quinta-feira, 23 de junho de 2011

Pessoas e lugares.

Ele estava na cozinha. Algumas panelas no fogão e luz da manhã entrando pela janela. Estava fatiando alguma coisa que ela não conseguia ver o que era.

Ela estava a alguns passos de distância, sentada à mesa, vestindo apenas uma das camisas dele. Estava daquele jeito porque isso a fazia sentir como em uma cena de filme. Talvez uma comédia romântica, gênero do qual ela não gostava muito, mas talvez de um drama, e ela adorava dramas.

“Isso parece uma coisa tirada de uma das minhas estórias”, ele falou. E ela percebeu que era verdade.

“Duas pessoas, um lugar pequeno… Não dizem que os melhores escritores são aqueles que conseguem aproveitar bem pouco personagens ao invés de ficar criando vários para preencher lacunas?”

“Acho que é verdade, mas duas pessoas nem sempre são pouco, especialmente para um conto ou algo assim”.

Uma pequena nuvem de vapor começou a se formar, e ela conseguia sentir o cheiro de café. Sorriu.

“Mas nas suas estórias as pessoas sempre são silenciosas, e nunca é tão claro quanto hoje, é sempre tarde, ou uma manhã cinzenta….”.

“Hahaha, é verdade, eu não sou muito bom em fazer as pessoas falarem, sempre acho que fica artificial quando eu tento, e eu prefiro o cinza”

Podia ser verdade, mas, se fosse, ela não conseguia entender o porquê dele ter janelas tão grandes. Grande parte de uma das paredes da cozinha era uma grande vidraça, quase com o uma parede de vidro. O céu estava azul e o Sol entrava sem nenhuma interrupção. Na sala havia uma parede parecida, e uma grande varanda na entrada. Mas no lugar onde ele escrevia era sempre cinza, na melhor das hipóteses. Pela casa também havia pelo menos uma vitrola velha e dois aparelhos de som mais modernos, que além de tocar vinil também aceitavam CDs e MP3. Quando ela o conheceu, e mesmo quando conhecia apenas o que ele escrevia, já imaginava os rádios, e também os livros por toda parte, mas nunca teria pensado nas janelas. Nas estórias dele os quartos e as casas sempre falavam muito sobre as pessoas, agora ela ficava imaginando o que as janelas diriam sobre ele.

Ele colocou uma xícara de café para ela e voltou a se concentrar em fatiar seja lá o que fosse. Ela não gostava tanto de café, não tanto quanto ele, mas gostava das xícaras grandes, arredondadas. Ela havia ficado muito feliz quando ele escreveu uma linha rápida em uma das estórias sobre essa mania dela.

Eles tinham se conhecido alguns anos antes, quando ele ainda não era um escritor de verdade, mas por algum motivo ela já tinha lido coisas que ele tinha escrito. Mas não foi realmente isso que o impressionou, ela era muito mais artista do que ele, de corpo e alma, e não conseguiu não ficar encantado por isso. Compartilhavam algumas manias, apesar de terem muito mais diferenças do que semelhanças, mas se davam bem o suficiente um com o outro para evitarem ir para a cama depois de um tempo.

“Não fique aí sem falar nada, o que você está fazendo? Você tem planos para hoje?”

“Estou deixando algumas coisas meio prontas para mais tarde, vou ter que escrever, lá na editora já estão me enchendo o saco.”

Ele sempre ficava um pouco nervoso quando os prazos estavam acabando, mesmo que ainda faltasse um tempo e não estivessem realmente tão preocupados assim com ele. Ela se levantou e foi ajudar, aproveitando para comer um pouco das coisas que ele esquecera de coloca na mesa quando serviu o café.

“Você devia voltar para a cama. Você escreve melhor descansado, e à noite. Se você quiser amanhã de manhã venho aqui ver como você está e te empurro para a cama. Ah, e vou passar na livraria mais tarde, se quiser posso te trazer alguma coisa.”

“Não, acho que tenho tudo que vou precisar aqui, muito obrigado. Não falta muito para acabar, queria terminar cedo para tentar te ver mais tarde na galeria.”

“Hahaha, você não vai conseguir terminar hoje, e não precisa se preocupar com a galeria, você pode ir outro dia.” Ali, lado a lado, se beijaram. “Devíamos fazer um filme sobre nós”.

“Um filme não, não tem emoção suficiente para um filme, mas talvez uma história…”

sexta-feira, 17 de junho de 2011

As Fantabulosas Aventuras do Mágico

“Isso, Majestade, venha aqui, por favor” o Mágico e mais quatro seguranças do tamanho de gorilas ajudavam a Rainha a descer do camarote até o palco. “Não, não, preciso que você fique com a coroa… Isso. Agora entre nesta porta.”

Eram duas grandes caixas vermelhas, separadas uns dois metros uma da outra. A Rainha entrou na da direita, o Mágico, na da esquerda. Em menos de três segundos ele saiu, ao invés da cartola, a Coroa Real na cabeça.

Os nobres aplaudiram efusivamente, apesar da quebra do protocolo. Mal podiam esperar pra ver Sua Majestade com um chapéu sem qualquer tipo de pena ou pedra preciosa.

“Vocês vão observar agora,” disse o Mágico alegremente, enquanto abria a outra caixa “que sua Rainha não está mais aqui!”

E era verdade. Caixa vazia. Todos assustados. Uma moça desmaiou na platéia, e pelo menos dois monóculos foram ao chão. “Em três dias, quero entregues em meu cofre na suíça um bilhão de libras esterlinas, Kate Beckinsale, um fio de verdade da barba do Sean Connery e a Cornualha, ou vocês nunca terão sua Rainha de volta!”

Disse isso e desapareceu.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Soneto à Anônima versejação

Úmida folha em chão seco de mitos
Basta um só vento que longe te leve.
És carne, és sonho, idéias e neve,
Campo de sonhos ainda inauditos.

Fosse eu dos grandes poetas peritos,
Far-te-ia a rimas, precisas e breves,
Para dizer-te “Oh, folha, releves!,
São campos secos, mas ainda bonitos”

É, porém, rouca e pueril minha musa:
Falta sentido e paixão duradoura,
Mata-me a idéia uma vírgula intrusa.

Queria ser qual tú, encantadora
Plena da arte que a nada recusa,
Úmida folha de Anônima autora.

sábado, 21 de maio de 2011

Piano

Há algumas semanas colocaram um piano na estação de metrô que costumo ter de usar todos os dias. É um projeto até interessante, o piano não é ruim e seu uso é livre, sem frescuras. Todos vocês já devem saber que tenho alguns hábitos noturnos, e mesmo que não os tivesse, sou obrigado a pegar um dos últimos metrôs para conseguir chegar em casa depois de sair da Universidade. Ah, nesse ponto provavelmente seria legal eu explicar que esse texto, extraordinariamente, é verídico - Ao menos em grande parte –, diferentemente dos que costumo escrever aqui, que são pura ficção, com apenas uma ou duas virgulas realmente minhas. Pois bem, o fato é que é verdade, e como verdade na vida de alguém não muito excepcional como eu, não tem nada que vá chamar muito a sua atenção, creio. As histórias realmente boas são pessoais demais para publicar aqui. Mas são essas coisas pequenas e em geral não-importantes que aquelas pessoas que escreviam, já muito tempo antes de eu juntar letras em palavras e palavras em frases e frases em textos de qualidade inferior, chamavam – e ainda costumam chamar, até onde sei – de epifania.

Mas voltando ao assunto. Todos os dias passo na frente daquele piano, quase sempre uma vez durante o dia e outra pouco antes do metrô fechar. Durante dia sempre tem alguém martelando as teclas dele, alguns com habilidade outros sem. Eu mesmo já arrisquei algumas notas mal-encadeadas baixinho, para ninguém ouvir, e olhando para os lados, como que fazendo aquilo na surdina. À noite a situação muda, quase sempre não tem ninguém tocando.

Algumas vezes tenho a sorte de voltar mais cedo, não muito, apenas alguns minutos. Numa dessas vezes, enquanto descia a escada rolante consegui ouvir as notas. Era uma música simples, mas nem por isso era feia. Era alguma coisa que eu nunca tinha ouvido antes. Ou simplesmente não reconheci, costumo demorar para reconhecer até mesmo algumas das músicas que mais gosto: não me vem o nome, ou o artista. Mas a questão é que não reconheci, e ainda não consigo reconhecer. Quando terminei de descer as escadas vi a velhinha tocando. Uma grande sacola de plástico encostada do lado do piano, não consigo encontrar nenhuma palavra melhor para descrevê-la do que maltrapilha. Não é uma palavra que eu goste, mas resume bem a situação. As roupas visivelmente remendadas e velhas, os cabelos, apesar de presos numa espécie de trança ou rabo-de-cavalo, estavam bagunçados. Não conseguia ver o rosto dela com clareza, ela se debruçava sobre o piano de uma forma desesperada, dava para ver – até mesmo sentir – a emoção que colocava em cada nota que fazia. Ela estava sozinha, me impressionou que ninguém parasse para ouvi-la. A música era realmente boa. Mas talvez isso não devesse me surpreender, a verdade é que eu nem mesmo parei, apressado que estava para chegar em casa e descansar depois de um dia cansativo. Mas quando atravessei a catraca pensei que deveria ter ficado lá, não muito só alguns minutos.

Várias vezes depois disso passei por aqueles lugar à tarde, e em algumas dessas vezes tive a chance de ouvir pessoas que tocavam muito bem, que juntavam uma pequena plateia ao seu redor. Às vezes não tão pequena assim para ser sincero. Mas nenhuma outra vez vi alguém debruçado sobre o piano como aquela velhinha. Ao menos não até ter a oportunidade de voltar um pouco mais cedo de novo. E lá estava a velhinha. A mesma grande sacola de plástico, talvez fosse outra roupa, mas tão velha e remendada quanto a outra, e tão curvada sobre as teclas quanto antes. E novamente ninguém tinha parado para ouví-la, mas dessa vez eu parei. Não fiquei muito tempo, é verdade, no máximo três minutos, mas nesses minutos fiquei imaginando uma história para aquela pessoa. Como havia aprendido a tocar piano ainda criança, como aquilo era agora importante para ela. Talvez o momento mais aguardado do dia dela fosse aquela hora, já com a noite adiantada, na qual sentava-se num banco frente a um piano em uma estação de metrô e acariciava as teclas como as velhas amigas que elas na verdade são.

Nunca vi o rosto da mulher. Depois desses três minutos saí do metrô pensando na importância da arte na vida das pessoas, e gostando dela um pouco mais do que já gostava. Até agora não voltei a encontrar a velhinha tocando no metrô.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Singelas Rimas ao Talvez Blog

Eis que lanço esta semente

De ode: poeminha breve

Se me ver pecar, releve

Se ler e gostar, comente

 

Escrevo aqui, mas desinteiro

(e em hora triste, oh!, horrores),

Pra agradar os Seguidores

- Já perdi a fé no dinheiro

 

Se eu, inábil menestrel,

Com meus postes não consigo

Fazer-lhe do blogue amigo,

Leia os do Emannuel

 

Não espere-nos Machado,

Baudelaire ou Saramago,

Mas repare: nada é pago

E é, as vezes, engraçado.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Talvez uma intervenção

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Eu realmente não sou o tipo de pessoa que se diverte muito com o convívio com os outros. Por vezes quando estou deitado na minha cama lendo algum livro penso que são aqueles momentos nos quais eu realmente posso ser eu mesmo. Quando estou na companhia de alguém dificilmente falo aquilo que vem à minha cabeça. Por vários motivos. O mais importante sem dúvida é que as coisas que passam pela minha cabeça dificilmente são o tipo de coisas que se fala para as pessoas. Em outras situações simplesmente acabo falando sobre coisas que as pessoas não querem ouvir, assuntos desinteressantes para elas, ou nas quais elas simplesmente nunca pensaram antes.

Mas não me entenda mal. Existem pessoas com as quais gosto de conviver. Mas isso geralmente implica em pessoas que falem, e que falem coisas as quais eu não me sinta mal de ouvir. É um pouco demais pedir para que alguém entenda minhas piadas internas – de mim para mim mesmo – ou minhas referências, mas as vezes me surpreendo com como o tempo faz com que aquelas pessoas que eu simplesmente costumava ouvir me entendam um pouco melhor quando falo.

Conhecer pessoas é fácil. As perguntas são sempre as mesmas, os assuntos-chave facilitam, podem até fazer com que as pessoas tenham uma boa primeira impressão e gostem de você logo de cara. Depois, quando esses assuntos morrem, fica mais complicado. Quero dizer, isso quando vale a pena tentar fazer uma ponte entre esse estágio e o que comentei no parágrafo anterior. A maior parte das vezes simplesmente não vale. Mas até aí, na maior parte das vezes somos obrigados a conviver com pessoas que não valem a pena. E é exatamente nos momentos em que isso fala mais alto que me deito na minha cama com um livro e penso se realmente essa estória de sociabilidade vale a pena.

O importante sem dúvida é se divertir. Se você não se diverte com alguma coisa, provavelmente você pode substituí-la por alguma outra que te diverte. Escutar o que aquelas pessoas que chamo de amigos tem para dizer provavelmente é a coisa que mais me diverte, não importa realmente o que elas estejam falando, sejam divagações filosóficas, sejam besteirinhas que não chegam sequer a ser triviais, ou até mesmo assuntos que poderiam ser considerados sérios, já que numa conversa entre amigos nenhuma conversa é realmente séria, e nenhuma conversa escapa de algumas amenidades. Caso contrário eu realmente não sei se seria amizade de fato.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

As Novas Aventuras do Mágico

Lhe haviam dito que, num restaurante de culinária japonesa tão tradicional como aquele, um chefe japonês espumando de raiva saltaria da cozinha até sua mesa se molhasse qualquer coisa que não o peixe no shoyu.

O Mágico parou por alguns instantes e cogitou: o que lhe fariam se pedisse um ketchup?

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Talvez uma intervenção

Todas as noites pouco antes de me deitar eu rezo. Não da forma que as pessoas costumam fazer isso. Não rezo para um Deus inefável, eu rezo para Bob Dylan.

Todas as noites quando encosto minha cabeça no travesseiro imediatamente começo a pensar. Talvez já estivesse pensando mesmo antes disso. Penso sobre pessoas que provavelmente não deveriam estar em meus pensamentos tão tarde da noite. Porque sempre é tarde. Sempre é muito tarde. Geralmente é isso que acontece com pessoas que só conseguem realmente se sentir vivas à noite. Pelo menos é o que acho. É com a cabeça nesse travesseiro que penso nas coisas que fiz durante aquele dia e aquela noite. Penso em como certamente poderia tê-las feito melhor, e como na verdade não me sinto arrependido por não tê-las feito da melhor forma que podia. Mas não, isso é um pouco de hipocrisia, é difícil olhar para todas as coisas que se fez durante as 24 horas de um dia e não desejar que ao menos um segundo fosse diferente. Mas é fácil esquecer esses segundos, especialmente quando se quer guardar a lembrança de um dia como sendo bom.

Deitado naquela cama penso sobre todas as pessoas que encontrei e preferia não ter encontrado, a maioria preferia não ter que ver nunca mais. Mas é muito fácil não gostar das pessoas, pelo menos para mim, pelo menos nos últimos tempos. As pessoas sempre vão te dar muitos motivos para que você não goste delas. Às vezes você vai estar numa época em que nem vai perceber esse tipo de coisa. Outras vezes você não vai deixar o menor detalhe escapar. Às vezes eu tento lembrar a letra daquela poesia do James Joyce que o Syd Barret musicou. Outras eu penso nas pessoas que gostaria de ter encontrado naquele dia e não encontrei, mas sempre existe a chance de nos encontrarmos nos sonhos, não é mesmo? Ou amanhã, mas o amanhã sempre parece mais traiçoeiro e menos mágico do que os sonhos. Sonhar com alguém não é muito diferente de dormir com alguém, só é mais intimo. E, segundo Freud, tem significado.

Naquela mesma cama, e com a mesma cabeça no mesmo travesseiro penso nos lugares que quero conhecer, e o que gostaria de fazer neles. É como sonhar, só que até esse momento eu ainda não consegui dormir. Penso em como deve ser andar pelas ruas de Londres, mas a Londres que conheço não existe mais, não existe a pelo menos cem anos. Penso em tomar um café no Blv. St. Germain, mas o café que conheço lá já deve ter falido antes dos nazistas terem invadido a cidade. Penso em como Clara Schumann tocaria piano até que eu conseguisse dormir. E depois disso talvez deitasse ao meu lado, talvez trazendo com ela o marido.

Penso em como vou ser daqui a vinte anos. Nunca mais do que isso, me amedronta pensar que posso estar aqui depois disso. Penso se alguém estará pensando em mim naquele momento. Mas não, já é tarde, todos devem estar dormindo. Pensando nisso afasto meu travesseiro, algumas noites jogo ele no chão ou em algum outro lugar. Tenho uma teoria de que enquanto conseguir pensar e lembrar do que estou pensando o sono ainda está longe. O sono não gosta de mim, mas eu gosto dele, todas as noites espero por ele, todas as noites fico um pouco desapontado porque ele nunca vem. E assim se passam horas, as vezes dias, me revirando na cama, pensando em estórias que adoraria passar para ao papel. Mas aos poucos não sei mais o que acontece com essas estórias. Eu deixo de lembrar as coisas imediatamente depois que penso nelas – pelo menos é o que acho, se lembrasse disso a minha teoria estaria já provada errada. Quando de repente acordo, sem nem mesmo poder dizer que dormi, apenas que cansei de esperar.

Mas, ainda assim, todas as noites deito e tento, e espero o sono enquanto penso no mundo que já não vi muitas vezes e nas pessoas que não estão pensando em mim. E nenhuma manhã – pois foram as manhãs que Bob Dylan reservou para o sono quando as criou – faz com que eu me arrependa.