quinta-feira, 19 de março de 2026

alexitimia (lutando com palavras)

 

Esse episódio / texto / coisa está sendo escrito já há algum tempo, e ainda assim eu não tenho certeza de como começar a conversa. Mas eu vou arriscar começar falando de um livro, e no fim das contas espero que dê pra entender o porquê.


Um dos meus livros favoritos se chama “O Fabuloso Maurício e seus Roedores Letrados”. É uma versão esquisita do flautista de Hamelin, em que um gato chamado Maurício articula uma aliança entre um rapaz flautista e ratos inteligentes que vão de cidade em cidade simulando pragas de ratos pra que o flautista seja contratado pra se livrar delas. Quase tudo o que o Terry Pratchett escreve, e praticamente tudo do que eu gosto, é esquisito, mas isso não vem ao caso agora. O que é importante pra nossa conversa é uma das personagens, a Malícia Grima. 

Malícia Grima é uma garota que aprendeu a entender o mundo através dos livros, especialmente os “contos de fada” escritos por suas tias (as famosas Irmãs Grima). As pessoas ao seu redor — pelo menos as bem intencionadas — lidam com isso em graus variados de tolerância e exasperação; mas invariavelmente, ao longo da história, há um descompasso entre sua percepção de mundo e a das demais personagens.

Em um dado momento do capítulo 4, Malícia descobre o golpe que Maurício, o flautista e os ratos aplicavam conforme viajavam de cidade em cidade, e é assim que Pratchett descreve a cena: 

“Enquanto observava Malícia se decidir, Maurício teve a impressão de que a cabeça dela funcionava de um modo diferente da cabeça das outras pessoas. Ela entendia as coisas difíceis sem nem sequer pensar. Ratos mágicos? Claro, claro. Gatos que falam? Estive lá, fiz aquilo, comprei a camiseta. As coisas simples é que eram difíceis.

Os lábios dela estavam se movendo. Ela estava, Maurício percebeu, inventando uma história a partir daquilo.


Eu sou a Malícia Grima. Por muito tempo eu fui bem pior, na verdade; por uma época boa da minha vida eu não tinha essa consciência de que minha forma de ver e interpretar o mundo (e principalmente ver e interpretar as pessoas) era a mesma da Malícia: eu não conseguia compreender o mundo senão como uma história, com seu senso específico de justiça narrativa, de bem, e de mal, com suas relações literariamente organizadas de causa e consequência. Isso acabou me causando umas boas dificuldades: as formas de expressão de carinho, amor, frustração e tristeza que funcionavam nas Aventuras de Xisto, ou no Corsário Negro, ou nos Doze Trabalhos de Hércules, não funcionavam no dia-a-dia de uma criança adolescendo; o que nas histórias era a atitude correta diante de um problema, no mundo era às vezes inconveniente, às vezes muito esquisito, e às vezes até errado ou incompreensível. Mais tarde no livro, quando Maurício está discutindo com o menino flautista o comportamento de Malícia, ele diz o seguinte:


“(...) — Ela é pirada da cabeça, se quer saber. É uma dessas pessoas como… como os atores. Você sabe. Representa o tempo todo. Vive completamente fora deste mundo. Como se fosse tudo uma grande história. Perigoso Feijão é um pouco assim. (...)
— Bem, isso é inofensivo, não é?

— Sim, mas, nos contos de fadas, quando alguém morre… é só uma palavra.”


Uma parte das relações que eu tinha provavelmente funcionava porque as pessoas achavam que eu estava brincando (ou, perigosamente, tirando com a cara delas) — afinal, eu era 'inteligente', tirava nota boa, não era possível que eu não entendesse o que estava fazendo. Uma outra parte destas relações — algumas das quais duram até hoje — funcionava porque eram pessoas também esquisitas, cada uma do seu jeito, pra quem meu modo literariamente organizado de me expressar não causava (tanto) estranhamento. 

As histórias em geral e a literatura em particular ficaram sendo, assim, as grandes responsáveis pela minha alfabetização emocional, de forma que eu não só aprendi a interpretar o mundo através do código e das expectativas de uma história, como também desenvolvi uma capacidade muito maior de expressar o que estava acontecendo dentro de mim através de histórias (que serviam pra eu contar apenas pra mim, no começo), e depois músicas e poemas. 

Corta pra semana passada (na verdade, quando eu comecei a escrever este texto em 26 de setembro de 2023, isso era semana passada, mas agora já não é mais) quando meu amigo Zuni me contou sobre a alexitimia, e de que forma ele acha que ela pode, em alguns casos, provocar literaturas:

A princípio, ‘alexitimia’ se refere a uma condição pela qual uma pessoa não consegue expressar adequadamente suas emoções. A ideia é justamente uma incapacidade do ‘léxico’, das palavras, de expressar uma emoção, '-timia'. Parece que ela pode se referir a outros comportamentos e sintomas pra além da falta da verbalização dos sentimentos — daí como os pesquisadores que cunharam o termo se viram com essa salada etimológica e epistemológica é um problema deles.

(Pesquisando um pouco — contra meus princípios — pra escrever isso daqui, parece que a salada etimológica é ainda mais complicada; no grego, “alex-” já tem outro significado, algo como “defender” ou “proteger” — o nome “Alexandre”, por exemplo, significaria algo como “defensor dos homens” — mas os cientistas que inventaram o termo (um deles, inclusive, grego) cometeram o neologismo apesar disso e pronto.)

Zuni me apresentou a esta palavra quando conversávamos sobre neurodivergências e suas formas de manifestação; a hipótese que ele apresentou — pelo menos da forma como eu a entendi — é a de que um dos lugares onde se gesta o impulso pela poesia é este da alexitimia: pessoas incapazes de formularmos o que sentimos pelas vias “normais” eventualmente recorremos à metáfora, à metonímia, e a outras figuras mais pra tentar por alguma coisa pra fora.

Certamente o raciocínio dele é mais sutil e sofisticado que isso, mas isto não é problema meu. O meu problema é pegar a versão mais simples do raciocínio que eu entendi pra lutar com a palavra que se apresenta. De todo modo, quer na versão sofisticada quer na versão simplificada, essa hipótese do meu amigo me pegou —- a ponto de eu vir aqui, escrever, incomodar pessoas pra ler o rascunho, gravar(?) e editar isso tudo.

Eu não sei se ‘alexitimia’ é clinicamente o conceito que melhor descreve minha relação com as palavras e com as emoções, mas este não é um texto sobre medicina. Pode ser que haja outras síndromes ou sintomas ou o que quer que seja que impeçam que uma pessoa aprenda a interpretar e entender o que sente, de botar isso em palavras, de reconhecer isso em seus semelhantes. Na verdade, nas condições brutais a que muitas pessoas são submetidas no mundo de hoje, não acho que sequer precisem necessariamente de algum gatilho biológico ou predisposição à neurodivergência pra terem bloqueadas algumas de suas capacidades de perceber e compartilhar sentimentos. Mas reconheço que há algumas pessoas pra quem esses fatores externos não precisam ser tantos, e eu sou uma delas. Sendo assim, acho bom que haja ‘alexitimia’ enquanto conceito, no fim das contas, pra que possamos ter essa referência a partir da qual descrever nossa experiência (mesmo que seja pra dizer, “o que eu tenho parece com alexitimia, mas é diferente assim dessa maneira:”) 

Uma coisa que me impede também de dizer, cientificamente, que alexitimia é o conceito clínico que descreve minha relação com as emoções (ou, pelo menos, de onde essa relação parte) é que ao que parece não há um consenso científico a respeito do conceito propriamente; na versão psicanalítica da alexitimia (segundo, veja bem, a wikipedia) um dos aspectos que a caracteriza é a incapacidade, ou pelo menos uma grande dificuldade, com ‘processos imaginais’ — e isso é bem o oposto da minha experiência. Mas pra versão cognitivo comportamental do conceito (segundo também a wikipedia), a questão do processo imaginal já não teria esse peso — então de um ponto de vista cognitivo comportamental minha experiência combinaria com o que se chama de “alexitimia”, mas do ponto de vista psicanalítico, não.

Outra coisa que me impede de dizer, por minha conta, que eu seja uma pessoa alexitímica é que, né, não tenho nem roupa nem diploma pra isso. Passei entre 2024 e 2025 por um processo de diagnóstico pra ver qual é que é, e parece que é alguma coisa mesmo, mas mesmo um diagnóstico feito por profissionais competentes não conta a história inteira. De todo modo, não sendo a alexitimia clínica, que seja a alexitimia existencial; a ideia do Zuni me pegou, no fim das contas, na ida e na volta.

Na ida, pessoa que me ouve / lê / capta telecosmicamente, porque eu sou a Malícia Grima. Gosto de histórias, entendo como elas funcionam, e me divirto vendo os mecanismos da palavra e da narrativa se encaixando uns nos outros. Mais que isso, mesmo hoje, incomparavelmente mais capaz de interpretar o mundo do que quando eu era criança e adolescente, e mesmo aí nos primeiros anos da vida adulta, ainda tenho limitações importantes: não consigo perceber quando as pessoas estão flertando ou bravas comigo, não consigo perceber alguns tipos de ironia, sou notoriamente ruim de detectar panelinhas (já mais de uma vez comentei a respeito de pessoa A pra pessoa B, ou pedi notícias de C pra D, pra descobrir que elas se detestam, ou que nunca conversaram na vida fora de uma troca profissional de informações), etcétera. Também, mesmo que mais competente do que já fui, ainda não consigo dizer com certeza, quando pessoas queridas se afastam, se elas ficaram chateadas com alguma besteira que fiz com minhas limitações de compreensão, ou se elas só ficaram sem tempo por conta dos ossos do capitalismo mesmo. E o que ainda me salva para entender o que consigo entender é a literatura; com a Graça de Deus, da biblioteca da minha avó e das aulas do João, eu consegui chegar nos Machados de Assis, Virgínias Wolfes e variantes, e aí minha compreensão do perfil psicológico das “personagens” que me cercam ficou mais, por assim dizer, redonda. Mas mesmo em uma versão mais sofisticada, a literatura ainda segue sendo uma bússola que orienta boa parte do que me faz entender e agir no mundo das relações entre as pessoas.

A ideia do Zuni também me pegou na volta porque, desde muito antes dessa conversa com ele, eu concebo a literatura (e por extensão as artes como um todo) como ponto de conexão entre experiências de vida (há alguns anos atrás eu teria completado “experiências de vida humana”, mas “Humanidade” é outra palavra com a qual eu tenho lutado). Minha experiência de vida tem, provavelmente, muito pouco a ver com o que quer que os helenos estivessem fazendo há três mil anos, mas qualquer que tenha sido o pedaço de Homero que inventou os versos em que Odisseu, de volta em Ítaca, vê a casa de Laertes parece que sabia exatamente o que eu estava sentindo quando, depois de um ano sem pisar em Guará, vi no horizonte o contorno da serra da Mantiqueira. Eu não sei se consigo conceber a vida que se leva no coração do império americano, mas quando Octavia Butler escreveu, através de Olamina, que “Deus é Mudança”, lembrei e reencontrei em palavras muito mais precisas uma fé que eu já tinha inventado pra mim mesme, e voltei a ter alguma paz na minha relação com este mundo em que tudo o que é sólido se desmancha no ar. Nunca estive prese, nem, ainda mais grave, na França, mas, no auge do período de isolamento na pandemia, a madrugada que eu atravessei lendo o suplício de Edmond Dantès na Fortaleza de If, e seu encontro com o Abade Faria, e depois com o mar, me ajudou a atravessar muita outra madrugada e muito outro isolamento desde então.

Do outro lado, alguns dos maiores combustíveis da minha escrita são as vezes em que alguma pessoa querida me leu e contou que um texto mexeu com ela, ou que se sente daquela forma exatamente, ou que se lembrou de alguma música minha por uma ocasião qualquer; às vezes até textos meus já antigos, de que não gosto mais, de repente voltam a funcionar pra mim, depois de terem sido lidos desse jeito. (Eu posso já não me conectar tão bem com tudo o que yuri de 20 anos sentia, mas ainda há gente bacana no mundo que se conecta, pelo visto, então fica o texto justificado). Escrever e compor é a forma que encontrei de expressar aquilo que não sei articular pela via da sociabilidade do dia a dia; quando me falha o gesto, a expressão, o tom apropriado da voz e do corpo, a literatura vem ao meu resgate. Leio, e leio, e escrevo, e escrevo, pra combater essa minha alexitimia (quer existencial, quer clínica). Se alguém me pergunta: ‘mas o que você quis dizer com esse texto?’ ou ‘com essa música?’, eu só posso, sinceramente, dizer que quis dizer o que o texto disse; se eu soubesse dizer de outro jeito, sem o espelho da metáfora, mas na precisão da palavra certa, do olhar certo, do tom de voz apropriado, teria dito.

(Ou quem sabe não, querida pessoa que me lê, ouve ou capta de outra forma. A verdade é que a forma como aprendi a estar no mundo é esta. Se algum dia inventarem uma “cura”, pra que eu saiba descrever exatamente como me sinto e entender como as pessoas ao meu redor se sentem sem precisar recorrer a subterfúgios literários, eu não tenho certeza se faria o tratamento.)

No fim das contas, eu acredito que mesmo as pessoas mais bem ajustadas ao mundo compartilhem um pouco dessa experiência de nem sempre saber organizar o que se passa dentro delas (ou de não saber com certeza o que as outras pessoas estão tentando expressar sobre o que se passa dentro de si). Não posso, é claro, ter certeza disso, mas intuo. Não porque a arte e a literatura existam; obviamente, elas cumprem muitos outros papéis pra além dessa experiência de conexão emocional. Minha intuição se origina mais, provavelmente, de uma desconfiança geral que eu tenho em relação à normalidade e às afirmações totalizantes. Reconheço que deva haver uma “média” de auto- e heteropercepção emocional, e que haja uma curva mais ou menos normal de distribuição que lastreie nossa capacidade de nos constituir enquanto seres sociais e culturais. Mas isso está longe de significar que a maioria das pessoas esteja o tempo todo ciente de todos os processos emocionais em si e ao seu redor. 

Além dessa intuição desconfiada, talvez parte da minha crença na existência dessa incerteza compartilhada sobre o que sentimos seja oriunda de um tipo meio torto de esperança. Por um lado, uma esperança de artista que quer sentir que seu ofício é relevante, que mesmo a pessoa mais normal e ajustada do mundo esteja sob risco de algum dia ouvir uma música minha ou ler um texto meu e pensar “caramba, é exatamente assim que eu me sinto.” Por outro lado, é a esperança de uma Malícia Grima, que se sente menos só ao encontrar outras pessoas que ouvem e contam histórias para tentar entender o mundo.

 

 primeiro (e talvez último) texto de uma série em que quero discutir palavras específicas, e de que forma elas me movem. 
 a versão de O Fabuloso Maurício e Seus Roedores Letrados, de Terry Pratchett, que cito neste texto é a de 2004 da Editora Conrad, na tradução de Ricardo Gouveia. 
(isso NÃO É conteúdo de valor médico ou científico! se você está atrás de explicações científicas ou médicas a respeito de como alexitimia funciona, não é aqui que você vai achar ((isso dado, as poucas informações de caráter acadêmico que constam neste texto foram tiradas dos seguintes linques (que compartilho menos a título de citação e mais a título de você fuçar por conta própria, se quiser): https://www.scielo.br/j/ptp/a/WxJrZhZ9Nn78jyQqJD5ZyKp/; https://sites.usp.br/revistaneurocienciasecomportamento/wp-content/uploads/sites/995/2023/07/Volume-1.pdf; https://en.wikipedia.org/wiki/Alexithymia)))  

segunda-feira, 9 de março de 2026

Jacopo na Fortaleza de If

1.
não sei dizer ao certo, meu amigo se o mar é um espelho do céu
ou se o céu é um espelho do mar
é um problema que certamente diverte os filósofos, mas a mim só me ocorre
a visão do vermelho de seu barrete refletido na água, 
agitando-se mais desesperadamente do que as ondas

como vem agora a visão da fina fumaça que escapa da torre de vigia de if
uma cicatriz que corta o céu, com seu duplo inconstante ferindo a água salgada
“um prisioneiro escapou de if”, anuncia o tiro de canhão


2.
quando vi seu corpo afundando no mar, meu amigo,
instintivamente olhei para cima, em busca do duplo que afundasse em direção ao céu da manhã
mas ele não surgiu - precisei então enrolar meus dedos em seus cabelos, selvagens como os de um salteador, precisei te parir do fundo do mar para dentro de meu bote

eu reconheço que havia uma espécie de doçura na sensação de seus cabelos, mesmo durante a luta contra o mar
havia um certo brilho em seu corpo, mesmo que quase abandonado pela vida

não é por generosidade pura que compartilho agora a calça e a camisa que me restam
não, eu reconheço, de alguma forma é apenas um impulso, quase egoísta, de manter a salvo
este brilho, esta doçura

3.
haverá um dia, meu amigo, em que o céu se cobrirá destas cicatrizes,
em que o ar se tornará pesado pelo ribombar incessante dos canhões das fortalezas dando o alarme:
“caiu if, escaparam todos”
“caiu a bastilha” e “caiu guantánamo”
“caíu fenestrelle” e “caiu a penitenciária de santana”

só peço a Deus que minhas mãos tenham força para puxar do mar 
aqueles que se extraviarem no caminho de volta pra casa
só peço a Deus que a calça e a camisa que me restam sejam suficientes para agasalhar a eles todos
 

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

09:57

Assim como muitos,

A minha cabeça só vai pra um lugar

E parece que vai e volta


Só existe o antes e o depois

O agora é sempre uma dúvida

O espaço não é um ponto

Mas um espaço

Em que se movimenta


Movimentos então

As vezes se encontram

Nunca parados nem no mesmo lugar

É uma dança


Não existe "o mesmo tempo"

Porque pra ir pra lá toma tempo

Era antes, e vira depois


E existir não é ser humano

Porque ser humano

É olhar o relógio, preciso,

Mas jamais saber

Que horas são



terça-feira, 15 de julho de 2025

poética 2

para Marian

1. 
cometer no ar ou no papel a palavra, 
matéria prima dura,
mas não sendo a palavra o que perdura

não sobra a palavra,
pelo menos, não pura,
mas palavra imaginada em meia cura 

2. 
Um poema escrito
Numa janela embaçada
O que dele dura?

3.
afiar a palavra para que fira
como o dente que rompe a casca de uma fruta 
em busca do que escorre: a doçura 
de quem se deixa ferir pela palavra 

 

terça-feira, 1 de julho de 2025

junho de dois mil e vinte e cinco

1. 

pela janela do carro cai um véu, e é como se outra noite cobrisse a noite;

uma noite mais líquida e dura;

ausente de atrito, mas densa demais para que se possa chamar suave

2.

o dever dos vivos é cuidar dos vivos,

deixar que os mortos se cuidem entre si;

mas no espelho desta noite feita duplamente, parece que só consigo enxergar o reflexo dos fantasmas que moram em mim;

o brilho de ave dos olhos da minha avó, a barba do meu padrinho,

o número de telefone da Dinha, que só tinha sete dígitos;

estão todos tão nítidos para mim, nessa noite em que quase nada se enxerga;

3.

mas os vivos nos aguardam, sozinhos e com frio;

soterrados na fuligem, presos numa maca, nus ou quase nus;

tateamos através da noite dupla, tripla, infinita

nós que também vamos nus

na esperança de nos vestir do calor uns dos outros. 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Haikaitralhadora

 (haikais cometidos sucessivamente entre novembro e dezembro de 2024, sem muita edição, em preparação para um projeto que há de sair no ano que vem, com a graça de Deus)


24 de novembro:

no norte as bombas
chovem como siriluias;
no sul, um verão

25 de novembro:

a brisa estremece
os pezinhos de hortelã
mesmo que eu não olhe

26 de novembro:

como a chuva encontra
o chão no fim do dia quente:
encontrar o poema

29 de novembro:

de volta a guará;
uma lagartixa morre
no chão da cozinha

1º de dezembro:

uma flecha preta
atravessa a rodoviária:
cachorro de rua

3 de dezembro:

manhã de dezembro,
uma chuvinha cai, fria,
meu joelho dói

4 de dezembro:

mal desço pra rua
o casaco já viaja
da cintura às costas

meu corpo se fecha
ao frio, até que o invade
a dama da noite

10 de dezembro:

a fumaça sobe
do café do condutor
rumo ao céu nublado

13 de dezembro:

a lua amarela
espia, por entre as nuvens,
o engarrafamento

14 de dezembro:

na tarde cinzenta
meu suor se mistura a chuva
descendo a ladeira

17 de dezembro:

do meu travesseiro
a mariposa reclama
que a noite não passa

18 de dezembro:

com a voz vestida
de noite, Lia derrama
o mar em meu rosto

22 de dezembro:

as patas rosadas
do cachorrinho de praia
procuram tesouros

porto de galinhas -
as cores do fim do dia
inventam tons novos

cachorros vadios
brigam de brincadeira:
um coco é o prêmio

24 de dezembro:

mãos verdes acenam
numa noite de Natal;
palmeiras ao vento

26 de dezembro:

carcará em voo
ao alto de seu coqueiro.
são dois carcarás!

a penugem chove
e pousa na água quente.
pena de que ave?


segunda-feira, 4 de novembro de 2024

segunda-feira, 1 de julho de 2024

Quanto do teu sal? (sonetralhadora #7)

Aos passos curtos, como quem marcha sem pressa,
mesmo que a marcha dure mais do que devia,
marcha-se mais, mais rocha dura se atravessa,
se vê mais longe a luz que frágil principia;

Sob bandeiras cujo colorir não cessa,
ao ritmado de um cantar de euforia,
vi germinar em meio aos estampidos dessa
Marcha uma promessa boa como o dia:

Um Porto cujas naus partem a toda vela,
em busca de temperos mais suaves, qual
quem prefere o brilho do sol ao do aço;

Um Portugal que sem querer a si revela
a derramar ao mar novo tipo de sal:
Trocar bandeiras como quem dá um abraço

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

A pergunta que fica da vida

Como de costume em qualquer outra vida ou ocasião, a vida do ser humano era uma coisa difícil. 

Na verdade, verdade mesmo, não era que a vida era uma coisa difícil, mas é qua a palavra "difícil" foi inventada para falar de como se levava a vida.

A vida era um equilíbrio muito sensível, instável e frágil provavelmente por ser ao mesmo tempo específica mas complexa demais. 

Precisava disso e daquilo e daquele outro, uma série de condições sem fim num universo que também era um infinito de caos.

Justamente por isso, a vida que se mantinha era a vida que não parava de trabalhar. Não é que era bom e não é que era o certo, nem tinha essas coisas, e também não é porque era preciso, era simplesmente por acaso, e aquele acaso laboroso diferenciava a vida do que não era vida. 

A vida era muito egoísta, foi ela mesma que inventou isso de que ela era de alguma forma especial, foi ela que ao categorizar tudo, sem querer, por acaso de novo, por via do tempo que passou e de muitas outras vidas que não duraram, categorizou a si mesma: a vida. Isso foi inevitável, e inevitavelmente e ao mesmo tempo também, nomeou para si mesma seus deuses que eram seus algozes: o desequilíbrio, o trabalho, a morte.
(Inventou também, mas não antes disso, o livre arbítrio, e ainda mais, sem juízo de valor nenhum, se ajuntou nessa hora a inventar também o bom e mau.)

Vendo-se enlameada de desiquílibrio e afundando, emboscada pelos olhos frios da morte e sustentada pelos ombros sádicos do trabalho, a vida decidiu, pedaço a pedaço, que a única forma de alcançar um pouco de ar era devorando-os. 

Como imortais, a lama subia, a brisa era dura e gelava, e o movimento feria.

Então a vida se deparou com o que não esparava: sua razão era a de devorar o universo sem parar.

Mas como tudo não lhe cabia na boca, afinal era de tudo que a vida fazia parte, tudo era dos deusas deuses e ela uma mortal, a vida, sem entender nada, foi dando ritmos às mastigadas, intensidade às mordidas, misturas, e harmonias às bocadas.

Criou a música, as palavras, a pintura e a matemática. Criou a biologia, a justiça, o esporte, a filosofia, aprendeu a cozinhar, a costurar, a correr, a andar de bicicleta e tudo mais o que há, pois afinal de contas só hão por a que a vida há de havê-los.

E assim a vida segue, e a pergunta que fica é a pergunta da boniteza, como um sussurro irônico dos tais deuses: será, onde, como, e por quê?




quinta-feira, 17 de agosto de 2023

O Espelho de Madiã

Na primeira versão da fábula, havia dois Espelhos: um juiz chamado Madiã desejava saber o que sua esposa sentia quando se deitavam juntos, e recorreu a um espírito do fogo para ajudá-lo. O gênio deu a Madiã dois espelhos quase idênticos, engolido cada um pela moldura de um leão dourado, um caolho da vista esquerda, outro da direita. Era preciso que Madiã e sua mulher olhassem simultaneamente seu respectivo espelho, desejando sinceramente ser o outro, para funcionar o feitiço. A esposa de Madiã — para qual os fabulistas nunca deram um nome, como às vezes acontece — olhou para o espelho dentro da boca do leão canhoto de olho: quando deu por si, o rosto que a mirava era o de seu marido, e o leão da moldura de seu espelho só tinha aberto o olho direito. Mas ainda que perceber seu próprio corpo nu à luz da lua lhe encantasse de alguma forma, ela não suportou estar dentro do corpo de Madiã, que parecia, visto por detrás do nariz, subitamente muito feio. Madiã — ou sua esposa, ocupando seu corpo — teria então escondido os espelhos no fundo de uma gruta, para não serem mais encontrados.

Ainda assim, algumas centenas de anos depois surgiu a história de um paxá com um par maravilhoso de espelhos de propriedades similares. O paxá era tido como o homem mais culto de seu tempo, por conta, dizia-se, do seguinte artifício: sempre se informava de antemão sobre qual era o grande interesse de qualquer dignatário estrangeiro que viesse visitá-lo — se as ciências naturais, a história, a criação de cavalos, a poesia etc. — e usava seu par de espelhos encantados para trocar de corpo com algum de seus secretários ou amantes que gostasse de se ocupar daquele tema em particular. Ao mesmo tempo em que escapava, deste modo, das inconveniências do trato maçante com estrangeiros e diplomatas para fumar e jogar gamão, sua fama de polímata e conversador versátil se espalhava pelo mundo. A boa vida do sábio paxá foi interrompida, porém, quando um de seus generais mais ambiciosos se recusou a desfazer a última troca, aproveitando-se da iminência de um conflito nas fronteiras para convencer os secretários mais importantes a manter o truque em sigilo. O paxá, no corpo do general, foi condenado ao exílio, e a ter seu olho direito vazado. Os espelhos foram entregues a um dervixe que fazia a Haje, para que fossem destruídos ou purificados, conforme ele melhor entendesse. Por precaução, furaram-lhe o olho esquerdo.

Quaisquer que tenham sido as preces purificantes do dervixe, os espelhos desaparecem aí, e reaparecem em um convento um par de séculos adiante. Uma das irmãs enclausuradas, filha mais moça de uma família abastada de cristãos novos, se apiedou do esforço que suportava o jardineiro do convento, um velhinho curvado e barbudo, que mancava por conta de um ferimento de guerra. Ela apanhou de um baú trancado no quarto da superiora o par de espelhos mágicos — que diziam ter vindo do túmulo de um santo em Jerusalém — e convenceu o velhinho, pelas grades da clausura, a trocar de corpo com ela nos dias de maior calor. Com o tempo, outras irmãzinhas se juntaram à troca secreta, e o jardineiro, que antes não conseguia dormir de noite por conta dos reumatismos, aproveitava as horas ajoelhado em oração para descansar o espírito naqueles corpos jovens e sem dores.

As irmãs por sua vez aproveitavam o corpo do velho para se esgueirar para além do claustro; e toda a cidade se espantava com o velho jardineiro que saía por aí oferecendo pão fresco do convento para mendigos, passeando descalço pelo riacho, fazendo coroas de flores para dar de presente aos doentes e sozinhos. Mas não é do feitio do diabo permitir que um instrumento seu seja usado para o que é bonito: o coisarruim se encarnou então na forma de um inquisidor que visitou o convento por ordem do bispo, e lá constatou sinais claros de feitiçaria. Pisoteou com seu pé cascudo o espelho do leão destro de olho até reduzi-lo a areia, e fez uma a uma as irmãzinhas olharem no espelho que sobrou, o leão com o olho esquerdo:

Agora, porém, o efeito era outro. Quem quer que olhasse o Espelho de Madiã sobrevivente era lançado para fora de si, e tinha o espírito trocado por uma pessoa que, desesperadamente, já não desejava mais estar em si mesma. As almas das enclausuradas foram espalhadas para todos os lados do mundo, trancadas para dentro dos corpos de loucos, suicidas, perdidos e infelizes. As almas destes, por sua vez, vieram parar dentro do claustro, que se tornou agora mais sombrio que antes, e cujo jardim não sobreviveu ao próximo inverno. Feliz com o trabalho bem feito, o diabo jogou no rio a areia do espelho destro, mandou o espelho canhoto para ser usado nas missões do Novo Mundo, e tirou sua roupa de inquisidor, que já estava ficando esgarçada.

Depois de muito esforço, encontrei o rastro do Espelho de Madiã que sobrava: não me lembro quantas pessoas subornei ou chantageei, quantas trocas fiz, quanto dinheiro gastei… Foram anos árduos para que eu o tivesse em minhas mãos: cuidadosamente embrulhado, a moldura, tão linda, acobreada, aquele olho verde e leonino me encarando, o vidro completamente coberto com papel pardo… Até que percebi um dia um brilho diferente. Não sei o que pode ter rasgado o papel daquela forma, um rasgo tão fininho, mas suficiente para que eu visse meus próprios olhos; e então já não eram mais meus olhos olhando para seu reflexo no espelho, eram estes olhos que não conheço, olhando para seu reflexo nesta faca. Eu não sei de quem são estes olhos, eu não sei o que é esta faca, e eu não sei por que você está aí onde você está. Só sei que a pessoa que segurava esta faca desejava desesperadamente não estar aqui, e é o que eu também desejo.
 

quarta-feira, 7 de junho de 2023

Fundo que nem raiz de jataí


Gosto de pensar: que minha avó sorri quando dou comida pros bichos
(especialmente onde não se deve)
ou quando cozinho devagarzinho, andando de um lado pro outro
da cozinha
ou quando vou guardando potinhos e garrafinhas que encontro por aí
pra poder usar de novo depois, nunca se sabe
(especialmente quando tenho uma pilha de potes
muito maior que as necessidades de uma cozinha razoável)
ou quando tomo chá de boldo ou de dendilhão pra algum malestar

Gosto de pensar: que minha avó sorri quando rezo a Ave Maria
às seis da tarde, voltando pra casa, quando o sino bate
na igreja do lado do metrô, bem na hora que eu saio da estação
e que ela sorri, talvez até um riso com barulho e tudo, ainda que não gargalhado
quando eu arrebento ainda outro terço sem querer
que continuo guardando terços nos lugares errados, tentando colocá-los
onde terços não cabem

Ganhei muitos presentes da minha avó, visíveis e invisiveis
O mais visível é o pé de Jataí imenso que cresce ao lado da casa da roça
que ela trouxe ainda broto pra plantar ali
Grande e bonito como o mundo, sua copa encarapitada no alto do morro
Se deixa ver de longe
Já amassei muitas das folhas secas que caíram da Jataí
Carreguei pedaços dos galhos que caem da árvore: me ajudam a sonhar
Já parti com martelos e o pé, e hoje mesmo com as mãos
a casca das jataís que caem da árvore
sujei meus dentes de verde, adocei minha língua
Um doce que dura muito tempo

Todo ano vejo brotar os filhotes da Jataí:
Como feijões imensos e cor-de-rosa procurando o sol
E sonho com carregar adiante o presente da minha avó:
encher os morros todos de jataís enormes de frutos doces
Mas o tempo do mundo já não é o tempo dos brotos de jataí:
Uma foice, uma roçadeira, uma mula esfomeada,
A Jataí permanece sozinha.

Uma vez calharam de crescer um par de brotos até uma altura
que estava além da fome e das roçadeiras
Mas cresciam por debaixo dos fios da rede elétrica
Se não fosse por sua pequenês, seria sua grandeza que as condenaria
Pensava sempre que era preciso trocar logo os brotos de lugar, antes que ficassem grandes demais, e difíceis de tirar

Mas o tempo do mundo já não é o tempo dos brotos de jataí:
Sempre havia trabalho que fazer em outro lugar
Eu mal vou pra Guará, quem dirá pra roça

Quando fomos tirar os brotos do lugar, já estavam mais altos do que eu:
e raiz de jataí cresce fundo, mais fundo do que a árvore é alta
Naquele dia, cavando a terra com meus irmãos, e meu tio, e meu pai,
foi que percebi que aquela jataí imensa que minha avó plantou
do lado da casa da roça
talvez chegue com sua raiz até o coração do morro
talvez o morro já nem saiba o que é seu formato sem aquela raiz pra guiá-lo

A terra escapou das raízes dos brotos
Não cavamos certo, não cavamos fundo o suficiente
Os brotos saíram da terra como dentes em um buticão
Depois da extração, não tínhamos mais energia para cavar uma cova daquele tamanho
que abrigasse aquilo tudo de raiz
Então improvisei a cova que pude apoiando aquelas arvorezinhas tortas
num barranco de terra vermelha
onde brincávamos de fazer caminhos pra descerem bolinhas de gude

Por ainda algumas semanas, quando eu conseguia voltar pra roça,
eu insistia em regar aqueles filhotes de árvore moribundos
Suas folhas verdes amarelando e amarronzando
O marrom dos galhos cada vez mais cinza

A Jataí permanece sozinha

Sei: que minha avó teria sabido o tempo dos brotos
e que teria dito o dia certo e o momento propício,
o tamanho apropriado da cova
para escavar a terra, para carregar os filhotes para um lugar novo
onde ficassem tão grandes quanto quisessem

Mas gosto de pensar, quando estou triste pelos jataizinhos que não salvei
e por outras coisas,
gosto de pensar: na sensação das mãos frias e pequenas da minha avó nos meus cabelos
no seu cheiro fresco, e em como era fácil abraçar
seu corpo pequenino
Tão menor que a Jataí, mas autor de tantos trabalhos penosos

A verdade é essa: passei da minha vida muito pouco tempo no mato pra ser do mato;
muito pouco tempo na pedra pra ser da pedra;
minhas mãos só servem pra matar filhotes de árvore e
pra apertar os botões errados no elevador do prédio

O filhote de árvore de que ainda tenho esperança de cuidar é o que
plantou em mim a Jataí de minha avó
por ele é que ainda tenho vontade de

Amar como uma Jataí: até os recônditos da terra, as raízes
esticando-se, afagando o húmus, desenrolando-se até os aquíferos;

Amar como uma Jataí: tão alto quanto possível na atmosfera,
os ramos abrindo-se para o céu, as folhas refletindo o sol;

Amar como uma Jataí: sombra num dia de sol, abrigo num dia de chuva

Amar como uma Jataí: fruto para quem tem fome, fogo para quem tem frio, flor para quem se sente só


sexta-feira, 10 de março de 2023

Canções para fazer brotar um rio

para Nara, e para Lena

1.
Dizem que Moshê feriu as pedras a pauladas para fazer brotar a água
Deu certo, mas a que custo? 

2.
Os rios precisam, para brotar, de canções mais sutis que aquela do pau contra a pedra:
O gelo andino se desmanchando ao sol, o olho d'água agitando a areia no meio da mata, a chuva de verão encharcando a serra;

3.
Cada rio que brota é um milagre,
Não pela sede que sacie, mesmo que sacie muita sede
Não pela vida que carregue, mesmo que carregue muita vida
O milagre é que o rio brote, e o rio que brota é o milagre;

4.
O difícil dos rios é que só se pode amá-los em movimento;

5.
Se eu fosse profeta, inventaria uma religião toda fluvial:
As noviças percorreriam um rio da nascente até o mar
As iniciadas de volta do mar até a nascente;
Só atingiriam o sacerdócio as que encontrassem
na volta uma nascente diferente daquela de que partiram;
Só conheceriam a fé verdadeiramente
as que, sem perceber, mudassem de rio no meio do caminho;

6.
A verdade é que não posso ensinar quem quer que seja sobre canções para fazer brotar um rio:
Moshé escreveu cinco livros para ensinar como fazer um mundo, um país, um povo,
e mesmo assim fez o que fez quando se tratou de brotar a água;

7.
Mas tenho fé nos aquíferos que moram em nossos subterrâneos
Há uma hidromancia toda nossa, se nos permitirmos
adivinhar a água pela água;

8.
Todo rio é presente de um rio que veio antes
Rios que correram por sob a terra, por sobre o ar, rios caindo das nuvens, ou das estrelas;

9.
Todo rio que brota é um presente,
Não pela sede que sacie, mesmo que sacie muita sede
Não pela vida que carregue, mesmo que carregue muita vida
O presente é que o rio brote, e o rio que brota é o presente;

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Liturgia (2)

Então Jesus olhou para todos os que estavam ao seu redor, e disse ao homem: "Estenda a mão." O homem assim o fez, e sua mão ficou boa.

 

Meu Deus não celebra a páscoa na igreja
(Só comparece quando é convidado
e mesmo assim nunca com certeza)
prefere o chão, cem vezes, ao tablado

Meu Deus celebra a páscoa onde esteja,
com vinho, ou guaraná, e pão assado
O culto do meu Deus se faz à mesa
só se louva a meu Deus acompanhado

Meu Deus não celebra a páscoa na igreja
(Se tenta, botam-no logo de lado)
É uma religião que escapa ao sentido
a de um Deus que fornece Seu exemplo: 

Nunca realizar milagres no templo
(Exceto nos casos em que é proibido)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Manual de Dermatonomia — ou, qual a diferença entre uma verruga e um olho de peixe?

 para a Raíssa

    Quando uma bruxa (ou bruxe, ou bruxo) lança uma maldição, se forma sobre a pele da pessoa amaldiçoada uma verruga. O tamanho e aspecto da verruga podem variar conforme o rancor da bruxa (ou bruxe, ou bruxo) contra a pessoa amaldiçoada, e a força da maldição: quanto mais poderosa a maldição, maior será a verruga; quanto mais rancorosa, mais a verruga apresentará uma tonalidade que se destaque na pele da pessoa atingida.     
    A localização da verruga pode variar conforme o tipo de desagravo cometido contra a bruxa (ou bruxe, ou bruxo) em questão: esbarrar com uma bruxa (ou bruxe, ou bruxo) na calçada, por exemplo, provavelmente vai te render uma verruga em um braço ou ombro; a uma pessoa que julgue muito barulhenta, a bruxa (ou bruxe, ou bruxo) fará crescer uma verruga em alguma parte mole, normalmente a barriga, a bochecha, e, em casos especiais, uma das nádegas; pessoas que façam pouco caso da culinária de uma bruxa (ou bruxe, ou bruxo) podem ver em si brotar uma verruga na língua, ou na sola do pé; atrapalhar uma bruxa (ou bruxe, ou bruxo) que tenta enxergar o céu noturno rende uma verruga na ponta do dedo inconveniente; por fim, entre as de mais interesse, é no nariz que crescem as verrugas de pessoas amaldiçoadas por terem feito pouco dos poderes mágicos de uma bruxa (ou bruxe, ou bruxo). Não é à toa, aliás, que tanta gente haja, entre a bruxaria, com verrugas imensas espalhadas pelo nariz: o segundo passatempo favorito das bruxas (e bruxes, e bruxos) é fazer pouco caso das habilidades mágicas de outras bruxas (e bruxes, e bruxos); seu primeiro passatempo favorito, por sua vez, é lançar maldições a outras bruxas (e bruxes, e bruxos) que fizeram pouco caso de seus encantamentos.    
    A quantidade de verrugas é invariável: sempre exclusivamente uma por maldição. Isso se dá porque a ofensa é a matéria prima da verruga, e as leis naturais são muito claras nesse sentido: independente do poder, do rancor, ou do direito de vingança que uma bruxa (ou bruxe, ou bruxo) tenha sobre uma pessoa que a ofendeu de algum modo, cada ofendimento só é suficiente para produzir uma unidade de verruga — é responsabilidade da bruxa (ou bruxe, ou bruxo) caprichar na maldição, caso se importe tanto assim com o desrespeito sofrido. Algumas bruxas (e bruxes, e bruxos), naturalmente, tentam burlar a natureza, quando sentem que o rancor não foi ainda exaurido: aprendem os horários da pessoa a quem querem amaldiçoar repetidamente para esbarrarem com ela de novo e de novo ao atravessar a rua para o mercado; se acostumam a ouvir tudo no volume mínimo, a andar o dia todo com abafadores nos ouvidos, apenas para retirá-los quando sabem que a pessoa a ser amaldiçoada vem visitar; presenteiam a amaldiçoável com seus bolos e doces menos favoritos, toda semana, um favor entre vizinhos, meu bem; misturam o nome de estrelas e constelações para ver seu alvo colocar um dedo entre seus olhos e o céu noturno; erram feitiços, poções, e fórmulas de encantamento de propósito, só para ouvir o bufar autoconfiante da bruxa (ou bruxe, ou bruxo) que se acha superior.
    Mas logo descobrem que não é a mesma coisa. As verrugas subsequentes, forjadas de desagravos forçados, não têm o mesmo ímpeto, o mesmo charme, não têm arte. É a verruga pela verruga. A verruga traidora, que chega mesmo a realçar o desenho dos ombros ou valorizar o olhar afiado da pessoa atingida, agora mais bonita com suas três verrugas do que quando não tinha nenhuma.

    Por sua vez, os olhos de peixe aparecem quando uma sereia (ou sereie, ou sereio) se apaixona por alguém. No caso, o tamanho do olho de peixe independe do tamanho do apaixonamento da sereia (ou sereie, ou sereio), ou de seu poder, que as leis da natureza que regulam a paixão são outras, e não funcionam muito bem com isso de forças patológicas e medidas taumatúrgicas. É, na verdade, muito mais cronológico. O olho de peixe é o resultado da permanência do olhar apaixonado de uma sereia (ou sereie, ou sereio) por sobre aquele pedaço do corpo da pessoa amada: quanto mais tempo olha, tanto mais cresce.
    Cada sereia (ou sereie, ou sereio) tem seu tipo. As que se apaixonam mais facilmente por pessoas parecidas consigo mesmas, normalmente ficam olhando para as mãos de suas amadas, e comparando com as próprias mãos, e daí de surgirem olhos de peixe em tantas mãos. As que se apaixonam mais facilmente por pessoas diferentes de si, se enamoram normalmente das pernas e dos pés de suas amadas, e daí que haja tanta gente com olhos de peixe nos joelhos ou nos pés. É difícil as sereias (e sereies, e sereios) porém ficarem olhando muito tempo para nossos rostos — acham as expressões humanas muito secas e terrestres para seu gosto, normalmente nos amam apesar de nossas caras, e não por causa delas.
    O amor é coisa muito mais produtiva do que o despeito, pelo que uma única paixão pode levar a muitos olhos de peixe. Na verdade, a origem de um olho de peixe é coisa muito complicada de se identificar: há casos de múltiplos olhos de peixe no corpo de uma pessoa, causados por uma sereia (ou sereie, ou sereio, não se sabe ao certo) indeciso a respeito de qual parte achava mais charmosa na pessoa amada. Há o caso de uma pessoa que tinha, dizia-se, o cotovelo tão ao gosto de uma sereia, e ume sereie, e um sereio, que os três juntos revezavam-se admirando-o, a ponto de um olho de peixe do tamanho de uma bola de gude ter crescido ali. Mas é sempre incerto, e a natureza desproporcional entre o amor e o tempo complica as coisas: como saber quantas sereias (e sereies, e sereios) são responsáveis por aquele olho de peixe? Como garantir que a sereia (ou sereie, ou sereio) que por mais tempo admira seu tornozelo é realmente quem está mais enamorada? Às vezes alguma das outras pretendentes é mais tímida, ou às vezes há uma sereia astigmata, ou distraída, que precisa olhar longamente para aquele tornozelo para ter certeza de seus detalhes apaixonantes.
    Mas estas perguntas e especulações são todas, no fim das contas, vazias. Tanto faz se é uma ou mais de uma sereia (ou sereie, ou sereio) quem te ama, como tanto faz saber qual delas te ama com mais intensidade. Todo o povo do mar aprendeu há muito tempo que seres humanos só se amam de vista — e o mais conveniente ainda, ensinam aos cardumes de filhotes de sereia, recém saídos das ovas, e o mais conveniente é que seja uma paixão de mão única. Mirem os humanos, ensinam, suas mãos tão parecidas com as nossas e suas pernas tão diferentes, mas não deixem os humanos mirarem de volta. O máximo que se ganha do amor de um ser humano é uma cantiga triste, ou a sensação de desaparecer na espuma.


sábado, 1 de outubro de 2022

Oração para São Jerônimo

(para o Leandro D.)  

Meu vô Willy xingava palavras feias:
Scheiße!, ele dizia. Verdammt!
e talvez outras, importadas da Renânia, que eu não conheço

e a vó Emília dizia que não, amuada
que não falasse palavrão assim
é pecado

Pecado? Pecado como?
Gott kann kein Deutsch

Talvez seja isso mesmo, vovô
mas eu acho que o buraco é mais embaixo

Na minha experiência, Deus não se presta a nos atender muito em português tampouco
(só se for do jeito d'Ele, lá pelas Suas linhas tortas)
Alguma coisa se perde na tradução,
no pecado como na graça

Acho que Deus só fala mesmo é latim
Por isso inventou São Jerônimo, para que
ele pudesse vir e dar um relato mais preciso
do que Seu Filho andou fazendo nos anos que andou
de férias entre nós

Intercedei por nós, São Jerônimo
traduza nossas preces, para que cheguem aos ouvidos de Deus
num linguajar que Ele entenda

Intercedei por nós, paizinho Jerônimo
verta as respostas de Deus com carinho
para que mesmo Seus nãos mais absolutos
soem doces aos nossos ouvidos cansados

domingo, 4 de setembro de 2022

Frodo em Imladris

Viver pode muito bem ser que seja
a sensação de acordar de um sonho triste
para outro
Sentir no ombro a cicatriz da ferida de ontem
Sentir nas mãos o comichão da ferida de amanhã

Viver pode muito bem ser que seja possível apenas
na escolha de seguir marchando
de um sonho ruim para outro
da ferida de agora até a próxima

Não devemos nos espantar diante da ignorância
nem nos arrepender de não termos memorizado todos os mapas:

Os que conhecem o caminho
não seriam capazes de trilhá-lo


domingo, 3 de julho de 2022

não é preciso ir longe para encontrar o monstro:

ele está logo aí, mais que teu vizinho

um inquilino íntimo do teu peito

quem sabe é ele mesmo que lê

ele mesmo é quem escreve

 

tu reconheces o monstro nas passagens mais sutis

no ponto entre uma faixa e outra da curva

na esquina da esquina

 

espelhos são desnecessários, nesse sentido

 

querer encontrar o monstro com um espelho é um erro que cometem os inexperientes

sim, o monstro está neles

além da íris, a sugestão do monstro fica visível em quase todos

os reflexos de quase todas as pupilas

mesmo a das crianças

 

mas, mas!, que deselegante querer assim procurar o monstro

mais bonito é encontrá-lo no gesto suave

no virar do rosto

na mão que segura a faca com

um pouco mais de força do que é preciso

no passo que hesita no

vão entre o trem e a plataforma 

na esquina, enfim, da esquina


o monstro, encontrado no fundo dos olhos, no olho d'água de um espelho

é muito mais assustador

muito mais difícil de amar


mas como não sentir carinho pelo monstro que percebemos

nos dedos que escavam nossas têmporas

na boca que toma com muita pressa a bebida quente

ou gelada demais


é preciso amar o monstro

(da forma oblíqua

na esquina, veja bem, da esquina)

para que ele não nos consuma

sexta-feira, 17 de junho de 2022

quinta-feira, 21 de abril de 2022

sonetralhadora #6

mas veja que cristão este país:
a todo criminoso, um indulto
pode ser salafrário, ou inculto
pode enfrentar o mais cruel juiz

no fim, há de se salvar por um triz
qualquer perpetrador de seu insulto
muito além da Justiça mora um vulto
pra salvar, na caneta, o infeliz*

*exceto, é claro, se o infeliz for pobre**
ou se, sei lá, fizer muita pergunta,
e não topar resposta atravessada.

**daí, mesmo ele não fazendo nada,
a Lei com todo seu vigor lhe cobra.
o crime? depois a Justiça inventa... 

 

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Éowyn nos campos de Pelennor

um tom cristalino cavalga o vento e alcança 

nossos ouvidos e corações:

eu creio, meu irmãozinho, nessa promessa de um mundo novo:

um que surgirá não apesar dos pequeninos

nem por cima de seus cadáveres;

mas sim de seu trabalho e de sua canção.


a escuridão que ainda há não passa do pânico do velho mundo dos homens

que estrebucha ferido, 

podre, 

moribundo


mas olhe para suas mãos, irmãozinho, e olhe para meu rosto

já não somos homens