sexta-feira, 26 de julho de 2013

Tríptico

Eu simplesmente havia esquecido que os orelhões existiam até que você me fizesse lembrar. Acho que essa deve ser uma daquelas coisas que acabam entrando sob nossas peles, seja por simples hábito ou por determinação social. Ou seja, não esqueci que as pessoas precisam de telefones públicos, simplesmente esqueci que eles existiam. Isso é, até ver você usando um deles. Aquela não foi a primeira vez que te vi, é verdade, mas acho que poderia muito bem contar como tal. Eu já tinha te visto. E você, provavelmente, já tinha me visto também; afinal, estávamos sempre nos mesmos lugares, nos encontrávamos ao menos uma vez por semana, sempre mais por acaso que por destino.

Eu estava conversando com algumas pessoas, pessoas que nem sequer eram próximas de mim o suficiente para serem amigas. E, no espaço entre as duas, via você mais à frente. Assim como todos os nossos encontros antes, foi mais por acaso que por destino que nos vimos. E isso me pareceu bom, já estava cansado demais do destino, das coisas que tinham que ser, das coisas que simplesmente eram e que não podiam ser ignoradas. Ouvi a tua voz, enquanto falava no telefone. Já a tinha ouvido antes, de longe, mas nunca tinha percebido como era doce. Não entendia o que dizia, mas entendia que era doce, e que era assim naturalmente, que não era uma situação. Meus amigos – não aquelas pessoas com quem então estava conversando, mas meus amigos de verdade – me diziam que eu tinha um fraco por vozes feias, especialmente as muito agudas, as que davam a impressão de estar prestes a quebrar. A sua não era assim, não era rígida o suficiente para quebrar, não era vidro, era algo mais líquido, mas viscoso. Como mel, ou como gozo.

Antes mesmo de seus olhos encontrarem os meus, você sorria, provavelmente para a pessoa do outro lado do telefone, aquela pessoa que infelizmente não podia ver aquele sorriso. Era um sorriso quart-bird-drawing-glasses-hipster-owl-Favim.com-63324e seria difícil de se apreciar, era um sorriso muito diferente do que se espera encontrar em alguém com vinte e poucos anos. Era um sorriso difícil. E talvez por isso era um sorriso que me agradava. E então nossos olhos se encontraram. E eu olhei fundo naquelas profundezas protegidas por aros grossos. E você desviou o olhar, claramente envergonhada, e continuou sorrindo para o telefone.

Pouco depois, com você ainda ao telefone, meus olhos acabaram por voltar a vagar até você. E dessa vez era eu o observado, e dessa vez foras os meus olhos que fugiram com vergonha. E foi então que eu soube.

***

Meus amigos, aqueles mesmos que diziam que eu costumava gostar de vozes feias, também costumam dizer que, quando me apaixono por alguém, não consigo ver os defeitos daquela pessoa. Eu não discuto, pois não faz muito sentido discutir esse tipo de coisa, no fim as ideias que as pessoas fazem de nós são tão difíceis de mudar que chega a valer mais a pena simplesmente se utilizar delas como instrumentos. Existem algumas – embora não tantas quanto eu gostaria – vantagens de ser visto como um idiota romântico. Especialmente quando se quer ser um artista. Quando as pessoas te veem desse jeito, elas imprimem uma perspectiva diferente às coisas que você escreve, ou ao menos às suas ambições.

Mas, o que quis dizer é que não é verdade o que dizem. Ao menos não exatamente. Não deixo de ver que alguém tem defeitos quando me apaixono por essa pessoa. Assim como não é uma questão de qualidades o fato de gostar ou não de alguém. É simplesmente que, quando se está apaixonado, esses defeitos, assim como as qualidades, não fazem diferença. Não existe paixão por características. Não se gosta de alguém porque aquela pessoa é inteligente ou divertida ou bonita. A paixão vem do simples fato de aquela pessoa ser quem ela é. Não importa se ela gosta de trident ou tic-tac, de folk ou jazz. Não importa se é madura ou infantil, loira ou morena, lê Dostoievsky e vê filmes iranianos ou lê Cinquenta Tons de Cinza e vê Tim Burton. Só importa se é ou não a pessoa que você quer. E, quando é a pessoa que você quer, você entrega sua alma. Um poeta da minha terra certa vez escreveu que “só é seu aquilo que você dá”. Como um beijo. Como a sua alma. É por isso que paixão é um exercício espiritual, e não físico. Não se pode dar um corpo, um corpo não pode pertencer a ninguém; não segue nenhuma norma de conduta, nenhuma moral. A não ser, claro, o desejo.

***

Descobrir coisas novas guarda um prazer muito específico. Talvez isso seja só para algumas pessoas, ou outras simplesmente tenham coisas mais interessantes em suas vidas para darem tanta atenção assim a algo tão simples, mas para mim é assim. Descobrir novas bandas, novos livros, novas formas de extrair pequenos prazeres de todas as situações e todas as dores, mas dentre todas as descobertas, as que tem uma dimensão mais mística, mais especial, provavelmente é a de descobrir lugares novos. Acho que por isso tantas pessoas gostam tanto de viajar, essa é a forma mais óbvia de se fazer isso. Quando viajamos temos a chance de viver, mesmo que por pouco tempo, imersos em um mar de coisas novas, todos os rostos que encontramos nas ruas são novos, todos os sons são mais ou menos alienígenas, e todos os lugares, claro.

Mas viver em uma cidade como São Paulo, enorme e caótica, significa ter ali, ao alcance da mão, um número inimaginável de lugares novos para se conhecer. Não quero dizer que isso substitua o prazer da viagem, mas simplesmente que podemos experimentar esse prazer da descoberta já onde vivemos. Não que seja um trabalho fácil, porque não é. Fácil é nos conformarmos a uma rotina, aos mesmos lugares todas as vezes. Coisa quase inevitável, especialmente se considerarmos que, mais cedo ou mais tarde, alguns lugares acabam se vinculando aos nossos sentimentos. Você certamente tem um café ou uma sala de cinema que significa muito para você, assim como eu. Talvez sejam até mesmo os mesmos lugares. E é por isso que não raras vezes alguns lugares mágicos parecem se esconder bem debaixo de nossos narizes; nos acostumamos demais a certas coisas.

Talvez seja uma coisa minha, mas tenho o costume de relacionar lugares a pessoas. Certos lugares se atrelam vivamente às memórias de alguém que chega a ser difícil dissociar as coisas. E talvez por isso seja tão importante para mim que novas pessoas sejam relacionadas a lugares novos, relacionar um único lugar a muitas pessoas gera uma confusão emocional muito grande; embora, deva admitir, que já fiz isso mais de uma vez.

E é exatamente por isso que o que aconteceu com você tem um valor maior do que eu poderia esperar. O meu inconsciente deve, de alguma maneira, ter achado que isso foi algum tipo de sinal. Mas mesmo minha consciência não está tão certa de não ter sido. Afinal, se existem lugares que se escondem sob nossos narizes, aquele era o mais óbvio deles. Eu nunca imaginei que existisse uma livraria ali, e, certamente, não uma livraria tão interessante. É uma livraria pequena. Ou melhor, estreita, o que faz com que as prateleiras se coloquem de forma a aumentar o espaço útil, o que causa uma primeira impressão de confusão, de estarmos perdidos num labirinto de livros. O que faz com que eu e você tenhamos um lugar onde ninguém pode nos ver, ali na seção de filosofia. Você olha para as prateleiras, fingindo procurar por algo e eu olho para você, e estaria mentindo se dissesse que o meu olhar também não parecia procurar algo. E então você se vira para mim e me olha com aquelas profundezas contidas pelos aros pretos, como se me olhasse pela primeira vez. E sorri, sorri com doçura. E meus dedos se enlaçam com teus cabelos de um castanho-claro violento e cheio de dúvidas. E teus lábios são doces, tão doces quanto podem ser, e parece que um pouco daquilo se transmite pra mim. Não posso dizer que já tenha me habituado a teus beijos doces, mas é doce o esquecimento que me trazem, e amarga é a saudade. É doce esquecer. E você se curva, e eu te levanto até que sente numa das prateleiras. Provavelmente sem que você mesma perceba, sem que ninguém veja. Por que será que tem de ser sempre assim, sem que ninguém veja? Deve ser culpa minha, em algum nível, mas aquele não era o momento de se pensar nisso. Não era hora de se pensar no que fosse; afinal, se existe algum momento em que se perdoa a falta de pensamentos e ao se beijar alguém tão doce, numa livraria tão bonita, ao som de alguma coisa que deveria ser Chet Baker ou algo parecido (por que sempre toca tanto jazz nessas livrarias pequenas?). E ali vi tuas solas vermelhas, teu cabelo caindo de um dos lados do rosto de uma forma que parecia ser milimetricamente calculada, a calça de jeans escuro apertada, a blusa de listras brancas e azuis alegremente folgada. E então parar, ambos tentando respirar, mas apenas reutilizando o mesmo ar que já tínhamos respirado. E então parece ser hora de sair daquela pequena e aconchegante livraria e ir para outro lugar. Mas no caminho para fora, meus olhos se deparam com o livro novo do Gaiman. Que estive esperando chegar nas livrarias que eu já conhecia. Pareceu como um outro sinal. Queria ler aquele livro em inglês, mas achei que seria interessante comprar aquele, se não servisse como recordação ao menos serviria para que lesse quando voltasse para a minha terra natal, uns três ou quatro dias depois.

domingo, 7 de julho de 2013

A alergia de J.B.

J.B. aceitou o convite de sua amiga para jantar.
- Que delícia este peixe, o que você pôs aqui?
- Um pouco de alho, um pouco de manteiga - ela lançou-lhe uma piscada - um pouquinho de amor.
J.B. arregalou os olhos, tentou cuspir fora, foi hospitalizado.
J.B. era alérgico a amor.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Corridas de cavalos

(considerações não necessariamente relacionadas sobre a arte da escrita)

Você vai estar sentado na sua cozinha, entre um e outro sanduíche, lendo um verdadeiro clássico - que você já queria ter lido faz tempo, mas ainda não tinha. Se você for como eu, e gostar do pão mais macio, vai preferir esquentar seus sanduíches no microondas. Mas a minoria das pessoas é como eu, e você provavelmente vai usar uma tostadeira, pro seu pão ficar crocante, ou comer sanduíches frios mesmo.

Tudo bem.

A coisa é que, entre um sanduíche e outro, enquanto acaba a visita à amante e todos se preparam para a grande corrida de cavalos, você vai se lembrar que já leu alguma coisa falando à respeito disso. Foi um tratado sobre literatura? Foi uma crônica? Foi uma piada? Claro que não foi uma piada... Foi na escola? Cursinho? Alguma matéria alternativa, já na faculdade mesmo? Será foi só um texto que você leu porque queria? Você vive fazendo esse tipo de coisa, afinal, ou nem estaria por aqui agora...

E não só o texto falava sobre corridas, ele falava sobre cair do cavalo. Sim, você terá certeza agora, o texto tratava de uma queda. Mas os detalhes ainda estarão muito confusos na sua cabeça, e, caramba!, agora você tem é que prestar atenção à corrida em si, não de gente falando dela fora de hora.

(Em um parênteses, você vai ficar um pouco decepcionado por já saber que vai haver a queda. É chato mesmo. Você estava feliz por ter conseguido começar um livro daquele calibre, pensando que não sabia nada da estória, que cada parágrafo seria uma surpresa, e de repente estará lá a queda do cavalo, direto na sua testa. E o parênteses não será à toa! Bem no finalzinho dele, você se lembrará, ou terá a impressão de se lembrar, que, em consequencia do tombo, o cavaleiro morrerá!)

 Será isso mesmo? O cavaleiro morre? Não pode ser! As consequencias que isso traria para a estória seriam... Você continuará lendo, incerto. Cada obstáculo que a égua transpõe será um alívio, cada avanço, uma alegria - ainda que você não goste - no mínimo, até então você pensará que não gosta - do oficial que a cavalga.

Mas os sinais estão lá. As pistas de que as coisas vão dar errado lhe virão uma por uma, retroativamente, e você se dará conta. Sem saber muito bem por qual processo, sua mente deslizará fora de seu controle, reorganizará insinuações, analogias e evidências do livro e fará brotar memórias do texto obscuro que lhe atrapalhou a leitura, e você seguirá lendo, com a certeza que os sanduíches tem de suas mordidas: o Vronski cai do cavalo e morre.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Mayhew Boys, Attaway Girls – Pt. 3

3  - Onde nossa estória encontra seu fim.

91df6c9de25b59e518e9b309e92e-postNa época em que Mama Mayhew foi até Old Nick o trabalho de um demônio era muito mais fácil. Nick simplesmente tinha de esperar em algum bosque, ou pântano ou caverna e aproveitar a beleza da paisagem enquanto isso. Era muito raro ter de ir até a cidade naquela época. Não que não houvessem pessoas interessadas, mas o mercado rural ainda era mais lucrativo. Old Nick lembrava claramente de Mama Mayhew quando ainda jovem. Não era uma mulher bonita, e talvez por isso achasse que fosse necessária a ajuda do diabo. Estava errada, é claro, mas todas as pessoas que pediam ajuda a Old Nick estavam irremediavelmente erradas, se não em outra coisa ao menos em achar que esse tipo de contrato poderia ser vantajoso para alguém que não o espírito sulfúrico. A jovem, como muitas outras pessoas antes dela, tentou arranjar um acordo que lhe fosse vantajoso. Ignorava que o diabo era sábio não por ser diabo, mas por já perambular pelo mundo a muito tempo, e, portanto, por já ter visto tudo que poderia ser visto em se tratando de engenhosidade humana. Ainda mais uma engenhosidade tão campestre, tão simples. A mulher lhe pedira um número exorbitante de desejos realizados em troca de sua alma. Old Nick não queria se dar ao trabalho por tanto tempo. A mulher achava que ter muitos pedidos poderia ajudá-la no caso de uma necessidade, no caso de fazer uma escolha errada e precisar desfazê-la. Contradizer tal crença seria, para Old Nick, ir de encontro com toda sua natureza, contra o instinto que o ordenava a enganar os seres humanos, seja qual for a situação. O homem listrado – naquela época as listras não estavam no terno, mas já estavam no cabelo, e mesmo na pele tatuada, que ficava à mostra sob um manto rústico feito de algum animal estranho que dava a impressão de ter uma pelagem ao menos vagamente listrada – tratou então de fingir negociar com a mulher. Naquela época as negociações, especialmente as desta espécie, não eram seladas com meio-sorrisos ou apertos de mã0, os dois negociavam através de gritos guturais, e quando Mama Mayhew achou ter convencido o demônio a lhe dar três desejos, se achando muito inteligente por tê-lo feito, o acordo foi selado com a jovem aplicando um beijo no traseiro de Old Nick. Alguns séculos antes o demônio teria sodomizado a moça, para que ela permanecesse virgem, como era de seu desejo, mas Old Nick aprendera que o tempo fazia com que as pessoas naquelas partes do mundo passassem a se achar muito civilizadas para tais atitudes. Aparentemente, no entanto, ainda não eram civilizadas o suficiente para deixar de fazer acordos com as forças infernais.

Essa tendência, Old Nick perceberia, se acelerou de formas inconcebíveis nos anos que se seguiram. A ponto de, quando chegou a vez de Mr. Attaway fazer o seu acordo, o Old Nick de então ser completamente diverso do que fizera o acordo com Mama Mayhew. Mais do que a época, no entanto, o que mais diferenciava o processo dos dois era o lugar. Quando Mr. Attaway procurou o diabo, os negócios na zona rural já não se mostravam tão lucrativos quanto Old Nick desejava, então a mudança para a cidade foi inevitável. Teve de cortar os cabelos, fazer um terno sob medida, teve de substituir a negociação gutural por uma linguagem de vendedor ambulante que fazia com que perdesse parte do respeito que tinha por si mesmo e por seus talentos demoníacos. Que tipo de mundo seria aquele no qual nem o próprio diabo poderia ser orgulhoso? Mas, o hábito que mais enraivecia Old Nick era, sem dúvida, o de selar um acordo com um aperto de mãos. Era revoltante que se vendesse a realização dos piores desejos de uma forma assim tão frígida, tão antisséptica. Mr. Attaway era um jovem morto de fome, que havia embuchado uma moça e não fazia ideia de como sustentar uma família quando sequer conseguia manter sua própria barriga cheira. A barriga de uma mulher grávida, grande como era, deveria exigir ainda mais comida. Trabalhara sua vida inteira na manufatura, e era prole de um casal igualmente morto de fome como o que pretendia então formar. Seus pais morram de frio quando era ainda muito jovem, e desde então trabalhara a preços irrisórios. Não sabia fazer nada além de fósforos. Sua negociação com Old Nick fora bem diferente da de Mama Mayhew. Mr. Attaway não tinha o amor-próprio necessário para negociar, só queria uma escapatória frente ao problema com o qual se deparava. Duas semanas depois, era um dos homens mais ricos em toda a terra da rainha, com um império de fósforos que se expandia até às colônias. Duas semanas foram suficientes para que deixasse de ser um faminto sem amor-próprio para ser um orgulhoso escravocrata. Ou melhor, capitalista.

Old Nick muitas vezes se sentia como um verdadeiro cobrador de impostos, tão burocrático quanto um agente da rainha, mas, obviamente, sem o mesmo prestígio, e seus clientes sempre exigiam sigilo demais. E foi com essa eficiência burocrática que cobrara as dívidas de Mama Mayhew e Mr. Attaway. Old Nick, é claro, não havia envelhecido um dia sequer desde que Mama Mayhew viera até ele. Na verdade, agora parecia ainda mais jovem, com o cabelo aparado e a barba feita. Era um tanto quanto revoltante para Old Nick que estivesse cada vez mais difícil encontrar pessoas dispostas a selar um contrato. A rainha velha era muito carola, mas Old Nick tinha experiência suficiente no ramo dos pecados para saber que esse tipo de coisa só atiçava mais os desejos escusos. Bastava ver Whitechapel; se algum lugar na terra já fora tão parecida com o inferno, era aquele bairro. Era tão parecido, na verdade, que Old Nick evitava andar por lá, não queria correr o risco de ser assaltado. Ou cair na tentação com uma prostituta sifilítica, já tinha sofrido com isso vezes o suficiente para saber se cuidar. O que Old Nick precisava era de clientes jovens e empreendedores, que pudessem ajudá-lo a estabelecer um sistema tão eficiente quanto aquele que tinha no campo, só que agora na cidade. Talvez até expandir, o império era grande, nenhum demônio de segunda classe ia conseguir peitar o grande diabo britânico, mas para isso precisava de um sistema de distribuição muito melhor do que o que tinha agora, isso de ir de porta em porta era, além de ineficiente, muito cansativo. E era um trabalho de vinte quatro horas, Old Nick estava cansado como o diabo.

Foi então que começou a engendrar seu plano maquiavélico. Não era dessas pessoas retrógradas que acreditavam que a corrupção era um traço do sangue. Mas não conseguia deixar de imaginar como seriam as pessoas criadas por alguém que lhe vendera suas almas. Uma pessoa que nem sequer era dona da própria alma, não dava valor suficiente para isso, deveria ser um parente muito ruim. Passou então a examinar os irmãos Mayhew e as irmãs Attaway. Era uma combinação perfeita. Perfeita demais para que se fizesse sem um pouco de ajuda diabólica. Old Nick soube muito bem se aproveitar dos instintos maternos de Mama Mayhew, assim como do orgulho e pragmatismo de Mr. Attaway, que faria tudo para barganhar, hoje, termos melhores do que aqueles que havia aceitado quando sua barriga estava vazia. Old Nick foi convidado de honra para o casamento. E era difícil dizer quem estaria mais feliz, ele ou os noivos.

E nenhuma situação seria mais propícia para abordar os jovens do que no funeral de Mr. Attaway e Mama Mayhew. Gentilmente, com toda a prática adquirida nos séculos, e com todo o pedantismo que lhe era asqueroso mas necessário, Old Nick se aproximou dos jovens herdeiros. Todos sabiam que Mr. Attaway fora rico, mas ninguém realmente parecia saber como funcionara tamanho império de fósforos. Os dois recém-consagrados casais sequer haviam se recobrado de sua dor o suficiente para pensar em tais assuntos. A fortuna que Mr. Attaway lhes deixava seria suficiente para manter um padrão de vida muito mais elevado do que aquele que poderiam esperar nesta etapa de sua vida, ou era assim que imaginavam. Não ficaram tão felizes ao descobrir que a fortuna de Mr. Attaway provavelmente morreria com o velho. Os dois irmãos Mayhew mentalmente xingaram o morto. Old Nick ouviu tais palavrões com o maior dos prazeres. Blasfêmias não podiam ser veladas frente a um demônio. E foi neste momento, em que a tristeza sobre os caixões ainda insepultos se desvanecera, que Old Nick tivera a certeza de que seu plano estava fadado ao sucesso.

Poucos meses depois, a Attaway & Mayhew não só era a maior produtora de fósforos de todo o império, mas também a maior exportadora de tecidos listrados, e agenciadora de pactos demoníacos. Desde o Raj até as Antilhas britânicas, nenhum centímetro de território pertencente à rainha escapava da ambição dos dois casais. Old Nick viu seu plano se desenvolver rapidamente, logo teve de contratar assistentes responsáveis por redigir os contratos infernais, disponíveis em três tipos de papel, a depender das preferências climáticas do cliente, as negociações eram coisa do passado, todas as trocas eram agora correspondentes a um preço tabelado, que qualquer outro demônio honesto acharia superfaturado, mas o nome de Old Nick no ramo era muito reconhecido, até mesmo a rainha condecorara os méritos da empresa. Condecoração essa feita no nome dos Irmãos Mayhew, claro, afinal, para a sociedade, havia sido a capacidade empreendedora dos recém-casados que trouxera novo folego aos negócios à velha manufatura criada por Mr. Attaway; mas no fim das contas, a condecoração fora parar na parede de Old Nick, claro. Agora decididamente estabelecido numa grande casa em Picadilly,  mas na qual passava muito pouco de seu tempo; gostava muito de viajar pelas filiais da empresa para conferir que não estava sendo enganado pelos demônios menores. Se tornou uma figura tão exemplar da comunidade infernal que seu par francês tentou por décadas seguir seu exemplo, sempre sem sucesso.

 

***

A estória merecia um fim. Mesmo que não seja este o fim merecido.

Talvez uma intervenção

Eram tantas as manias que você podia ter me passado, e a que ficou foi logo a de destruir livros. Agora sempre que leio tenho um lápis do lado, para sublinhar as passagens que acho interessantes, e poucos são os livros que li recentemente que escapam de ter suas orelhas dobradas.

Coloco o livro de lado. É daqueles que exige muito de mim. E nunca soube lidar com coisas que exigem demais de outra forma que não fosse procrastinando.

Toda vez que passo uma sexta-feira em casa fico ansioso, esperando que em algum momento, lá pelas duas ou três da manhã, você vá me ligar, talvez um tanto bêbada, para falar alguma coisa. Qualquer coisa. 

Toda vez que saio numa sexta à noite, tenho de me segurar para que não seja eu quem vá beber demais e te ligar para falar alguma besteira. Ou talvez nem para falar o que seja, não é como se soubesse o que fosse falar, talvez só o fizesse para ouvir sua voz. Mas pode ser que falasse algo muito estúpido, é o que costumam fazer as pessoas em situações como essas. E não posso me permitir ser ainda mais estúpido com você. Além do que, não é como se você fosse realmente atender. Não numa noite de sexta. Deve ter coisas melhores para fazer.

Lembra quando muitos anos atrás você me disse que isso de escritores se inspirarem no sofrimento era só um mito? Achei então que você havia me decifrado, que havia percebido que o ennui é só pose, que a pose de triste era só para fazer o poeta antes que as palavras o fizessem. Acho que me enganei. E mesmo agora, o que faz os dedos dançarem é o ócio. É estar em casa, num fim de semana de dia das mães, e não ter o que fazer, não ter em que pensar, se não em você, e em coisas que me disse anos atrás, coisas que você nem vai lembrar de ter dito. A memória é um brinquedo, mas é como aquele jogo de tentar acertar a faca nas lacunas entre os dedos. Se você brinca com memórias displicentemente, elas podem te causar dor, elas podem até fazer com que se perca para sempre um pedaço de você.

E eu podia escrever livros inteiros sobre fracasso,  e sobre como morrem os sonhos e as histórias de amor; sobre gerações perdidas entre incertezas, sobre rotinas sem saída e sobre auto-depreciação. Ao invés disso escrevo sobre o tempo perdido fantasiando e lembrando de você.

sábado, 27 de abril de 2013

"...Classic, with a hint of neurosis."

K, ainda muito jovem, se viu preso numa rotina. Todas as coisas, todos os fatores, se resumiam a números postos ao lado de atribuições. E era horrível que tal coisa acontecesse com alguém ainda tão jovem. Ainda estava na faculdade, mas seus números eram seguramente desimpressionantes: Num dia escovava os dentes duas vezes, se alimentava também duas, bebia cerca de cinco copos d’água, tomava banho uma vez no inverno e duas no verão;  dormia seis vezes por semana, ia para a faculdade três, encontrava com amigos duas; lia três livros por mês, via cinco filmes, saia à noite duas vezes, e, se tivesse sorte, fazia sexo numa dessas. Voltava para sua cidade natal a cada um ano e meio. Sua vida acadêmica era marcada em períodos de seis meses, a sua vida amorosa, antes dos vinte anos, era marcada por paixões que duravam um ano. Até que percebeu que o último percurso que deveria ter levado um ano já tinha passado dos três. Nada mais na sua rotina tinha mudado, apesar disso. Lembrava de uma música que dizia “you never get wiser, you only get older”.  Não se sentia mais sábio, só se sentia mais velho, e mais escravo de suas necessidades, mais incapacitado de satisfazer suas vontades. Era como uma carapaça que tinha crescido ao seu redor, uma forma de se adaptar à realidade, não de se por em bons termos com ela, é verdade, mas uma forma de não se machucar quando as coisas dessem errado. É uma das formas-padrão de lidar com esse tipo de coisa, junto do desenvolvimento de tendências cínicas e e pessimistas. Essas duas já acompanhavam K desde que conseguia se lembrar de si mesmo como algo além de um rascunho de ser humano, desde que deixara de ser uma tartaruga no aquário de uma pet shop para se tornar um adulto.
Exceto que a rotina não lhe trazia nenhuma das vantagens que deveria. Ele não se sentia confortável, não se sentia seguro, não se sentia bem; muito pelo contrário, só sentia um enorme peso nas costas. Sentia a necessidade de mudar, a vontade de fazer algo novo. Não só mudar o número que precedia alguma das atribuições, mudar o quadro como um todo. E não sabia o que o prendia. Não era simples preguiça. Não PODIA ser. “Ninguém é assim tão preguiço”, pensava. E, de fato, era um escravo da preguiça, mas conseguia convencê-la a alforriá-lo temporariamente sempre que precisava; sempre que estava muito carente, sempre que achava que agir ia ser de alguma forma útil, para uma causa ou para alguém de quem gostasse. Surpreendentemente, nunca para si mesmo, era egocêntrico, mas simplesmente não se importava. Foi só quando resolveu que realmente deveria mudar que percebeu, cabalmente, que não se tratava de uma questão de preguiça. A vontade de mover a bunda gorda estava lá, mas era só isso que estava. A carapaça, tal qual a de Gregor Samsa, o prendia, o sufocava. Queria mudar mas não sabia como, talvez sequer houvesse como. Queria mudar para mais, sendo que vivera por anos na disciplina do menos, queria andar com a cabeça erguida depois de ter se acostumado a tomar cuidado para não pisar em merda de cachorro. Não queria ser uma pessoa diferente, estava muito satisfeito com a pessoa que era, mas para mudar o resto, mudar a rotina, como fugir da mudança que deve se dar em nós mesmos? Queria, como uma cobra, se livrar da pele antiga, mas continuar o mesmo animal. Definitivamente era isso que queria, a outra opção seria uma fênix, que morre para dar vida a filhotes, a criaturas novas. Era poético demais, mesmo para K, era muito infantil e ingênuo; ou melhor, simplesmente não tinha a arrogância suficiente para atraí-lo. Lembrava de ter ouvido uma outra música que dizia algo mais ou menos assim: “I can’t save you, there’s no violence in your heart.” O coração de K estava cheio de violência, mesmo que grande parte dela não passasse de faz-de-conta.
Precisava de uma fórmula mágica, mas não era assim tão fácil, não é mesmo? Se o fosse todas as pessoas conseguiriam fazer o mesmo, se fosse tão fácil os problemas da humanidade – ao menos os emocionais e espirituais – praticamente não existiriam. Não, existiam as dificuldades materiais, existia o fato de que mudar a vida significava desistir de muitas coisas, algumas ruins mas outras boas, e desistir significava se sentir fraco, significava que se sentiria menor do que seu medo. Não em todas as coisas, não, se livrar da maioria das correntes que o amarravam seria ótimo, mas algumas não, e essas machucariam. Sempre poderia esquecer, é verdade, mas K nunca fora muito bom nessa brincadeira de esquecer. Talvez essa fosse uma das coisas que devesse mudar em si mesmo. Mas como se faz uma coisa dessas? Algumas mudanças são relativamente fáceis: mudar os ambientes que frequentava, mudar as pessoas com quem convivia. Mas não queria simplesmente sumir da vida de seus amigos, assim como não estava exatamente certo se deveria sair da faculdade, talvez tentar outro curso, talvez tentar algo complemente diferente. Não mudar essas duas coisas já eram permanências fortes demais para serem desconsideradas. Mudar as pequenas coisas (se tornar mais otimista, se tornar mais humilde, menos preguiçoso, mais alegre) eram as coisas importantes, ao menos é o que diziam a maioria das pessoas. E a maioria dos livros de auto-ajuda. Pensar nisso já fez com que K reconsiderasse a questão. E eram essas idiossincrasias que faziam dele quem era, não eram? Passara a vida toda tentando se convencer que sim, que aquela era a pessoa que era, e sem se importar muito com a questão disso ser socialmente fabricado ou espiritualmente inerente, não fazia diferença, o resultado era o mesmo. Mas e se não fosse? E se ele não fosse nada além da carapaça numa cor verde-amarronzada? Não conhecia muito de biologia, mas não podia deixar de imaginar se, algumas vezes, ao tentar mudar de pele, as cobras falhavam e se transformavam em amontoados de órgãos que deveriam ser internos esparramados pelo chão. Não conseguia deixar de imaginar: e se por baixo da carapaça do besouro não existisse nada? Talvez fosse esse medo, mais do que a preguiça, que o impedisse de mudar.
Ainda assim precisava tentar. Talvez desse errado, mas talvez desse certo. Apenas talvez. 

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A Fome

A Fome é diferente em cada um de nós. Todos, no entanto, estão famintos por algo. A Fome não pode ser saciada, não pode ser apaziguada, não existe solução. A Fome é a força motriz, é o motivo e o objetivo de tudo que fazemos. Alguns conhecem muito bem sua Fome, outros apenas arriscam dizer o que seria ela. Outros, como eu, e, talvez, como você, ainda não descobriram. Ou não aceitaram.

K, no entanto, era um jovem que conhecia muito bem sua Fome. E conhecia muito bem o poder que o desejo exercia sobre ele. Hoje em dia, especialmente para alguém jovem, parece cada vez mais difícil saber o que se quer. K sabia. Mas isso não era exatamente um alivio. Muito pelo contrário, saber o que queria era exatamente um problema para o jovem. A necessidade de K não era exatamente física, não era exatamente sexo. Era uma coisa que não existia, não propriamente, não quando se tem vinte e poucos anos. A Fome de K também não era por afeto, não era amizade o que ele queria, não era amor ou companheirismo, não era alguém com quem pudesse conversar ou alguém que pudesse compreendê-lo. Não, a Fome estava no laço e, mais do que isso, na complexidade dele. Nada que pudesse definir seria remotamente útil.

Tente lembrar uma daquelas cenas dos filmes mais antigos que mostravam o Dr. Hannibal Lecter poeticamente apreciando uma refeição. A carga irônica que se revelava quando o garfo entrava em contato com a carne, sem que o expectador tivesse certeza de qual a origem daquele alimento, mas que pudesse muito bem intuí-la. A tensão da faca cortando todas as células devidamente preparadas e arranjadas num magnífico prato, numa obra de arte culinária. A Fome não pode ser comparada com uma alimentação normal, só pode ser metaforizada nesse caso exatamente pela carga paradoxal que se encontraria nesse exemplo. E é aí que está a genialidade dessa metáfora. Mas na vida real a Fome é diferente, no mundo real a Fome é bem menos glamorosa, ainda que seja tudo que pode se existir de mais refinado numa existência. A Fome é psicopática. Sim, é uma obsessão, é uma pequena refeição que pode ser apreciada em todos os seus aspectos e que só serve para aumentar ainda mais a necessidade. Ou melhor, o desejo.

Não é algo bonito de se falar. Na verdade, pode muito bem chegar a ser pura e simplesmente errado falar sobre a fome alheia. Nada revela tanto da alma de alguém. Não as estórias de amor que tentam transformar todas as nossas características em metáfora, não as estórias de fantasia que são, em si, grandes metáforas; e, definitivamente, não as longas dissertações filosóficas sobre a psique de um personagem sobre a sociedade que o moldou e faz dele quem ele é. Quem faz de nós o que somos é a Fome. E – novamente – não é bonito que eu esteja aqui falando sobre a Fome que fazia de K quem ele era. Principalmente por ser essa Fome algo que ele mesmo não consideraria nem sequer ligeiramente elogiável. Que dizer então de reconhecer que era essa característica específica a base fundadora de seu ser? Da forma que levava sua vida? Para a maioria dos homens admitir tal Fome provavelmente não seria nem um pouco embaraçoso, mas o era para K. Ele era um jovem sensível e, mais do que isso, que pensava criticamente. E o seu próprio ser era o alvo preferido de suas críticas. Saber qual era sua Fome só deixava K ainda mais decepcionado consigo mesmo, e ele já era auto-depreciativo o suficiente.  Ainda que, de uma forma muito leonina, para o mundo exterior tentasse passar uma impressão de alguém seguro, até mesmo cheio de si. Pensava se todas as pessoas arrogantes eram tão inseguras quanto ele, mas duvidava que a resposta fosse afirmativa.

A Fome de K era o tempo. Era a espera. Era a tensão da caça. Era a conquista; não a conquista física, mas a conquista moral, espiritual, era a conquista total e definitiva. A Fome de K eram as relações de poder, na cama, nas carícias, nos olhares. Era saber exatamente qual efeito causava sobre alguém, fosse tesão ou fosse puro ódio, era a capacidade de transformar uma em outra e então de voltar ao começo. Era um trabalho lento, era um trabalho digno de um psicopata: a escolha da vítima, a escolha dos métodos e do momento, o prazer da vontade, do clímax e, depois, de se fazer ser odiado. Podia ser interminável, como uma dança, como o movimento de um pêndulo. Podia também ser muito rápido, todo o processo poderia durar apenas uma noite, mas nesses casos K não poderia aproveitar todas as suaves alterações no sabor de seu banquete, poderiam durar semanas, meses, até mesmo alguns anos. Podia ser fácil ou podia ser doloroso, era como experimentar um prato salgado para, na próxima vez, provar um doce. Uma quente e outra frígida.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Talvez uma intervenção

Você não faz ideia de como é difícil procurar por você em outras pessoas. Não sou idiota o suficiente para buscar nelas o todo daquilo que é você, isso seria impossível, é claro. Não existem duas pessoas iguais, mas me consolo em pensar que muitas possam ser parecidas. Nem poderia querer encontrar alguém que fosse exatamente igual a você, isso não me faria nenhum bem, só aumentaria minhas contradições, me faria duplamente decepcionado.

Não, o que procuro são pequenos detalhes que possam fazer com que me lembre de você, que possam fazer com que sinta como se estivéssemos juntos. Não faço isso conscientemente, deixo claro. Faço porque sou fraco, é inevitável. Escuto, por acaso, a conversa de duas pessoas. Sou observador, é isso que faço. E mesmo que não fosse, algumas palavras chegam a nós por acaso. E a palavra que chegou a mim foi o seu nome. Não consigo evitar, minha atenção é instantaneamente fisgada. Olho e percebo que é o seu nome, mas que não foi dirigido a você. A pessoa com seu nome não me fazia lembrar de você em nenhum outro aspecto. Não nos cabelos ou olhos ou nariz. E, apesar de ser errado julgar alguém assim tão sumariamente, nem de perto era tão interessante. Ainda assim, me interessava. Me interessava apenas por ter o seu nome, é verdade. Como poderia evitar? Me pus a pensar, rapidamente, que entre um beijo e outro poderia dizer o seu nome, que na cama poderia sussurrar o seu nome ao ouvido dela e ela nunca imaginaria que seria com você que eu estaria falando. Eu a estaria enganando, mas ela também enganaria a si mesma, e isso parecia tornar o pecado um pouco menor. E eu podia prever que aquilo iria saciar uma pequena parte de mim que havia sido deixada para morrer. E sempre foi essa satisfação pela metade minha sensação mais próxima da felicidade. Ao menos até você. Mas ela tinha o seu nome, a tentação era demais, tive de ir até lá.

Não foi a primeira vez. E, devo dizer, dificilmente será a última. O nome, no entanto, nunca tinha surgido antes. Existem tantos outros detalhes mais fáceis de serem encontrados, alguns tão insignificantes que precisam ser maquiados com um pouco de imaginação. Pode ser o cabelo, podem ser os olhos, pode ser simplesmente a geografia da pele. Nunca o sorriso, nunca o nariz, nunca o cheiro. É sempre decepcionante. Mas a realidade é sempre decepção. Maturidade é só uma forma de ir dessa decepção à seguinte sem desistir. É uma tentativa de lidar com as memórias. Mesmo que seja apenas fingindo que elas não estão lá. Existe, é claro, a necessidade de suprimir tudo que não é aquele detalhe. Se foi o cabelo que me levou até aquele pessoa, então é preciso ignorar a voz. As palavras podem ser os passos da dança do acasalamento humano, mas quando seus pés já conhecem a rotina o suficiente para dançarem no piloto automático é fácil desligar o cérebro. E assim as coisas se desenrolam. Não é você, mas são pequenas partes de você. Ou talvez essa seja só a desculpa que inventei para não me sentir tão culpado, tão fracassado. Provavelmente essa é a forma mais burra de se lidar com esse tipo de coisa. A chance de se ter algum tipo de redenção dessa forma é muito pequena. Veja que digo redenção, não superação ou qualquer outra palavra idiota que o valha e que seja utilizada por jovens que não sabem o que sentem. Eu sei o que sinto, como sei tudo sobre mim mesmo. Certa vez estava discutindo com você sobre o porque de gostar tanto de Murakami. Acho que foi porque os personagens dele conseguiram encontrar a si mesmo de uma forma tão assustadora, mas ainda assim continuam tão perdidos na confusão que é o mundo. Eu me identifiquei, mas para você isso só deve ter parecido um motivo para gostar menos daqueles personagens. Saber o que é, no entanto, não ajuda a descrever aquilo que sinto, sei que provavelmente não é amor a palavra certa (essa nunca é a palavra certa, especialmente comigo, especialmente com você), mas parece ser para sempre. E amor não existe, não é mesmo? É como felicidade. São coisas que só podem ser se no fim der tudo certo, mas no fim nada dá certo. Às vezes tudo que queremos é que dê errado por mais algum tempo.