segunda-feira, 9 de março de 2026

Jacopo na Fortaleza de If

1.
não sei dizer ao certo, meu amigo se o mar é um espelho do céu
ou se o céu é um espelho do mar
é um problema que certamente diverte os filósofos, mas a mim só me ocorre
a visão do vermelho de seu barrete refletido na água, 
agitando-se mais desesperadamente do que as ondas

como vem agora a visão da fina fumaça que escapa da torre de vigia de if
uma cicatriz que corta o céu, com seu duplo inconstante ferindo a água salgada
“um prisioneiro escapou de if”, anuncia o tiro de canhão


2.
quando vi seu corpo afundando no mar, meu amigo,
instintivamente olhei para cima, em busca do duplo que afundasse em direção ao céu da manhã
mas ele não surgiu - precisei então enrolar meus dedos em seus cabelos, selvagens como os de um salteador, precisei te parir do fundo do mar para dentro de meu bote

eu reconheço que havia uma espécie de doçura na sensação de seus cabelos, mesmo durante a luta contra o mar
havia um certo brilho em seu corpo, mesmo que quase abandonado pela vida

não é por generosidade pura que compartilho agora a calça e a camisa que me restam
não, eu reconheço, de alguma forma é apenas um impulso, quase egoísta, de manter a salvo
este brilho, esta doçura

3.
haverá um dia, meu amigo, em que o céu se cobrirá destas cicatrizes,
em que o ar se tornará pesado pelo ribombar incessante dos canhões das fortalezas dando o alarme:
“caiu if, escaparam todos”
“caiu a bastilha” e “caiu guantánamo”
“caíu fenestrelle” e “caiu a penitenciária de santana”

só peço a Deus que minhas mãos tenham força para puxar do mar 
aqueles que se extraviarem no caminho de volta pra casa
só peço a Deus que a calça e a camisa que me restam sejam suficientes para agasalhar a eles todos