do barulho. Não estou dizendo que você não gosta de sair, você sabe disso, apenas que os lugares para onde essa sua amiga vai nem sempre são os que mais te agradam, e que nem sempre você está com vontade de sair, não é nada decepcionante ficar em casa numa noite de sábado vendo os seriados nos quais você está atrasada, mas periodicamente você também tem seus acessos e não quer passar uma noite de sexta em casa por nada nesse mundo, às vezes você sai durante todos os fins de semana por um mês ou mais, e nem mesmo o mal-estar inerente às segundas-feiras faz com isso tenha parecido uma má ideia, muito pelo contrário, isso costuma te divertir bastante. São raras as vezes que você sai durante a semana, no entanto, e começar a trabalhar só fez com que essas escapadas se tornassem ainda mais raras.
A mensagem que ela te manda te lembra que hoje é sexta, e que sair hoje não parece uma ideia assim tão ruim. E você responde que sim, sem o menor peso na consciência depois das horas que você passou estudando. É claro que depois, quando chegar o dia de  alguma prova para a qual você se sinta especialmente despreparada, a situação vai ser diferente e você vai praguejar contra as horas que devia ter passado estudando e não o fez, mas isso é uma inevitabilidade da vida, e essas inevitabilidades nós temos que aceitar e aproveitar conforme venham. Também não é como se você não se sentisse melhor ao reclamar, o que está aí para te provar que às vezes mesmo as coisas mais insignificantemente ruins podem ter um lado positivo.
Você se arruma para sair. Você se veste bem, todos dizem isso e eu concordo. Não sei, no entanto, se é uma coisa intrínseca ao seu bom gosto ou se reflete algum tipo de planejamento, de fabricação, esse é um dos segredos que você ainda me guarda, e que eu não me esforço em descobrir. Você diz que o jeito que você se veste é algo que simplesmente acontece, e eu não sei dizer se isso é modéstia ou verdade, e, no fim, não importa, o que importa é que o jeito que você se veste é completamente seu. E coisas superficiais como a forma de nos vestirmos acaba dizendo tanto sobre nós, não sei se te disse mas não julgar pelas aparências sempre me pareceu algo tão superficial, até mesmo uma falta de respeito, quanto de nossas histórias, de nossas personalidades, emerge em fenômeno? Quem foi mesmo que disse que nossa alma é, na realidade, o corpo? Aristóteles? Provavelmente. Mas isso são vãs digressões, voltemos a falar de você.
Você encontra com a sua amiga e vão juntas para o lugar da festa. É, surpreendentemente, algo muito mais tranquilo do que você esperava, e só depois de algum tempo você consegue perceber que é a comemoração de aniversário do cara com quem essa sua amiga tem saído já há algum tempo – você jurava que já tinham terminado, mas aparentemente não, ou talvez tenham voltado, quem sabe? – e que você já teve chance de ver em algumas situações. Você, no entanto, não lembra o nome dele. Você também não conhece a maioria das pessoas que estão ali, mas isso não te impede de se divertir, é claro. Além do mais, por mais que você possa não reconhecer, fazer amizades nunca foi uma dificuldade assim tão grande para você.

Me desculpe, eu disse que ia voltar a falar em você e assim tão logo volto a falar de mim. Esse é, afinal, o momento da história no qual eu entro. Você nunca tinha me visto antes. É aí que você me vê pela primeira vez. Eu me reservo ao direito de ficar calado e não te dizer se eu já tinha te observado antes, de longe ou de perto, tem algo de romântico em deixar essa dúvida, dizer que eu posso ter estado tão próximo de você antes e ter sido completamente ignorado. Mas não dessa vez. Você me vê através da sala, que não é muito grande, mas estamos longe o suficiente para que nossos olhares se cruzem apenas casualmente. Eu te conheço bem o suficiente para saber o que em mim te chamou a atenção, eu sei que mesmo do outro lado da sala você prestou atenção nos meus caninos pronunciados, que não raro chegaram perto de te machucar, no meu cabelo, pouco mais curto que o seu, e tão parecido com ele, também castanho e também ondulado, o meu estilo meio gótico, mas sem muitos exageros. Quando nossos olhares finalmente se fixaram um no outro, eu soube que você gostou dos meus olhos escuros tanto quanto eu gostei dos seus cor-de-mel. Eu sabia tanto quanto você que aqueles olhares estavam fadados a se atraírem, como se atraírem, o que eu não fazia ideia – e tenho certeza que você também não fazia – era que algum dia, nem tão distante assim, nós íamos nos conhecer a ponto de que eu fosse conseguir fazer uma descrição assim tão detalhada daquele seu dia, daquele momento em que nos encontramos. 

Tradução de música incompleta e Fragmento de auto-ajuda literária.

Ela deve estar em alguma sarjeta
Esperando a alvorada e os metrôs
Meio bêbada; tentando esquecer,
Não pensar que em algum lugar
Eu estou a esperar a morte,
Cuspindo saliva e sangue
No assoalho do banheiro,
Carcomido por inteiro,
Rogando a deus pra que ela venha,
Que me salve a vida e me foda,
Como só ela pode.

***


A função de quem escreve é a de dar sentido a algo que, por princípio, não tem sentido algum, a vida. Nada mais natural, portanto, que o começo das carreiras literárias – embora eu tenha algumas ressalvas a utilizar uma palavra tão não-literária quanto carreira numa situação como essa – seja uma tentativa de dar ordem à própria vida de quem escreve. Disso decorrem as centenas de primeiras obras que são ao menos em parte autobiográficas, e também o número ainda maior de estórias de amor. Talvez seja algo comum à categoria que acaba se dedicando à escrita, afinal, não raro é ouvir comentários que ressaltam a necessidade de uma sensibilidade desenvolvida, de capacidade de observação e de solidão. Não é difícil ver como essas características geram pessoas emocionalmente disfuncionais, e com grandes dificuldades de relacionamento, que precisam ser exorcizadas na escrita, que pode ser também uma forma de prática ou memória do fato real, pois as coisas parecem muito mais verdadeiras e passíveis de compreensão quando estão no papel. A vida real é algo muito mais complexo que a mais surrealista das novelas, ou mesmo do que o Finnegan’s Wake. Eu mesmo poderia dizer que, na minha experiência, tento fazer algo assim, poderia mentir que foi mesmo isso que me aproximou da literatura, mas isso seria só uma forma de tentar parecer especial, seja como indivíduo ou como classe. A busca por sentido não é especial a quem escreve, e quando procuramos o sentido da nossa, sejamos nós quem formos, o primeiro passo é olhar para quem está perto, para as pessoas com quem nos relacionamos. Eu acho uma forma de pobreza a literatura que foca no romantismo e esquece a amizade. Mas a relação amorosa sem dúvida é onde o sentido parece – e pode ser apenas uma aparência ou não – mais forte, mais claro. Talvez por isso seja tão valorizada. O amor é a busca do nosso sentido no outro. E quanto mais incerto parece o mundo, maior se faz a dependência. A diferença é que algumas pessoas o fazem na vida real, procuram um amor material, enquanto outros se dedicam outras coisas, procuram um amor metafísico, na literatura ou na religião ou na política ou no que for. E é tão mais fácil essa segunda opção, é tão mais difícil que alguma dessas coisas nos decepcione quando comparamos isso a algo tão carnal e falível quanto um ser humano, que também tem suas vontades e fraquezas e, principalmente, a sua própria busca de sentido. 

terça-feira, 15 de abril de 2014

Bons irmãos

Somos filhos do poder
Força e lei
Lei pela força
Força para lei
Somos bons irmãos
Respeito, cordiadilade
Somos super-heróis
Nós, e mais ninguém
Mais do que animais